Um novo mergulho na Vida

Era uma tarde de fevereiro de 2006, estava internado numa fazenda para tratamento do meu alcoolismo, doença que estava acabando comigo em todos os campos, pessoal, familiar e profissional. Não era a primeira vez que passava por uma internação, tentava por todos os meios sair deste martírio, mas era sempre dominado e acabava sendo derrotado, por este maldito vício. Naquela tarde então resolvi sair da fazenda e ir para casa em Florianópolis-SC.

A família foi contra, tinha que cumprir o tempo de 9 meses internado, para um novo nascimento, já estava ali desde o dia 17 de dezembro e não aguentava mais estar no meio de jovens, na maioria dependentes de drogas ilícitas, e queria ir para casa, mas agora com um novo propósito, de ser alguém na vida, fazer algo novo e continuar vivendo sóbrio.

Foi então que decidi por um novo mergulho, não mais mergulhar num copo de bebidas, e sim, num mergulho de verdade no mar que tenho bem ao lado de minha casa, aqui no sul da ilha.

Gostava de ver aqueles homens com suas roupas e seus equipamentos, submergirem, e um dia eu pensei: se eles podem eu também poderei !

Estava afastado do trabalho e ganhando do INSS, era pouco mas dava para iniciar o curso básico de mergulho, contatei algumas escolas e operadoras de mergulho e iniciei no norte da ilha o curso básico. Tinha 54 anos, não me considerava velho, sabia nadar muito bem e tinha um preparo físico ideal para iniciar, afinal tinha passado 2 meses sem ingerir o álcool e me considerava capaz.

A principio fui apresentado ao equipamento, algumas aulas teóricas e passei para a prática, a primeira vez, numa pequena piscina da escola, achei maravilhoso, e falei comigo mesmo, aquele era o meu novo caminho, meu novo mergulho.

Após as aulas teóricas e aulas de piscina, teríamos que fazer o check-out no mar, e num sábado fomos com a lancha da escola para a ilha do Arvoredo e fizemos os exercícios no fundo mar, pois era o meu primeiro mergulho. Foi fantástico, não tinha equipamento, era tudo da escola, fiquei apaixonado pelo fundo mar, e então continuei a trajetória. O curso básico, como diz o nome é básico mesmo, tinha um limite para submergir, e não podia fazer outros mergulhos, como o mergulho noturno, o mergulho profundo etc.

Meu entusiasmo era grande, e no mês seguinte, passei para o curso avançado, curso que me dava oportunidades de fazer mergulhos mais espetaculares. Aprendi, novas técnicas, como orientação na água com bussola, busca de objetos perdidos, mergulho profundo de 25 metros e mergulho noturno. Como estava ainda inativo para o trabalho e tinha tempo, resolvi a continuar os cursos, aos poucos fui comprando o material necessário, como a roupa, as nadadeiras e a máscara, e sempre quando sobrava um dinheiro eu ia mergulhar.

Minha vida mudou, não mais bebia, frequentava todos os ambientes, como festas, casa de amigos e sempre evitando o primeiro gole. Comecei a conhecer novas pessoas, pessoal que dedicava ao mergulho e fui abrindo meu novo círculo de amigos. Já estava no mês de agosto, quando fiz o curso de primeiros socorros e de resgate, resolvi fazer em São Paulo, numa escola de renome. Como São Paulo não tem mar na capital e era uma época ruim para a prática do mergulho devido ao inverno, coisas águas além de estarem mais frias e turvas, resolveram fazer o check-out no mar no mês de setembro, mas em Búzios no Rio de Janeiro, e me inscrevi para uma excursão que a escola iria fazer em setembro e realizei mais um curso.

Não queria mais parar, vi que era aquilo mesmo que eu queria para me livrar do álcool, e estava dando resultados positivos.

Jose-CalmonAqui no sul da ilha tinha uma escola de mergulho também, e como era perto de casa, comecei a frequentar e mergulhar por aqui mesmo, onde temos vários costões e pequenas ilhas ao redor. Meu número de imersões estava aumentado, anotamos todos os mergulhos que fazemos num caderno “Log Book” e o ano de 2006 se passou, eu continuava firme nos meus propósitos, queria chegar ao podium, e decidi que iria ser Instrutor de Mergulho.

Parti então para conhecer novos pontos e lugares de mergulho. Com a escola de São Paulo em março de 2007, fui para  Salvador, mergulhar em naufrágios, fomos numa excursão e foi mais uma nova experiência, mergulhamos na costa de Salvador em vários naufrágios e nos dois últimos dias, estava preparado para descermos ao navio grego Cavo Artemidi, que está aos 32 metros de profundidade, e foi o máximo para mim, uma água límpida e diversificada de animais marinhos e plantas aquáticas. Foi maravilhoso !

Meu objetivo ainda não tinha sido alcançado, e voltando a Florianópolis, contatei uma escola e operadora de mergulho em Bombinhas, lá poderia fazer o curso profissionalizante de Instrutor de Mergulho, onde havia um plano de pagamento em 12 parcelas e parti para aprender mais e mais. A essa altura, já tinha todo o equipamento necessário.

Durante o curso de Dive Master que estava fazendo aos finais de semana, seriam necessários 120 mergulhos para se tornar instrutor, e passei a ficar por lá mesmo, num pequena kitnet, já que fora da temporada de verão e o valor era mais baixo. Em novembro de 2007 terminei o curso de Dive Master.

Em dezembro já era um profissional e comecei a trabalhar como Dive Master na operadora,  trabalhei durante o verão, sendo um dos melhores momentos de minha vida, pois estava fazendo aquilo que gostava e o que tinha mudado minha vida por completo. Era um novo homem, com saúde, com muitas amizades novas, e a família torcendo para que eu tivesse sucesso. Tive muito apoio de todos, isso foi muito importante para mim, mas o verão se foi e em abril, já iríamos ter as provas para instrutor. Voltei então para Florianópolis e continuei a mergulhar, porém, com uma boa bagagem e já conhecendo vários pontos de mergulho na região.

Fiz a preparação paras as provas e não fui feliz. Na primeira tentativa, perdi em 3 matérias e uma prova de mar, pois fiz o exercício trocado, sendo necessário fazer tudo de novo, e a escola com seus dirigentes e instrutores me prepararam para uma nova tentativa já em Ilhabela, mas infelizmente não fui bem física, mas não me frustrei

Em junho haveria um festival em São Paulo e poderia fazer nova prova, estudei de novo e agora eu disse ou vai ou racha. E não deu outra eu passei, tinha 58 anos de idade, no meio de uma molecada de 20 a 30 anos, eu lá com a gurizada.

Jose-CalmonTinha vencido, e não ficou por ai, logo retornando a Florianópolis, entrei em contatos com uma operadora em Fernando de Noronha e fui para aquele paraíso, fazer estágio, numa das maiores operadoras do mundo. Foram 30 dias de estágio e fui convidado para trabalhar por lá, fiquei mais 11 dias e resolvi voltar ao meu lugar, afinal tinha conseguido vencer. Lá fiz os melhores mergulhos, como a Corveta Ipiranga, mergulho com tubarões, mar de fora, enfim, foi o auge para um mergulhador, principalmente para uma pessoa que até pouco tempo, já não dava mais valor a vida.

No futuro, quero agora mergulhar no Caribe, precisamente em Cuba, pois dizem ser muito bom. Hoje sou instrutor de mergulho e e creio se não fosse minha fé em Deus e minha determinação não teria conseguido.


Atualmente Francisco Calmon de Almeida, é instrutor de mergulho PADI e ministra cursos no sul do país.

Redação
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