Tulum – México – O paraíso das cavernas submersas

Foto: Clécio Mayrink

Há 13 mil anos atrás, quando a Era Glacial acabava, o nível do mar estava a 65 metros abaixo do nível atual. A Península Yucatán no Golfo do México, precisamente a planície Banco de Campeche, que atualmente é o fundo do oceano, era seca e era possível caminhar. As cavernas hoje alagadas, eram na época secas e outras, habitadas por seres humanos.

A temperatura da Terra aumentou, os icebergs começaram a derreter, quando três eventos catastróficos ocorreram, elevando o níveo do mar em vários metros e tão pouco tempo, alagando assim, as cavernas existentes no Golfo do México. Durante este processo, algumas áreas das cavernas cederam, abrindo assim, buracos denominados de Cenotes, que atualmente são utilizados como entradas para as cavernas. Derivado da palavra Maya Ts’onot, significa o abismo, profundidade, lago ou poço de água doce muito fundo ou profundidade sem fundo.

Com a exploração das cavernas e cenotes submersos, muitos mistérios apareceram, sendo desvendados ao longo do tempo.

Ao menos três esqueletos completos humanos foram achados dentro de uma caverna submersa, sendo datados entre 11.300 e 13.000 anos atrás. São considerados os primeiros humanos que habitaram as cavernas na fase seca antes da grande inundação por volta de 8.000 anos atrás. Testes realizados através do carbono 14, confirmam que trata-se de esqueletos pré-históricos do continente americano. Ossos de animais já extintos também foram encontrados e foram datados da Era Glacial, ancestrais de elefantes, Preguiças, Tapirus, Tatus Gigantes, Girafas e alguns animais que viviam no interior das cavernas. Os Mayas que viviam na região da Península Yucatán há 3000 anos, por sua vez, relacionavam cenotes à fertilidade, nascimento da vida e acesso ao mundo dos mortos. Foram encontrados no interior dos cenotes, diversas oferendas provenientes dos Mayas, como vasos de cerâmica.

Ossos humanos também foram encontrados em abundância, uma vez que, os mayas, realizavam rituais funerários nos cenotes. Em alguns cenotes como Cenote Sagrado, foram encontrados mais de 100 esqueletos humanos.

Os cenotes foram utilizados também pelos espanhóis na época da colonização como principal fonte de água doce. Fazendas e conventos foram construídos nas proximidades dos cenotes.

No cenote em Valladolid Yucatán encontraram mais de 153 armas entre rifles e canhões jogados pelos espanhóis, durante a tomada da cidade pelos mayas em 1847, evitando que os mayas tivessem acesso às armas durante a Guerra de Castas. Hoje os cenotes são frequentados pelos mergulhadores atraídos pela rica história local e belezas naturais das decorações presentes no interior das cavernas, como estalactites, colunas, cortinas, formações, vasos, ossos humanos e animais. A cidade de Tulum está no centro desta história dos cenotes e a equipe Brasil Mergulho foi conferir a beleza e o mistério das cavernas ao convite de Robbie da operadora Xibalba.

Foto: Wlada Dekina
Foto: Wlada Dekina

Tulum

Com menos de 22.000 habitantes e localizada ao sul da Península Yucatán do estado de Quinta Roo, a 120 km de Cancun e 50 km de Playa Del Carmen, Tulum é conhecida por um mar de florestas densas e que ainda exibe sua hegemonia e única ruína Maya construída no litoral. E a viagem começa ali, no paraíso das cavernas decoradas ou mais conhecida como “Meca de espeolo mergulho”, simplesmente porque é um dos melhores locais do mundo para esta atividade.

Saindo do aeroporto de Cancun e entrando na estrada 307-Sul e que possui duas faixas em cada sentido, dirigimos até a altura do Km 230, e chega-se a Tulum. Não se preocupe, não há como errar: é uma linha reta !

Chegando lá, muita atenção, pois o centro é tão pequeno que se não prestar atenção é capaz de se cruzar a cidade sem que se perceba.

