Turismo Sustentável e Mergulho Recreativo: A Busca pelo Equilíbrio no Turismo de Aventura

O Turismo de Aventura é um segmento de mercado do setor turístico que compreende o movimento de turistas cujo atrativo principal é a prática de atividades de aventura de caráter recreativo. O mergulho insere-se em seu contexto.

Entendido como uma atividade ou subproduto do Ecoturismo, o segmento de Turismo de Aventura possui segundo o próprio Ministério do Turismo, características e consistência mercadológica próprias e, consequentemente, seu crescimento vem adquirindo um novo enfoque de ofertas e possibilidades.

Mas, ao mesmo tempo em que o Ecoturismo cresce, aumenta também o risco de áreas naturais serem degradadas.

Com toda certeza, a conservação dos recursos naturais para as gerações futuras é uma das maiores preocupações da comunidade de mergulho, ainda que a maioria das empresas não tenha muita certeza de como contribuir de maneira efetiva para a garantia de tal processo.

Estamos vivendo um momento de transformação onde o processo de criação de uma estratégia ecoturística adequada para cada ponto de mergulho no Brasil e no mundo, definirá o seu grau de sustentabilidade.

E já está claro para o planeta que precisamos romper os grilhões que ainda nos mantém presos ao arcaico modelo predatório e extrativista, sem nos preocupar efetivamente com a questão do manejo sustentável. Todos sabemos que as consequências de tal atitude poderá ser colhermos, a curto prazo, impactos negativos para as comunidades receptoras e também para os diferentes ecossistemas marinhos.

O desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades. Em seu sentido mais amplo, a estratégia de desenvolvimento sustentável visa a promover a harmonia entre os seres humanos e entre a humanidade e a natureza.

Segundo Wearing e Neil (2001) o ecoturismo surgiu “[…] para oferecer uma opção de desenvolvimento sustentável a […] comunidades […], proporcionando um incentivo para conservar e administrar as regiões naturais”

Conceitualmente o termo “ecoturismo” teve sua origem na década de 60 do século passado, quando foi usado para “explicar o intricado relacionamento entre turistas e o meio ambiente e culturas nos quais eles interagem” (HETZER, 1965 apud FENNELL, 2002).

Hetzer (1965) já identificava quatro questões básicas a serem seguidas no processo de criação de uma estratégia ecoturística:

  • (1) impacto ambiental mínimo;
  • (2) impacto mínimo às culturas anfitriãs;
  • (3) máximos benefícios econômicos para as comunidades anfitriãs;
  • (4) satisfação “recreacional” máxima para os turistas participantes. “

Para Swarbrooke (2000), “estudo do turismo deve ser direcionado para o desenvolvimento sustentável, conceito essencial para alcançar metas de desenvolvimento sem esgotar os recursos naturais e culturais nem deteriorar o meio ambiente. Entende-se que a proteção do meio ambiente e o êxito do desenvolvimento turístico são inseparáveis”. Segundo o autor, o turismo sustentável estimula uma compreensão dos impactos do turismo nos ambientes natural, cultural e humano.

A comunidade de mergulho precisa incorporar este nível de planejamento e zoneamento às suas atividades, assegurando desta maneira o desenvolvimento do turismo adequado à capacidade de carga dos diferentes ecossistemas. Urge educar o mergulhador básico com relação à importância do ambiente ao qual ele passa a frequentar e ensiná-lo sobre como ele pode ajudar a preservá-lo.

Além de conhecimentos sobre fauna e flora, o controle de flutuabilidade deve ser um dos fundamentos completamente dominados pelo candidato a mergulhador antes de ser liberado para se tornar um turista de aventura. Este procedimento será decisivo com relação à preservação das comunidades bentônicas e, consequentemente, a todo ecossistema marinho da região.

Chamamos atenção neste momento a respeito das estratégias que precisamos adotar para conservar os diferentes recursos naturais submersos e, ao mesmo tempo, tornar viável a crescente prática do turismo de mergulho de forma sustentável. Este novo modelo garantir a proteção dos recursos naturais das áreas de mergulho e também gerar renda para as mesmas, a fim de tornar esta preservação possível.

A resposta para essa questão é ao mesmo tempo simples e complexa. Mas exemplos bem sucedidos como o de Bonaire, nas Antilhas Holandesas podem ser utilizados.

Somente através de planejamento consciente conseguiremos conciliar ambos os aspectos. Mas para que seja possível, necessitamos de trabalhos educativos contínuos de âmbito comunitário, estadual e nacional e de boa vontade política.

Segundo Ansarah (2001), o planejamento “consiste em um conjunto de atividades que envolvem a intenção de estabelecer condições favoráveis para alcançar objetivos propostos. Ele tem como objetivo o aprisionamento de facilidades e serviços para que uma comunidade atenda seus desejos e necessidades”.

O turismo sustentável somente poderá ser continuado em áreas de mergulho se estas possuírem um planejamento consciente e ordenado, capaz de causar o mínimo impacto ambiental possível. E de nada adianta implantá-lo se os administradores, empresas, profissionais e turistas não possuírem um conhecimento da importância e dos benefícios dessa prática.

O planejamento turístico do mergulho deve ordenar as ações do mergulhador e das empresas sobre os diferentes ecossistemas submersos a fim de evitar danos irreparáveis ao meio ambiente.

Este planejamento deve ser ecologicamente suportado, direcionando o comportamento dos mergulhadores para a educação ambiental e ser capaz de gerar benefícios tangíveis.

Os empresas de mergulho também precisam ser monitoradas no respeito a essas áreas que devem ser consideradas como ambientalmente frágeis e que necessitam ser acompanhadas no controle da capacidade de carga de cada uma delas. Este controle servirá para limitar o número de mergulhadores que cada área pode suportar antes que ocorram danos ambientais como já presenciados em diversos locais do planeta.

O turismo sustentável surge como uma ferramenta de conservação dos recursos naturais marinhos e como uma opção econômica para facilitar e tornar real esta preservação.

Cabe a todos nós essa missão.

Fontes

AGNES, Diane A importância do Planejamento para a Prática da Atividade Turística em Áreas de Proteção Ambiental – Revista Turismo

ANSARAH, Marília Gomes dos Reis (Org.). Turismo. Como aprender, como ensinar. São Paulo: Editora SENAC, 2001.

BENI, Mário Carlos. Análise Estrutural do Turismo. 7ª. Ed. São Paulo: Editora SENAC, 2002.

RUSCHMANN, Dóris van de Meene. Turismo e Planejamento Sustentável: A Proteção do meio ambiente. Campinas, São Paulo: Papirus, 1997. SWARBROOKE, John. Turismo Sustentável: conceitos e impacto ambiental. São Paulo: Aleph, 2000.

Roberto Trindade
Formado em Educação Física, Psicologia e Turismo. Pós-graduado em Psicomotricidade, Psicopedagogia, Esportes de Aventura, Psicologia do Esporte e Fisiologia do Exercício. Mestre em Psicologia. É mergulhador profissional pelo Ministério da Marinha e Delegacia de Portos e Costas - DPC. É instrutor trainer trainer pela IANTD e instrutor pela CBPDS, CMAS, PADI, NAUI, TDI, HSA, SBMA, SSI, NSC, ERDI e DAN. Também é Membro da Sociedade Brasileira de Atendimento Integrado ao Trauma (SBAIT), Undersea and Hiperbaric Medical Society e Centro Regional de Informação de Desastres para América Latina e Caribe.