U-513, Capitão Guggenberger e o Tutoya

Em 1943, mais precisamente durante o mês de Julho, o U-513 e o U-199 operavam em conjunto em águas Brasileiras, em áreas basicamente relacionadas aos portos do Rio de Janeiro, Santos e Paranaguá.

Conforme informações que pude receber de um colega, uma série de coincidências ocorreram entre o capitão Hans-Werner Kraus (U-199) e Friedrich-Fritz Guggenberger, tal como: ambos estiveram nos USA antes da guerra; receberam o comando do 1º U-boat ao mesmo tempo (U-81 para Guggenberger e o U-83 para Kraus); depois disso ambos foram designados para patrulhar o Mar Mediterrâneo e no final de 1942 eles foram para a Alemanha para serem condecorados e assumirem novos U-boats; durante 1943, seguiram juntos para trabalhar em águas do sul do Brasil; num curto período os dois tiveram seus submarinos destruídos e tornaram-se prisioneiros; mais uma coincidência entre ambos é a de que apesar de terem seus U-boats afundados distantes um do outro, ambos foram resgatados pelo mesmo navio, o tênder de hidroaviões U.S. Barnegat.

Deixemos o U-199 de lado por um tempo e vamos nos dedicar ao que aconteceu com o submarino tema de nosso artigo, o U-513.

Depois de passar pelo Arquipélago dos Abrolhos, Guggenberger alterou o curso do U-513 em 50 graus oeste em direção do Rio de Janeiro. No dia seguinte, dia 21 de Junho, o navio sueco “SS Venezia” (Venedig em sueco) foi torpedeado pelo U-513, afundando a 300 milhas do Rio de Janeiro. O navio afundou tão rapidamente que o operador de rádio nem teve tempo suficiente em mandar um SOS.

O U-513 seguiu então para o sul, 5 milhas de Cabo Frio, utilizando o sistema usual dos lobos solitários, perseguiu por 12 horas a fio o navio tanque americano “Eagle” de 10.000 tons, onde finalmente às 3h50 do dia 25, o torpedeou.

Continuando a sua rota ao sul, afunda no dia 30, um cargueiro brasileiro de nome “Tutóia”. Com relação ao “Tutóia” teremos logo a seguir um capítulo especial sobre ele.

O navio americano “Elihu B. Washburne” de 7.000 tons que realizava a rota Lourenço Marques – Rio de Janeiro, é o próximo a ser torpedeado e afundar, na região de Ilhabela, na Ponta do Boi, onde diversas coordenadas são descritas, tais como, 23º 58′ S – 45º 16′ W ou 24º 06′ S – 45º 25′ W ou 24º 03′ S – 45º 11′ W.

Há ainda o navio inglês “Incomati” de 7.369 tons que explode e afunda, após ser torpedeado pelo U-513.

A missão final dele foi perto de Florianópolis, onde procurava mais alguma vítima. No dia 16 de Julho, na posição 28º 10′ S – 46º 30′ W, cerca de 100 milhas de Florianópolis, o navio de bandeira americana “Richard Caswell” de 7.177 tons, que vinha de Buenos Aires com destino a New York, é torpedeado para surpresa de sua tripulação, que nada tinha notado. Este navio transportava uma valiosa carga de tungstênio e magnésio.

Guggenberger comete um erro, pois, em uma conversa longa, pede ao Comando de Submarinos, mais precisamente a Dönitz, que envie mais barcos já que a área é fácil e não possui oposição naval ou aérea. Esta longa transmissão foi interceptada e sua posição determinada a 90 milhas de Florianópolis.

Na manhã do dia 19, o Capitão Roy S. Whitcomb segue ao encontro do U-513, na altura de São Francisco do Sul, o PBM Mariner do Esquadrão VP-74, finalmente afunda o submarino.

As coordenadas de 27º 17′ S – 47º 32′ W apresentam uma profundidade de cerca de 230 metros. O saldo foi de 7 sobreviventes, entre eles o capitão Guggenberger, com 4 costelas quebradas e outra fratura no tornozelo. Os mortos foram em número de 46 tripulantes.

Assim como os outros 7 sobreviventes, Guggenberger passou uma temporada em Recife, para um primeiro interrogatório, sendo posteriormente levado aos USA.

