Um naufrágio com ouro na Ilha Grande ?

Avião DC-6 prefixo LV-ADV - Foto: Ricardo Paolo Alberto Graciotti

Com frequência escutamos algumas histórias sobre naufrágios, onde algumas delas se destacam pelos detalhes relacionados ao assunto.

Tempo atrás conversando com o Miguel Lopes, que é especialista em equipamentos de mergulho e grande conhecedor de fatos e histórias do mergulho brasileiro, acabou me contando sobre o afundamento de um avião décadas atrás na Ilha Grande, litoral sul do Rio de Janeiro.

Na ocasião ele mencionou que circulou durante algum tempo a informação de que este avião havia caído na Ilha Grande e estaria carregado com ouro. Militares brasileiros teriam realizado buscas usando inclusive um submarino, mas nada havia sido encontrado.

Curioso sobre o assunto iniciei algumas pesquisas na tentativa de entender essa história direito, e de fato, realmente há indicativos do naufrágio de um avião na parte de fora da Ilha Grande.

O Acidente

Era 09 junho de 1958, por volta das 11:47h, um avião DC6-B prefixo LV-ADV da companhia Aerolíneas Argentinas saiu da cidade de Buenos Aires com destino ao Rio de Janeiro. Durante o voo de cruzeiro o motor 4 entrou em pane e algum tempo depois, o motor 2 começou a vibrar fortemente fazendo com que o DC-6 perdesse altitude. Diante dos problemas, o comandante informou a situação via rádio aos controladores brasileiros, avisando também, que faria um pouso forçado na praia de uma ilha, chegando a fornecer a posição GPS de grau e minuto, inclusive.

Na ocasião o piloto conseguiu pousar na água em frente a Praia do Sul, localizada na parte de fora da Ilha Grande. Felizmente todos os 6 passageiros e 22 tripulantes conseguiram sair do avião e nadar até a praia, não havendo óbitos ou feridos graves. Todos foram resgatados pelas equipes da aeronáutica e o Brasil chegou a receber um agradecimento formal da Argentina pelo pronto atendimento aos acidentados.

Até aí estava tudo bem, até que surgiu a informação de que o avião estaria transportando 24Kg de material radioativo com finalidades “médicas”, onde segundo os jornais da época, este material seria enviado posteriormente para Londres. O problema, é que essa carga não constava no manifesto (documento de cargas) do voo, e as forças militares brasileiras não prestavam informações claras sobre o assunto, chegando a dizer algumas horas, que não havia carga radioativa alguma no avião.

De uma hora pra outra os militares cercaram a área e não deixando que ninguém se aproximasse da região, com a desculpa de que era para evitar curiosos tentando procurar o os restos do avião.

Algum tempo depois os militares confirmaram aos jornais que havia material radioativo na carga do avião, mas não oferecia risco para a população. O mais estranho dessa história, é que os jornais noticiavam que o avião não havia sido localizado e, tempos depois, informavam que os motores haviam sido removidos para saber os motivos das falhas técnicas e que os destroços poderiam ser enterrados para que a radioatividade não oferecesse riscos, mas em nenhum momento afirmava que os destroços haviam, de fato, sido encontrados pelos militares. O assunto acabou morrendo com o tempo e não encontrei mais notícias sobre o assunto.

Foi como um assunto de grande importância para a saúde pública perdesse importância de uma hora para outra.

A segunda versão

Os anos passaram até que pescadores de uma localidade próxima e que participaram das buscas aos restos do avião comentassem sobre esse naufrágio para alguns mergulhadores, mas a história já mudava de contexto.

Segundo eles comentava-se que a aeronave estava transportando um carregamento de ouro e que ao tomarem conhecimento, as forças armadas trataram de encontrar o avião naufragado enviando vários militares para o local.

Um submarino chegou a ficar por algum tempo na região e alguns militares chegaram a desembarcar nas praias pedindo informações e relatos aos pescadores, mas sem sucesso. Não teriam encontrado os restos do avião e foram embora algum tempo depois.

Vale lembrar que era 1958 e o mergulho no Brasil estava engatinhando naquela época.

Radioatividade ou Ouro ?

No passado era muito comum (e talvez até nos dias atuais…) que os jornais fornecessem falsas informações oriunda dos militares, para esconder a real situação sobre determinados fatos, e a história desse avião é um tanto duvidosa.

Parando pra pensar, se algum jornal antigo mencionasse que havia ouro no avião naufragado, certamente vários curiosos iriam até o local dos destroços, e talvez afirmar que havia radioatividade por lá, fosse a forma mais fácil de afugentar qualquer curioso.

Arte: Brasil Mergulho

Possível área do afundamento

O avião estava sob a cidade de Ubatuba-SP quando teve a segunda pane, pousando logo em seguida na Praia do Sul, na Ilha Grande.

Analisando a área onde ocorreu o pouso e levando em consideração a elevação de 436m do morro na lateral esquerda da praia, imagino que o piloto possa ter avistado a praia, passou acima deste pequeno morro e desceu o avião em seguida, tocando na água para perder velocidade, tudo em uma linha praticamente reta.

A praia em si possui aproximadamente 2.500m de comprimento e o avião estava com 2 motores à hélice em funcionamento. Se realmente ele está por lá, acredito que ele possa estar da metade para a ponta direita da praia, numa distância inferior à 200m da areia.

Agora ficam as dúvidas…

Será que de fato havia material radioativo naquele avião ou será que o avião transportava ouro e os militares disseram que havia material radioativo para afugentar os curiosos ?

É difícil dizer sem visitar o local.

Segundo os jornais, na época a marinha brasileira teria usado detectores de radiação no local e não foram registrados índices radioativos, mas ao mesmo tempo, menciona em cobrir os restos do avião, apesar de não ter encontrado nenhuma notícia confirmando terem encontrado o avião. Uma história muito mal contada mesmo.

A grande questão agora, é saber quem teria coragem buscar o naufrágio, mergulhar e constatar o que de fato há por lá, mas acho que essa dúvida ainda irá persistir por longas décadas.

Notícias dos jornais de época

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983, no autônomo em 1986 pela CMAS e Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount pela IANTD. Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008, idealizador do site Brasil Mergulho em 1998 (MTB 0081769/SP), atuando em diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior. Também atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.