Um submarino quase encontrado em Alagoas ?

Para quem mergulha há muitos anos e aprecia o mergulho em naufrágios, fatalmente um dia, acabará por escutar histórias dos submarinos alemães (U-boats) naufragados na costa brasileira.

Encontrar um submarino da 2ª Guerra Mundial na costa brasileira, seria como um dos melhores presentes que um amante de mergulho em naufrágios poderia ganhar. É um mergulho realmente diferente, principalmente pela história que este naufrágio possui.

Uma mensagem em um fim de tarde

Era uma quinta-feira de 2004, quase no final do expediente, quando recebi um e-mail de uma pessoa informando que possuía informações sobre a localização de um U-boat (submarino alemão) naufragado na costa de Alagoas. Olhei a mensagem e ao mesmo tempo, cogitei na possibilidade de ser mais uma lenda, como muitos contam por aí. De qualquer forma, resolvi checar a informação e entrei em contato.

Simplesmente a pessoa que me contatou, era nada mais nada menos, que a conhecida Major Elza Cansação Medeiros (in memorian), uma militar, que foi a primeira enfermeira brasileira enviada a 2ª Guerra Mundial, e que participou inclusive, dos primeiros socorros aos náufragos do navio Itapagé.

Não pensei duas vezes, marquei uma visita ao seu gabinete, que fica localizado no Palácio Duque de Caxias, em uma área militar no centro do Rio de Janeiro.

Ao visitá-la, fiquei horas conversando com esta excelente pessoa que é a Major Elza, uma mulher de extrema inteligência e vivência no meio militar. Escutei diversas histórias sobre os fatos ocorridos com nossas tropas na guerra mundial, e ao mesmo tempo, ali imaginando o sofrimento das tropas brasileiras durante a guerra, principalmente com o frio, fome e sede.

A cada fato contato pela Major, minha curiosidade aumentava ainda mais, e estar ali naquele momento, escutando todos os fatos vividos por uma pessoa de grande coragem e que participara de uma guerra, realmente era um privilégio. Era como se eu estivesse presenciando diversos momentos da guerra e conhecendo mais os fatos históricos de nosso país.

O U-boat de Alagoas

Logo após o afundamento do Itapagé, os náufragos foram assistidos pela Major Elza e seus companheiros. Segundo ela, após o ataque, via-se inclusive, o submarino andando em marcha lenta nas proximidades da costa, como se estivesse vendo a repetição da catástrofe realizada. O afundamento do Itapagé marcou aquele momento para ela, o que a levou a criar o museu do naufrágio do Itapagé, em Maceió, onde é possível ver diversas peças encontradas e amostras aos visitantes.

Quanto ao achado do u-boat, segundo ela, um instrutor conhecido em Maceió de nome Marcos (não lembro mais o sobrenome), havia encontrado o submarino durante um mergulho para a retirada de uma rede de alguns amigos pescadores.

Na hora fiquei entusiasmado, pois a chance de ser o submarino alemão U-128 era grande e a vontade era de pegar o primeiro avião para Maceió, já vinha à minha cabeça, mas como nada na vida é fácil, logo após saber quem havia encontrado a “criança”, ela disse que teríamos que convencer o Marcos, a me levar até o local para a realização da matéria. Ligamos então para ele, conversamos durante algum tempo e me comprometi a fazer a matéria para uma TV e não liberar a localização do naufrágio, pois o intuito dele, era preservar o local e deixá-lo escondido dos “piratas de naufrágios”.

Coincidentemente, ao chegar em casa e baixar os e-mails, recebo uma mensagem de um jornalista de uma TV conhecida, solicitando informações sobre o U-199, um submarino alemão naufragado na costa do Rio de Janeiro, naufrágio este, que vinha sendo pesquisado por mim e pelos demais integrantes do Wreckfinder. Aproveitei e marquei uma reunião onde falamos sobre o submarino de Alagoas. Após algumas reuniões, estava tudo acertado: iria antes realizar a confirmação, e caso positivo, estaria acionando a equipe da TV, para a gravação de um documentário, sob os termos e condições impostas pelo mergulhador de Alagoas.

O lado negro dessa história…

Com tudo combinado e planejado, a cada semana, entrava em contato com o mergulhador de Alagoas para saber se as condições de mar na região haviam melhorado, tendo em vista que estávamos saindo de um inverno rigoroso e condições muito impróprias para o mergulho. A visibilidade estava péssima e o mar, agitado, pois estávamos ainda sob o “inverno nordestino”.

Após cinco semanas, ligava para o celular do Marcos,  e ninguém atendia. Comecei a achar estranho. Passei a ligar diariamente a fim de obter um contato. Comecei a cogitar inclusive, que mais uma vez, havia escutado a “lenda de submarino encontrado”.

Infelizmente após uma semana de tentativas frustradas de contato, veio a  grande tristeza… uma mulher atende o telefone do mergulhador, e informa que ele havia falecido em um acidente de mergulho, com uma voz de choro. Naquele momento “gelei”…   Fiquei estarrecido com a notícia.

Duas coisas vieram à minha cabeça… Será que ele realmente faleceu ?   ou será que isso é uma desculpa para que eu não volte a ligar mais, tendo em vista que a coisa estava se tornando séria com o planejamento da minha ida até o local e uma equipe em stand by.

Logo após o recebimento dessa notícia, entrei em contato com a Major Elza, que ficou impressionada com a notícia e ligou imediatamente para a sua família em Maceió, que residia em frente à casa do instrutor de mergulho. Dez minutos depois do meu contato com a Major, recebo um telefonema dela confirmado o fato.

Infelizmente o instrutor de mergulho Marcos, havia sofrido um acidente durante um mergulho em uma turbina de hidrelétrica no estado de São Paulo.

Fiquei muito triste com o fato e chateado pelo fato do cancelamento dos mergulhos. Comecei a achar que o u-boat de Alagoas, não queria ser descoberto.

Informações passadas pelo instrutor

Nos contatos telefônicos, o mergulhador de Alagoas informou que o submarino estaria com um grande rombo no caso, deitado de lado em um fundo de areia. A profundidade no local, seriam os ridículos “27m”.

Ele estaria aos 35 graus do naufrágio Itapagé, e a 10 milhas da costa alagoana.

A descoberta do Marcos, se deu por causa da rede de pesca que ficou presa nos destroços do naufrágio, onde os pescadores afirmam que há um peixe conhecido como “Bicuda”. Segundo os pescadores, onde há este tipo de peixe, normalmente encontra-se “ferro”, que traduzindo, seria “naufrágio”.

Conclusão

De fato, se o submarino está lá, é um ponto de interrogação hoje, mas acredito que em alguns anos, alguma equipe de mergulho poderá encontrá-lo e confirmar o achado.

Assim como eu, algumas poucas pessoas e alguns grupos de pesquisas de naufrágios como o Wrekfinder, visam a descoberta e a divulgação dos pontos aos mergulhadores. Atualmente, alguns amigos de Recife e Maceió estão realizando buscas por naufrágios E esperamos que eles tenham a grande sorte de encontrar este u-boat.

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount). É juiz internacional de apneia pela AIDA e foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008. Produziu documentários sobre as Bahamas, Bonaire, Galápagos e Laje de Santos, visitando mais de 30 países. Foi o idealizador do site Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP), atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.