Uma coincidência: Dois navios da Segunda Guerra naufragados no Ceará

É de conhecimento comum que vários navios de diversas nacionalidades naufragaram em nosso litoral durante a Segunda Guerra Mundial. O fato curioso, é algo que aconteceu em nossos mares após a guerra. Para entendermos melhor vamos primeiro a um pouco de história.

O intenso esforço de guerra acelerou a produção industrial em todo o mundo. Armas, munições, tanques, aviões e, principalmente, navios, eram extremamente necessários para vencer. Como maioria do transporte em larga escala e porque grandes distâncias eram feitas através dos mares, milhares de embarcações foram construídas com os mais variados propósitos: transporte, combate, desembarque, etc. A intensa expansão industrial produziu milhares dos chamados “vasos de guerra”.

Com o ataque a Pearl Harbor e a entrada dos Estados Unidos no conflito no início dos anos 40, sua marinha precisava de meios para desembarcar suas tropas nas praias do Pacifico e da Europa, e por este motivo, encomendaram centenas de embarcações chamadas LCT’s (Landing Craft Tank) e LST’s (Landing Ship Tank).

Essas embarcações foram inicialmente desenvolvidas pela marinha inglesa (Royal Navy), sendo posteriormente fabricadas em larga escala pela marinha americana (US Navy).

Os LCT’s eram embarcações capazes de transportar e desembarcar rapidamente e em qualquer praia, até 5 tanques de pequeno porte. Não eram utilizados para navegar grandes distâncias, apesar do seu alcance chegar a 700 milhas náuticas. Em suas várias versões, chegavam a ter até 36m de comprimento

Já os LST’s eram navios maiores e desenhados para cruzar os mares com grande quantidade de carga por longas distâncias. Com quase 100m de comprimento, tinham um alcance de até 9.000 milhas náuticas e podiam carregar até 18 tanques ou 33 caminhões.

Apesar de fortemente armado, seu propósito era desembarcar os equipamentos após a poeira baixar.

O problema foi que após a guerra, os americanos não sabiam o que fazer com tantas embarcações. Muitas foram deliberadamente afundadas no mar, assim como tanques e outros veículos, como aconteceu com grande parte desses equipamentos no Pacifico, pois era mais barato do que transportar tudo de volta para os Estados Unidos. Outras foram usadas como alvos em exercícios militares, a exemplo da frota japonesa em Truk Lagoon.

Outras foram sucateadas e outras tantas, vendidas para marinhas de diferentes partes do mundo, sendo que alguns deles, convertidos em cargueiros à serviço de variadas companhias mercantes.

Esse foi um dos motivos que colocou no mar cearense, duas embarcações fabricadas durante a Segunda Guerra, ambas nos Estados Unidos, e por enorme coincidência, utilizadas para o transporte e desembarque de tropas, hoje, naufragadas no litoral leste do Estado, e quase anônimas.

Uma delas foi comprada por uma companhia mercante no Rio de Janeiro no início da década de 50. Era um LST que foi reformado e transformado em navio cargueiro e batizado “Macau“. Seu naufrágio está registrado no livro Naufrágios e Afundamentos na Costa Brasileira, na data de 22 de dezembro de 1961, quando pegou fogo e incendiou-se.

O outro é um LCT cujo passado ainda é pouco conhecido. Alguns contam que naufragou em 1986, pertencia a Marinha de Guerra Brasileira e que seu nome era Nossa Senhora dos Remédios. Outros dizem que pertencia a uma companhia mercante e que já fora até utilizada para o abastecimento da ilha de Fernando de Noronha. Seja qual for sua história, o fato é que a cerca de 7 milhas da Praia do Uruaú, existe um LCT naufragado aos 16m de profundidade, cujo nome ainda pode ser lido em alto relevo no casco: “Cypress“.

Menor e logo abaixo também, pode-se ler: “US Army”, ao contrário de US Navy como muitos poderiam imaginar.

A coincidência: duas embarcações fabricadas nos Estados Unidos, durante a Segunda Guerra, para desembarque de tropas, naufragaram com um intervalo de tempo de 25 anos no litoral leste do Ceará e a menos de 13 milhas uma da outra.

Marcus Davis Andrade Braga
Formado em publicidade e propaganda pela FIC. Mergulha há mais de 15 anos, é instrutor de mergulho pela PADI #196258, instrutor de primeiros socorros pela EFR e supervisor de mergulho formado pelo Corpo de Bombeiros do Ceará, instituição para qual presta consultoria. Fotógrafo e pesquisador de naufrágios, já participou de diversas matérias e programas de televisão relacionados a mergulho. É coordenador do Clube de Mergulho do Mar do Ceará, grupo envolvido no desenvolvimento da prática de mergulho autônomo, na preservação ambiental e na pesquisa e localização de naufrágios no estado.