Doença Descompressiva e Recompressão na Água

Foto: Clécio Mayrink

Sempre que alunos de curso básico aprendem sobre a doença descompressiva, acabam perguntando “se o tratamento é recompressão, porque não fazê-la na água”. Embora pareça obvio, o procedimento não é simples nem muito seguro, apenas um opção em circunstâncias bastante raras.

Como a recompressão age

Em primeiro lugar é importante que se entenda como a recompressão age no tratamento da doença descompressiva. Tal doença decorre primariamente da formação de bolhas ricas em nitrogênio nos tecidos e no sangue, devido à eliminação inadequada deste gás (ver scuba número ???). As bolhas podem causar lesão direta no tecido ou obstruir a circulação, impedindo uma oxigenação adequada. Uma vez que uma bolha tenha se expandido, é necessária uma pressurização de 5 ATAs (pelo menos 40 metros de profundidade), para reduzir seu diâmetro em 50 %.

Um paciente que chega a uma câmara de recompressão nas primeiras horas posteriores ao acidente é frequentemente recomprimido a esta pressão, visando inicialmente uma redução no tamanho das bolhas. Depois, numa segunda fase, a pressão é diminuida, e o paciente respira oxigênio, que ajuda a remover o nitrogênio de dentro da bolha. Entre as diversas etapas, se passam algumas horas.

Imagine agora tentar tratar uma pessoa na água com o perfil recompressivo supra-citado. Imagine levar uma pessoa com as pernas paralisadas a 40 ou 50 metros de profundidade no mar, e imagine a quantidade de descompressão que será necessária para retirá-la da água. Imagine ainda a quantidade necessária de gás e o tempo do tratamento. Imagine ainda condições de mar muito ruins, dificultando as paradas de descompressão nas profundidades.

Pelos motivos acima citados, além de estatísticas mostrando maus resultados, a recompressão na água à grande profundidade, com ar, não é feita em nenhuma circunstância.

O oxigênio hiperbárico

O oxigênio beneficia o tratamento da doença descompressiva ajudando na eliminação do nitrogênio. Ao administrarmos oxigênio, mesmo na superfície, geramos um grande gradiente de pressão entre o tecido (ou sangue) à volta da bolha. Com este gradiente, o nitrogênio passa a sair da bolha, enquanto o oxigênio entra. No início, os sintomas podem piorar pois o oxigênio entra mais rápido do que o nitrogênio sai. Depois o oxigênio, metabolizado pelo corpo, passa a sair. É por isto que fornecemos oxigênio como medidas de primeiros socorros.

Quanto mais oxigênio melhor ?

O oxigênio hiperbárico (sob pressão) é mais efetivo que 100 % de oxigênio na superfície, pois criará um maior gradiente de pressão, além de efeito anti-inflamatório no tecido afetado. O motivo é simples, em condições normais de pressão não conseguimos assimilar mais oxigênio do que nossos glóbulos vermelhos podem carregar. Em condições hiperbáricas conseguimos dissolver este gás diretamente no plasma (parte líquida do sangue). Um problema importante é a toxicidade deste gás. Normalmente, não se usa mais do que 1.6 ATAs de oxigênio no mergulho (respirar 100 % de oxigênio a seis metros de profundidade), sob o risco de convulsão, o que seria letal debaixo da água (a vítima se afoga).

Tabelas de tratamento para recompressão na água são usadas em situações extremas (e uma evacuação para uma câmara irá demorar demais), com 100 % de oxigênio em profundidades pequenas – de 9 metros (aonde se respira 1,9 ATA de oxigênio) até a superfície.

Para que uma possível convulsão na água não se torne letal, algumas medidas são mandatórias, como o uso de máscara full-face (cobre todo o rosto e caso ocorra uma convulsão, a vítima não perde o regulador), proteção térmica adequada para o tempo de recompressão e temperatura da água, quantidade suficiente de oxigênio, condições ambientais que permitam e uma pessoa observando o procedimento na água.

A tabela mais comumente usada preconiza 180 minutos de oxigênio, distribuídos entre 9, 6 e 3 metros.

Vale o risco ?

Extremamente complexa, se bem aplicada a recompressão na água, com oxigênio puro, mostra bons resultados. Nunca superiores do que a recompressão em câmara, e muitas vezes também não superiores do que o oxigênio na superfície. Então, porque e quando usar ?

Em locais remotos, onde uma evacuação para câmara será extremamente demorada e o oxigênio de superfície não se mostra efetivo (se aplicado corretamente, com válvula de demanda, a 100 %), e o quadro parece piorar, por exemplo com evolução de sintomas localizados (pele e juntas) para sintomas de comprometimento nervoso.

É importante lembrar que a doença descompressiva é muito rara no mergulho recreacional não descompressivo, e que o equipamento para recompressão na água é caro, complexo e quase nunca está disponível, a menos que planejado anteriormente. Já mergulhadores técnicos, em função do risco aumentado, costumam ter este tipo de equipamento à mão

Fica então minha opinião final que a recompressão na água se limita a casos extremos em locais remotos, onde não surge alternativa melhor.

Gabriel Ganme
Dr. Gabriel Ganme é médico do esporte, e responsável pelo ambulatório de Medicina dos Esportes de Aventura da Escola Paulista de Medicina, no CETE - UNIFESP. Mergulha desde 1980 e foi Course Director pela PADI de 1990 até 2016. Foi Cave Intructor Sponsor (NSS/CDS), Technical Instructor pela TDI e IANTD, e membro da Undersea & Hyperbaric Medical Society. Atualmente é proprietário de uma clínica especializada em medicina esportiva.