Chegando na entrada da cidade, você cruzará a estrada federal que o levará às cavernas ou às praias. Toda a faixa litorânea desde Cancun, é invadida pelos hotéis com os mais variados níveis e preços, e além dos hotéis, há também opções de casas de temporada para alugar, pousadas ou até resorts com sistema all-inclusive (tudo incluso). Em Tulum, há muitas opções do que fazer, como snorkeling nos cenotes, passeio de bicicleta, visita a X-caret (parque aquático que está 70 km de Cancun), passeio de jipe, kitesurf, visita à ruína, lindas praias com água quente, sol e claro, cave diving (mergulho nas cavernas).

Praticamente toda a região de Tulum é “inundada” por baixo pela água doce. Pode-se dizer que a cidade foi construída em cima de um enorme sistema de cavernas decoradas, pois nessa região de Yucatán, existem inúmeros cenotes com vários sistemas que hoje, já foram contabilizados 730Km de extensão de condutos explorados e cabeados. Os sistemas são Ox Bel Ha (atualmente o maior sistema do mundo com 173 km de extensão), Nohoch Na Chich e Sac Actum, ou cenotes conhecidos como Gran Cenote, Car Wash, Calavera. Há também outros pouco conhecidos como Chan Hol, Vaca Ha, Tortugas, dentre outros.

Mas como compreender o tamanho de tudo isso ?

É fácil. Existem cenotes que as pessoas um dia encontraram e nem deram nome ainda. Outras pessoas encontram um cenote e simplesmente não os tornam ao público até terminarem de explorá-lo. Uma vez um amigo disse que foi mergulhar no Parcel Manuel Luís no Maranhão. Desceram para explorar um naufrágio e acabaram achando um outro que não estava catalogado. Se o Parcel Manuel Luís é um parque dos naufrágios, Tulum é um parque das cavernas. Hoje existem 172 sistemas e 704 entradas de cavernas catalogadas em Tulum. Segundo Robbie, explorador e dono da operadora Xibalba Dive Center, esse número pode dobrar.

A maioria das cavernas possuem água cristalina onde a visibilidade ainda é um assunto para uma boa discussão. Um mergulhador já disse 50 metros de visibilidade, um outro me disse 200 metros, e um terceiro arrisca um palpite: infinito. São discussões agradáveis de ter.

Existem outras questões como a temperatura da água, fluxo quase zero, profundidade rasa, navegações simples e etc. Tudo isso nos faz ter certeza de que se trata de um dos melhores pontos de mergulho do mundo. A temperatura da água doce varia de 25 a 26° C. Na água salgada a temperatura varia entre 28 e 29 °C.

A Haloclina existe e é um fenômeno onde água doce se encontra com a água salgada nos proporcionando uma imagem indescritível nas palavras dos mortais. A maioria das cavernas tem profundidade rasa e variando entre 6 e 15m, com um fluxo praticamente inexistente no interior delas. A beleza interior das cavernas é unânime. São estalactites, estalagmites, colunas, cortinas e salões totalmente decorados. Tamanha beleza que nunca vamos conseguir descrever em poucas e nem em longas palavras.

Existem muitas histórias e atrações para ver nessas cavernas como esqueleto humano e ossada dos animais da Era Glacial. Vasos cerâmicos dentre outros. O grau de dificuldade de mergulho nas cavernas e o acesso a elas também variam. Em algumas, você terá que andar 20 metros com cilindro nas costas e em outras, você precisa saltar de até 7m de altura.

A Viagem

A idéia da viagem começou com o convite do Robbie da operadora Xibalba. E concretizou quando recebemos as fotos que confirmaram toda a beleza do local. Entre compra da passagem e a reserva do hotel foram necessários apenas dois dias. O hotel escolhido foi o Uolis Nah que está localizado na estrada para Mérida, que por uma coincidência, no raio de 3 km do hotel existem apenas nove cavernas !

