Uma estória da arqueologia submarina brasileira

Foto: Clécio Mayrink

O que penso contar aqui não é uma história documentada, mas uma estória contada de boca em boca. Porém, como dizem os italianos, se não é verdadeira é bem provável.

Ela começa no final dos anos 70 e início dos anos 80, quando Américo Santarelli, fundador da famosa indústria brasileira de equipamentos de mergulho – Cobra Sub – praticava caça submarina. Contam que, numa de suas incursões de caça na Baia de Guanabara, encontrou uma ânfora de cerâmica, com formato parecido com o das ânforas de transporte de vinho, usadas por povos antigos, tal como os fenícios. Contam também que, intrigado com o fato, resolveu enviar um pedaço de sua descoberta à Europa para datar e recebeu a resposta que o material era do século 12.

Ora, mas como poderia uma ânfora anterior a 1500 ter vindo parar na Baia de Guanabara ?

Essa estória suscitou um mal estar entre os muitos mergulhadores portugueses que viviam por aqui e parece que uma nova estória foi criada: a de que Santarelli teria mandado fabricar as ânforas e as submergido na Baia, para envelhecer e posteriormente serem dadas como presentes para alguns amigos. Nunca se soube se as ânforas realmente existiram e, se existiram, qual das duas estórias era a verdadeira.

O fato é que a estória chamou a atenção de alguns pesquisadores norte-americanos, convictos de que navios mercadores fenícios já andavam por nossas bandas há mais de 2 mil anos.

Em 1982, uma equipe de cientistas liderada pelos norte-americanos resolveu escanear a Baia, usando um equipamento de ponta naquela época: um sub-bottom profile scanner, capaz de identificar estruturas enterradas no substrato do fundo do mar.

Durante essa pesquisa, toparam com uma estrutura de alta densidade magnética, que poderia ser de um navio fenício naufragado… Mas, não ! A pesquisa do perfil estrutural mostrou ser característico de uma caravela portuguesa, com três âncoras de ferro.

Como esse não era o objetivo principal da equipe de pesquisadores, o local não foi tagueado. Apenas foi registrado como sendo uma rocha submersa em frente ao Jardim Guanabara, Ilha do Governador, próxima ao farol pintado com faixas vermelhas e pretas. Possivelmente, ao bater contra essa rocha, a caravela teria naufragado.

Os mergulhadores portugueses Raul Cerqueira e Henrique de Brion – ambos vivendo no Brasil – se interessaram pela descoberta. Pesquisaram um pouco mais e descobriram que se tratava de uma caravela do século 16, transportando pedras cortadas para construção de um forte. Por seu peso e pela idade do naufrágio, toda estrutura do navio poderia estar soterrada no substrato marinho e, dessa forma, bastante bem preservada. Elaboraram um plano !

Montar uma ensecadeira ao redor do naufrágio – tal como uma piscina – filtrar a água dentro dessa piscina e, dessa forma, trabalhar em condições ideais que poderiam permitir içar a estrutura inteira do naufrágio, de forma a recuperar a caravela quase em sua condição original. Isso seria uma coisa extraordinária, já que, nessa época, os portugueses não guardavam desenhos de seus projetos de navios, para evitar cópia pelas esquadras inimigas. Seria como trazer de volta uma parte da história escondida do mundo por muitos séculos !

Mas esse plano esbarrava numa dificuldade !

Custaria alguns milhões de dólares e só seria possível com forte financiamento de terceiros. Para conseguir isso, seria preciso obter uma prova física da existência da caravela. Então, no final dos anos 80, Henrique de Brion se dispôs a pesquisar e recuperar ao menos uma das âncoras. Montou uma equipe e convidou dois fotógrafos – eu e Eliana Fernandes – para ajudar na busca e no registro fotográfico, caso a âncora fosse achada. Não seria uma tarefa fácil. Na água escura da Baia de Guanabara, seria como fazer mergulho noturno.

No primeiro dia de pesquisa, fomos direto à rocha submersa e montamos uma estratégia de busca radial: usaríamos um cabo, marcado a cada metro, com o qual percorreríamos círculos, cada qual com um metro a mais de raio, de forma a cobrir uma grande área, de forma organizada. Mergulhamos – eu e Henrique – com um cabo longo, que eu seguraria no ponto central, enquanto Henrique percorreria os círculos ao redor.

Segurei uma extremidade e Henrique se afastou numa determinada direção, apenas para liberar toda extensão do cabo. Quando ele voltou, notamos que o cabo havia desviado da direção original, preso em alguma coisa no caminho. Seguimos o cabo e descobrimos que ele havia ficado preso na própria âncora. Nós a descobrimos sem sequer dar uma única volta de nossa busca radial.

Tratava-se de uma garateia de ferro de 1 metro de altura, típica das caravelas portuguesas do século 16. Marcamos a posição, mas não poderíamos removê-la, por que, uma vez em contato prolongado com o ar, o ferro encharcado pela água salgada iria aos poucos se esfarelar. Para poder mantê-la no ar, seria preciso fazer um tratamento eletrolítico prévio, que não é nem simples nem barato.

Assim, no início de 1993, Raul Cerqueira e Henrique de Brion fizeram um acordo com a Marinha do Brasil, removeram a garateia do local, fizeram datamento com carbono 14 (confirmando sua origem do século 16) e a submergiram novamente no cais da Base de Submarinos Almirante Castro e Silva (BACS), na Ilha de Mocanguê, em Niterói (RJ). Ali ficou sob cuidados da Marinha.

Baía de Guanabara guarda muitas histórias não reveladas – Foto: Clécio Mayrink
Laercio Horta
Formado em Engenharia Química, é mergulhador certificado desde 1979 e fotógrafo submarino desde 1982. Colaborador em várias publicações relacionadas ao mergulho, sendo atualmente membro efetivo do Corpo de Jurados da Associação Brasileira de Imagens Subaquáticas (ABISUB).