Ushuaia – Extremo sul, extremo frio e aventura ao extremo

Foto: Paulo Eugenio Michoca

O fato de você chegar ao extremo sul do continente americano já é emocionante, imagina então poder mergulhar ali, no município mais próximo da Antártida, também conhecido como “Fin del Mundo”.

Tudo teve início quando Pablo, meu amigo argentino e eu, começamos a combinar nossas férias.

Onde iríamos mergulhar ?

Ele, um argentino “abrasileirado” e que nunca mergulhou em seu próprio país – vive com sua família próximo à Buenos Aires – e já se tornou Dive Master, tendo mais de 250 mergulhos “logados”, todos em Ilha Grande.

Eu, nascido no interior de São Paulo, há 3 anos vivendo e trabalhando na Pousada Nautilus em Ilha Grande, conhecedor apenas dessa partezinha do oceano Atlântico.

Após dias de discussão chegamos à um acordo: vamos mergulhar na Argentina, e mais, vamos para o lugar mais longe possível, onde a média de temperatura da água é de 5ºC, e vamos fazer isso nesse inverno !

E lá fomos nós !

Chegamos em Ushuaia, a cidade mais ao extremo da América do Sul, no dia 12 de junho, vindos de Buenos Aires. O tempo estava ótimo, frio óbvio, porém, o céu estava aberto e nos mostrava um pouco das belezas raras que iríamos conhecer.

Nesse mesmo dia fomos até o centro de mergulho Ushuaia Divers, localizado no cais principal de Ushuaia. Na ocasião, havia um vento forte cortante que chegava a nos desequilibrar algumas vezes.

Antes de chegamos na operadora, havíamos feito contato via e-mail e precisávamos nos apresentar e combinar tudo sobre o mergulho à ser realizado. Imagino que muitas pessoas cotam com o mergulho e quando chegam em Ushuaia, acabam desistindo devido ao frio intenso. No nosso casso, o mergulho seria nosso primeiro fora da Ilha Grande, Rio de Janeiro e Brasil, tudo ao mesmo tempo, além de ser o primeiro com roupa seca também, talvez, esse o nosso principal motivador.

O responsável pela operadora não estava e tivemos que fazer contato por telefone para tentar agendar o mergulho para o dia seguinte, pois a previsão não estava muito confiável.

Era dia 13 de junho, acordamos às 8hs com o tempo todo escuro, já que nessa época do ano o sol, quando aparece, brilha das 9:30 às 17hs apenas, e não dava pra acreditar que estávamos nos preparando para mergulhar.

Havia neve em praticamente toda a cidadezinha, e enquanto tomávamos um chá quente, olhávamos para o mar que se agitava estranhamente. Caminhamos mais uma vez até a operadora e dessa vez, conhecemos o Sr. Carlos Giggia, um típico portenho que com muita tranquilidade, nos disse que seria impossível mergulhar naquela ocasião, pois os ventos alcançavam a 50 nós, e com a mesma tranquilidade, demos graças à Deus e fomos caminhar no parque nacional que era mais seguro.

Já no dia seguinte, nosso último dia inteiro em Ushuaia, acordamos com o tempo bastante favorável, não havendo nuvens, nem vento, nem neve, e fomos pela última vez até a operadora, preparados para o curso rápido de roupa seca e finalmente o mergulho.

Dia do mergulho

Vestia 2 calças, 2 pares de meias grossas, 1 camiseta térmica manga longa, 1 lycra de 5mm e 1 polartec. Colocamos o traje seco, inflamos para aquecer o corpo e fomos felizes da vida conhecer o magnífico barco que iria nos levar ao ponto de mergulho. Eu, inocentemente, imaginava um catamarã, Pablo, mais modesto, sonhava com uma lancha, mas foi aí que surgiu um bote inflável, grande é verdade, mas totalmente aberto, sem nenhuma possibilidade de não passar muito frio.

Embarcamos tudo e em 15 minutos chegamos a Ilha dos Pássaros para tirar umas fotos dos leões marinhos e focas, e mais uns 15 minutos até o ponto de mergulho na Ilha H.

Amarramos o bote, colocamos o lastro, equipamos e… tchibum na água… muito, mas muito frio, computador marcando 4ºC, ponto mínimo antes de um início de congelamento.

A visibilidade era de 10 a 12m, parecida com a média da Ilha Grande, e o fundo de pedras, ao invés daquela areia branquinha que estamos acostumados. Tivemos certa dificuldade inicial com a roupa seca, pois a cada “inflada” na roupa, era necessário estar muito atento as mudanças de profundidade para não correr o risco de estar com muito ar na roupa na parte mais rasa e sair como uma rolha para a superfície, sensação que pude experimentar e não recomendo…

Existia pouca vida marinha naquele local, mas totalmente exótica aos nossos curiosos olhares. Víamos as famosas “centollas”, que são caranguejos gigantes e vermelhos, jardins de algas Kelps e nudibrânquios enormes. Dizem que com muita sorte, possível avistar até focas.

Após 45min de pura adrenalina, retornamos finalmente à superfície, e para nossa surpresa, estava nevando, isso mesmo, mergulhando com neve, a coisa mais incrível que nossos U$ 150 poderiam pagar.

Fomos levados então até um abrigo localizado 15min de onde estávamos, e como não poderia ser diferente, ficamos embasbacados quando chegamos ao tal “refugio”. Qualquer pessoa imaginaria um local fechado, com calefação, água quente, chá talvez, mas eram apenas telhas do tipo “brasilit” formando uma proteção contra o vento que vinha no sentido que elas estavam posicionadas, e qualquer outra rajada de vento, nos pegava indefesos. Lá, com as mãos praticamente petrificadas, comemos brioches e tomamos café solúvel, tudo muito apropriado.

A diversão ainda não tinha acabado, restava mais um cilindro pra cada. Seguimos então para nosso segundo ponto, agora na Ilha Victória, cerca de 10min de navegação.

Esse ponto tinha mais vida marinha, uma quantidade maior de “centollas” e nudibrânquios, maior concentração de algas Kelps, o que dava a verdadeira sensação de estar mergulhando em um jardim, e ainda, uma espécie gigante de caracol do mar e camarão palhaço. Enfim, quando subimos, a temperatura na superfície havia despencado, uma vez que o vento tinha aumentado consideravelmente.

Já a caminho do cais de Ushuaia, entendemos um pouco o porquê dali ser considerado um dos lugares mais difíceis para navegar no mundo. O Sr. Carlos acelerou o bote sobre as ondas que se formavam e as sensações de aventura, missão cumprida e frio se misturavam como em um liquidificador.

Regressando a civilização quase no final do dia, carimbamos devidamente nossos log books e caminhamos até o primeiro restaurante possível para degustar aquelas mesmas “centollas” que havíamos visto no mergulho.

E se querem uma dica, digo que valeu cada centavo investido, tanto no mergulho, como no típico prato do fim do mundo.