Capitão Friedrich Guggenberger

Friedrich Guggenberger começou a sua carreira em Outubro de 1939, com o treinamento usual. O seu primeiro U-boat foi o de número U-28 sob o comando do condecorado Gunther Kuhnke. Durante o Outono de 1940, Guggenberger assumiu o U-28 e comandou este submarino por alguns meses.

Em Abril de 1941, foi comissionado para o U-81. Após 3 patrulhas no Atlântico e 2 navios afundados, segue em Novembro de 1941 para o Mediterrâneo. No dia 13 de Novembro, logo após passar o Estreito de Gibraltar ele torpedeou o porta aviões HMS Ark Royal de 22.600 tons, que veio afundar um dia mais tarde. Depois de 6 patrulhas no Mediterrâneo com muito sucesso, Guggenberger larga o submarino no começo de 1943 e em 3 meses tornou-se membro do staff de Dönitz.

Em Maio de 1943, assume o comando do, objeto inicial de nosso artigo, U-513. Como já vimos, em sua primeira patrulha foi afundado perto de Florianópolis. Ele foi ferido com gravidade, passou um dia a deriva e posteriormente resgatado pelo USS Barnegate. Após uma operação e muito tempo no hospital, em janeiro de 1944 foi transferido para o campo de “Papago Park”, perto de Phoenix – Arizona.

Em 23 de Dezembro de 1944, este campo foi palco de uma espetacular fuga, Guggenberger e outros 24 tripulantes de U-boats, incluindo Hans Werner Kraus (do U-199) escaparam. Reparem novamente mais uma coincidência entre as vidas de Guggenberger e Kraus, que havia esquecido !

Guggenberger e o comandante do U-595, Jurgen Quaet-Faslem foram capturados novamente em 6 de Janeiro de 1945, a apenas 4 milhas da fronteira Mexicana. Guggenberger foi libertado do cativeiro em Agosto de 1946. Após a guerra ele se tornou arquiteto, antes de ingressar novamente a Marinha Alemã, agora chamada de “Bundesmarine”, em 1956. Na sequência, Guggenberger graduou-se no Colégio Naval de Guerra em Newport (USA). Ele foi durante 4 anos contra-almirante da NATO. Em 1972, ele se aposentou.

Em 13 de Maio de 1988, ele entrou na floresta perto de sua casa na pequena aldeia de Erlenbach am Main, quase na fronteira noroeste de Bayern, na então Alemanha Ocidental, para um passeio e sumiu. O seu corpo foi achado dois anos mais tarde, todavia, num local da floresta em que os policiais insistem em afirmar terem vasculhado repetidas vezes por ocasião da grande operação de busca empreendida nos dias seguintes ao seu desaparecimento. Ninguém sabe responder por onde teria andado o comandante Guggenberger por aqueles dois anos, antes de ser devolvido a Erlenbach.

Tutoya ou Tutóia

O Tutóia foi torpedeado pelo submarino alemão U-513 (do consagrado capitão Guggenberger) em 1º de Julho de 1943 (1 hora da manhã) na região sul do litoral Paulista. Realizava a rota entre os portos de Paranaguá e Santos. O Tutóia transportava carne salgada, batatas e outras cargas.

Navegando o Tutóia, sob o comando do capitão de longo curso Acácio de Araújo Faria, alguns tripulantes perceberam que uma ou duas embarcações se aproximavam do navio; instantes depois uma dessas embarcações dirigiu-se por sinais Morse, ao comandante do Tutóia.

Respondendo a esta intimação, o primeiro-piloto fez acender o farol do mastro da proa e 20 minutos depois, foi o Tutóia atingido por um torpedo a meia nau, na altura do passadiço que ficou destroçado, acarretando o afundamento do navio, de proa, poucos minutos depois.

O submarino, que tinha o casco pintado de verde, ficou evoluindo o restante da noite no local do afundamento. Ordenado o abandono do vapor, os tripulantes procuraram salvar-se nos botes e balsas disponíveis; foram arriadas 2 baleeiras e 1 balsa. Uma dessas embarcações deu à costa, com 17 sobreviventes, tendo sido antes seguida pelo submarino; uma balsa com 6 náufragos alcançou também o litoral Paulista, esta havia sido antes localizada por um avião da Base Aérea de Santos; a outra baleeira, com 7 homens a bordo, foi encontrada e socorrida por um barco a motor que a rebocou para o Porto de Santos.