Devido ao curto tempo de conexão em Miami, a mala da equipe se perdeu chegando em Cancun só no dia seguinte. Sendo assim, no primeiro dia utilizamos o tempo montando estratégias e planos de mergulho que iríamos realizar nos próximos seis dias. O objetivo maior dessa viagem era conhecer e trazer ao público brasileiro, as cavernas pouco divulgadas e visitar os pontos de interesse no interior delas. Quando o sol estava se pondo ao longo do horizonte, todo o plano já estava traçado.

Foto: Wlada Dekina
Foto: Wlada Dekina

Mergulhos

Primeiro mergulho escolhido foi na caverna de Chan Hol. Uma caverna com a entrada tão rasa que a água chega até aos joelhos apenas e o silt é inevitável, por consequência aos procedimentos prévios ao mergulho que devem ser feitos já dentro da caverna.

Passando pela entrada, vemos um espetáculo em decorações. Enormes salões e colunas gigantes. É nessa caverna onde podemos encontrar o esqueleto humano de 11 mil anos e o vasos datados em 3 mil anos.

No segundo dia fomos a Car Wash, a caverna que um dia serviu para lavar os táxis da região. O “cartão postal” do Car Wash é o Salão das Lágrimas, um salão totalmente decorado cujo visual é uma cena que realmente nos provoca lágrimas. Para chegar nesse salão, é preciso ser orientado, pois não há indicação da entrada até o local. Certamente você irá precisar de um guia para conhecê-lo.

Depois do salão começa um conduto estreito que para quem gosta é uma diversão garantida.

No terceiro dia visitamos Vaca Ha e Tortugas que ficam na mesma fazenda. A entrada da Vaca Há, nada mais é do que uma poça d’água, sendo difícil de acreditar que existe uma caverna dentro dela. E na entrada da Tortugas, você encontra um crânio de vaca, que supostamente fora colocado na caverna errada. As duas cavernas possuem uma profundidade em torno dos 20m. Segundo o senhor Hairo da Xibalba, na Vaca Ha tem um espaço para acomodar um Boeing 747, nossa equipe teve de concordar com a grandeza dessa caverna. Tanto Vaca Ha, tanto Tortugas apresentam haloclinas espetaculares.

No dia seguinte planejamos um mergulho diferente. Um mergulho de quatro horas na caverna. A caverna escolhida foi Nohoch Na Chich, um dos maiores sistemas do mundo. Além da dupla, também foram utilizados dois stages S-80 e muitas pernadas. Penetração de duas horas na caverna com a beleza peculiar que prende atenção de qualquer mergulhador. Mais duas horas foram utilizadas para sair da caverna e quando chegamos já perto da saída da caverna, paramos para deliciar ainda na água, quatro cachos de uvas que havíamos levado para o mergulho. Quatro horas e quinze minutos de mergulho mais uvas verdes, eis mais uma sugestão para o leitor.

No outro dia, era a vez de mergulharmos em 3 cavernas diferentes: Angelita, Baab Zooz e Calavera. Angelita possui uma profundidade de sai dos 60 aos 30m, e onde ocorre o fenômeno do “fundo falso”, provocado pelo sulfureto de hidrogênio que nos dá uma sensação de mergulhar nas nuvens. Podemos resumir essa caverna em duas palavras: suspense e adrenalina.

Já a entrada da Baab Zooz fica na beira da estrada, ainda sem estrutura, você deve estacionar o carro no acostamento da estrada, se equipar no próprio carro e andar ao menos 200 metros até a entrada. É um mergulho bem diferente com direito ao show dos morcegos na entrada da caverna. Lá dentro, os condutos são estreitos e rasos, porém perfeitos para a apreciação. Uma palavra para definir esta caverna: peculiar.

Em Calavera, para mergulhar você deve pular de uma altura de 3m já equipado, e para sair, você deve “escalar” uma escada de ferro. É uma das cavernas onde podemos enxergar a nítida diferença entre parte da caverna “corroída” pela água salgada e parte mais “conservada” pela água doce. Existem vários condutos pouco explorados acompanhados de bons silts. Quer um mergulho diferente ? Vá conhecer a Calavera.

