Visitando a Fragata Dom Fernando e Glória

Foto: Clécio Mayrink

Sempre que planejo uma viagem de férias para um novo destino, costumo buscar por todo o tipo de informação à respeito dos pontos turísticos encontrados por lá, sendo eles famosos ou não, pois a grande maioria dos turistas, acaba não conhecendo muitos locais importantes e interessantes, justamente pela falta de uma pesquisa prévia. Como amante de naufrágios e históricas marítimas, sempre tento encontrar museus relacionados ao assunto, e para a minha surpresa, pesquisando sobre a cidade de Lisboa e arredores, descobri o navio museu Fragata Dom Fernando e Glória, que apesar de não ser um naufrágio, é sem dúvida, uma excelente indicação de museu justamente pelo tipo de navio e seu histórico.

Histórico

A fragata Dom Fernando II e Glória foi a última nau a realizar a rota do “Caminho das Índias”, rota muito utilizada pelos portugueses no passado para o comércio e obtenção de especiarias. A fragata começou a ser construída em 1824 e lançada na água 19 anos depois, no ano de 1943, pelo estaleiro do antigo Arsenal Real da Marinha de Damão, sendo ela, a última embarcação construída por esse estaleiro para a Marinha de Portugal.

O nome dado, foi uma homenagem a Dom Fernando Saxe Coburgo Gota, marido da Rainha Dona Maria II, e por ter sido entregue a proteção de Nossa Senhora da Glória, santa de especial devoção entre os Goeses. Embora projetada para transportar cinquenta canhões, inicialmente chegou a transportar sessenta canhões. Além disso, a nau chegou a transportar quase 300 pessoas em suas viagens, sendo que sua viagem inaugural destinou-se para Lisboa em 1845, partindo de Goa.

Em 1865 a nau Dom Fernando II e Glória substituiu a nau Vasco da Gama, como Escola de Artilharia, e em 1878 realizou sua última missão, com uma viagem de instrução de guardas-marinhas ao arquipélago de Açores. Em trinta e três anos de uso, ela percorreu mais de 100.000 milhas, com diversas idas até a Índia. Chegou à ir para Moçambique e a Angola, participando em diversas missões de descobrimento e ocupação, além do transporte de cargas e pessoas.

Posteriormente, a nau passou por mudanças e adaptações e por volta de 1940, passou a servir como sede da Obra Social da Fragata Dom Fernando. Em 1963, infelizmente ela sofreu grandes danos com um violento incêndio, sendo restaurada pelo governo e colocada como navio museu.

Visitando o Museu

Visitar a nau Dom Fernando II e Glória requer um pouco de tempo, uma vez que, ela encontra-se no município de Almada, localizado em frente à cidade de Lisboa, numa área chamada Cacilhas, havendo a necessidade do uso de algum meio de transporte para chegar até lá, mas o tempo gasto para chegar ao museu, vale cada minuto.

Subir nesta nau, é como voltar ao passado e imaginar como foi a época dos descobrimentos. Imaginar como as tripulações daquela época conseguiam navegar com uma estrutura tão simples e diferente do que existe atualmente em termos de navegação. Naquela época os navegadores conduziam suas embarcações sem saber se poderiam encontrar algo ou não. Simplesmente iam, e sem saber se chegariam em algum lugar. Não existiam radar, GPS, rádios de comunicação e nenhum meio de saberem onde estavam, e certamente e o imenso convés da nau deveria ficar pequeno após tantos dias navegando com um destino incerto.

Seguindo a visitação, subimos ao convés da nau usando uma pequena escada. A visão da do convés é fantástica, pois vemos diversas peças, objetos e equipamentos onde normalmente só encontramos em fotos ou desenhos em livros, mas estão todos ali à nossa frente para serem apreciados. É como se voltássemos no tempo e fosse a época dos descobrimentos.

Objetos como o sino, bitácula e os cinquenta canhões, em perfeito estado de conservação.

Após andar por todo o convés, descemos até o primeiro andar inferior, para conhecer as demais áreas. No primeiro piso inferior, nos deparamos com diversos outros canhões com sua respectiva munição, dando uma idéia do poderia de guerra que a nau possuía. Em toda a área inferior, foram inseridos alguns manequins com as vestimentas da época, para dar uma noção de como eles atuavam no dia-a-dia e nas batalhas. Descendo para o segundo piso inferior, encontramos dormitórios, um imenso salão de jantar, enfermaria, casa de estocagem de pólvora, cabine do comandante e de outras patentes de grande importância hierárquica.

A nau em si é bem grande e relativamente larga, possuindo 83.40m de comprimento por 12.80 de largura, com seus quatro andares, O que muito impressionou, foi com o estado de conservação dos objetos, pois levando em consideração a época em que foram fabricados e por resistirem até hoje, todos eles estão impecáveis.

A visitação dura em torno de 1 à 2h, dependendo do quanto detalhista e conhecedor do assunto o visitante for. A visita a esta nau é sem dúvidas, uma excelente indicação, pois nós brasileiros que estudamos tanto sobre a história do nosso país durante o primário escolar, e ter a chance de visitar essa nau, nos remete ao passado e nos dá a dimensão do que era navegar naquela época.

No local há alguns militares que foram bem simpáticos e estão sempre à disposição para esclarecimentos de dúvidas ou dando mais informações sobre o museu como um todo.

Segundo o Registro Internacional Histórico de Navios, a nau Dom Fernando II e Glória, seria a quarta maior fragata armada do mundo e também, o oitavo navio de guerra à vela mais antigo do mundo, mas acreditem… ela ainda navega. Segundo os militares, ela encontra-se em plenas condições de navegabilidade.

Dicas

Com exceção das segundas-feiras e feriados, a visitação é aberta todos os dias das 10-17h de outubro à abril, e das 10-18h de maio à setembro, onde o ingresso custa apenas 4 euros, e sendo permitida a fotografia sem flash.

É possível ir de carro e estacionar no próprio museu ou pegar um Ferry Boat no Cais Sodré no centro de Lisboa, saltando no ponto final chamado Cacilhas, uma travessia de poucos minutos. Chegando do outro lado do Rio Tejo, basta andar apenas uns 150m até o museu. No dia em questão fui de carro, mas em razão tempo gasto com o trânsito na ponte e até alcançar o museu, acredito que o ferry boat seria a melhor opção.

Mais informações e detalhes podem ser obtidos diretamente no site da marinha de Portugal.

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount). É juiz internacional de apneia pela AIDA e foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008. Produziu documentários sobre as Bahamas, Bonaire, Galápagos e Laje de Santos, visitando mais de 30 países. Foi o idealizador do site Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP), atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.