Dos 37 tripulantes salvaram-se 30; entre os 7 desaparecidos figuram o comandante Acácio e seu imediato. Após diversas tentativas, muitas delas adversas, o Tutóia finalmente foi mergulhado em meados de 1999. Como os reports dão conta, sua estrutura está muito danificada, tanto pela destruição causada pelo torpedo, acrescido ainda pelo desgaste natural desses 60 anos submersos.

A profundidade é rasa não passando dos 18 metros, a visibilidade depende, como sempre, de muitas variantes, sendo que nas 14 vezes que lá mergulhei, variou de 0 a 8 metros. O local é de difícil logística, já que há ausência de povoado perto, carência de embarcações, a única disponível de fácil e rápido acesso, é um barco de alumínio de 3 metros com motor de 15 Hp.

O mar é outro forte adversário, as viradas são constantes, o que me fez abortar cerca de 4 tentativas, já estando no mar e pronto para cair na água. Mergulhei em algumas rochas, como indicação de nativos que pensavam ser o barco mas infelizmente não era … simples rochas que me fizeram perder bastante tempo na pesquisa.

Dois nativos antigos, que tiveram a oportunidade de resgatar os sobreviventes na época, vieram a falecer após eu ter tido o primeiro contato e conseguir informações preciosas que ajudaram bastante. Na região pude encontrar muitos golfinhos e a história coloca o maior tubarão encontrado no Brasil como um habitante desta mesma área. A fera encontra-se exposta no Museu de Iguapé.

Enfim, para finalizar é necessário dizer que a história envolvida referente ao U-513 e Capt. Guggenberger, representa o “atrativo” quando se fala do Tutóia.

Características

1ª listagem: MITCHAM (1914 – 1915)
Número oficial: JDCN 135269
Capitão: W. J. Lockey, designado para a embarcação em 1913
Proprietário: Wandsworth, Wimbledon & Epson District Gas Co.
Porto de Registro: Londres
Estaleiro: W. Dobson & Co. em Newcastle
Tipo: Escuna de aço / Convés de aço / Luz Elétrica

Casa de máquinas na traseira, célula de fundo dupla, posterior 26 metros, embaixo do motor 6 metros, frente 18 metros, 325 toneladas

Tanque do meio 145 tons / Tanque de frente 141 tons / Tanque posterior 27 tons.

2ª Listagem: UNO (1927 – 1928)
Proprietário: Lloyd Brasileiro
Porto de registro: Rio de Janeiro

3ª Listagem: TUTOYA / TUTÓIA (1930 – 1931)
Proprietário: Lloyd Brasileiro
Porto de Registro: Rio de Janeiro

Propulsão

  • Motor de tripla expansão com 6 cilindros de 35 cm, 56 cm e 94cm cada par
  • Trabalhando a 12 bar de pressão
  • 187 cavalos de força nominal / 2 caldeiras simples completas / 8 fornos
  • 301 metros de superfície de aquecimento
  • Motor construído por MacColl & Pollock Ltd. em Sunderland (UK)

Dimensões
Comprimento: 68,5m
Comprimento da parte estrutural horizontal: 11m
Popa: 11m
Ponte: 5m
Castelo de Proa: 7m
Convés: 29m
Profundidade: 4m

Tonelagem
1,125 toneladas bruto / 831 toneladas convés inferior

Meus agradecimentos à:

  • U-boat.net
  • Biblioteca do Exército
  • Telmo Fortes
  • Romulo Figueiredo
  • Anders Wingren
  • Arnaldo Salgado
  • Gilbert Provost
  • Outros que contribuiram com informações durante esses os anos de pesquisa.
Carlos Nelli Borges

Carlos Nelli Borges é Master Scuba Instructor pela PADI, Instrutor de Rebreather pela TDI (E.1211.I) e Instrutor Trainer Rebreather pela RAB (BR-133-02/98), possindo mais de 1.200 mergulhos com rebreathers.

Foi representante da Dräger no Brasil entre 1997 e 2000. Atualmente atua como instrutor na África do Sul.