Outro local de interesse, era entrar em uma caverna localizado ao lado da estrada federal e sair pela outra ponta que sai do outro lado da mesma estrada federal – a travessia. Essa travessia não foi tão fácil como parecia, a navegação era complexa e longa. As cavernas escolhidas para esta travessia foram Gran Cenote (entrada) e Kalimba (saída). Para essa travessia é necessário pelo menos um stage, porém o conduto próximo a Kalimba é estreito demais para carregá-lo, sendo assim o plano era acomodar o stage no meio do caminho. Conduto próximo a Kalimba é bem estreito com várias passagens simplesmente maravilhosas que requer muita técnica e atenção, onde o mergulhador deve usar todas as suas habilidades. A travessia é um dos mergulhos inesquecíveis. Eis mais uma sugestão.

No dia seguinte, a dúvida era mergulhar na caverna Pit ou na Pet Cemitery. Essa dúvida gerou uma sensação muito agradável no time Marcello Sanzone e Bruno Tae, afinal de contas não é tudo dia que devemos tomar uma decisão tão “difícil” assim. O que pesou em nossa decisão de escolher a Pit, foram as atrações dessa caverna. Ela possui nada menos que ossada de um Mamute, onde raios solares penetram até aos 30m de profundidade. Sua entrada está aos 7m de altura e no fundo, um fenômeno provocado pelo sulfureto de hidrogênio que nos faz lembrar das “nuvens”. A decepção dessa caverna foi zero. O visual do raio solar penetrando na água é algo que devemos desfrutar por horas e horas. A ossada do Mamute é um espetáculo à parte.

Ao concluir a matéria a primeira sensação que experimentamos foi de preocupação. Preocupação em pensar que mergulhamos em apenas 11 cavernas nessa viagem. E como ficam as outras 693 cavernas ?

Quando vamos conhecê-las e quando vamos trazê-las ao conhecimento público ?

A segunda sensação é o privilégio. Privilégio de poder desfrutar dessa beleza submersa, curtir e ver todas as atrações e tornar tudo isso ao público.

Por fim, a sensação é de esperança. Esperança de poder voltar com amigos que por acaso chamamos de duplas para continuar a explorar e desvendar o mistério dessa maravilha que é o mundo submerso das cavernas alagadas de Tulum.

Foto: Wlada Dekina
Foto: Wlada Dekina

Dicas

  • Em Tulum existem apenas duplas de S-80 com torneiras DIN;
  • Para entrar nos parques e fazendas de acesso aos cenotes, é necessário pagar as taxas de admissão que variam de 10 a 20 dólares;
  • Além das taxas, é necessário levar um guia;
  • Não esqueçam de levar repelente, os mosquitos mexicanos são famintos;
  • Para visitar o México, o brasileiro necessita de visto de entrada no país.

Operadora de Mergulho

Sem dúvida nenhuma, a operadora é a Xibalba. Ela está no mercado desde 2003 com melhor estrutura da região. Robbie, um alemão que é o responsável pela operadora, é um dos seletos exploradores da região juntamente ao Steve, onde nos últimos cinco anos, conectaram sete diferentes sistemas da região, cujo objetivo é conectar o Sistema Dos Ojos e Sac Actum.

Segundo imaginam. apenas “9 metros” para este recorde e na última tentativa, um mergulhador conseguia ouvir o barulho do outro mergulhador no conduto do outro sistema. O conhecimento sobre as cavernas na região é tão grande, que sabem até a cor das setas em determinados pontos das cavernas.

A Xibalba oferece aluguel de cilindros duplos, nitrox, acompanhamento de mergulho, cursos desde básico até Trimix, Rebreather e Full Cave. O site da operadora é www.xibalbadivecenter.com, e você pode falar com o senhor Hairo ou Robbie.

Bruno Tae
Nascido na Coréia do Sul e residente no Brasil há muitos anos, é mergulhador e instrutor de mergulho em caverna, com especialidades em mergulhos em naufrágios e trimix pela IANTD.