Dor de ouvido no mergulho

Com certeza um dos problemas mais comuns que afetam os mergulhadores e que pode tirar todo o prazer da atividade subaquática é a dor de ouvido.

Ela pode ter diversas causas com tratamentos e conseqüências muito diferentes. O que vemos é uma grande desinformação a respeito deste assunto e uma série de mitos que podem até piorar a situação do mergulhador afetado.

Vamos tentar neste texto listar as causas mais comuns de desconforto nos ouvidos relacionados ao mergulho, bem como dicas de como identificar estas causas e o que se pode fazer para aliviar o problema.

É importante que fique bem claro, que nada substitui a avaliação médica do paciente, com otoscopia (exame dos ouvidos).

Dor durante a descida

Normalmente quando sentimos dor durante a descida, a causa mais comum é uma impossibilidade de equalização da pressão dentro da orelha média. Isto pode acontecer quando estamos gripados, resfriados, rinite alérgica, etc e também em mergulhadores inexperientes. Nunca é demais lembrar que não devemos forçar a equalização se estivermos sentindo dor.

O correto é subir alguns metros até que a dor diminua e fique apenas uma leve pressão e aí tentar equalizar. Abrir a boca e movimentar a mandíbula durante a equalização podem ajudar. Caso não se consiga a equalização, deve-se abortar o mergulho. Mergulhadores iniciantes devem sempre descer (e subir) no cabo, para evitar que a falta do controle de flutuabilidade os impeça de controlar estes movimentos.

Muitas vezes após o mergulho, o ouvido continua doendo ou tampado, significando que houve algum grau de barotrauma. Neste caso, não se deve prosseguir com novos mergulhos até que um médico capacitado possa examiná-lo.

Devemos sempre evitar mergulhar na vigência de quadros gripais, sinusites, etc. Pessoas com problemas crônicos de nariz como desvios septais, rinites, etc devem procurar um otorrinolaringologista e tratar sua condição antes de começar a mergulhar.

Muito mais raro é o barotrauma de conduto auditivo. Ele ocorre quando se utiliza um capuz que veda completamente o ouvido, impedindo a entrada de água. Para evitá-lo, é bom que se deixe entrar um pouco de água no capuz à medida que se está aumentando a profundidade. Alguns tipos de capuz já possuem uma pequena abertura para esta finalidade.

Dor durante a subida

Muito mais rara, a dor na subida pode significar um bloqueio reverso. Ou seja, a pressão se equalizou na descida, porém o ar está aprisionado dentro da orelha média e não consegue sair pela tuba auditiva durante a subida. Isso é mais frequente quando o mergulhador utiliza descongestionantes, principalmente tópicos (gotinhas) em que o efeito cessa durante o mergulho.

Dor após o mergulho

Aqui temos causas diversas. Pode ser um barotrauma causado por dificuldade de equalização na descida. Pode ser também dor na região da articulação temporo-mandibular causada por um mau ajuste do bocal do regulador.

Pessoas com este tipo de problema podem optar por bocais anatômicos que se ajustam à boca e não necessitam ser mordidos. Uma dica para diferenciar, é que a dor de ATM não causa sensação de falta de audição ou ouvido tampado como o barotrauma. O tratamento normalmente é com antiinflamatórios.

Às vezes, após mergulhos repetidos (por exemplo um live aboard), mesmo sem um barotrauma específico, o ouvido fica dolorido e um pouco tampado. Isto acontece por uma sobrecarga da membrana timpânica, que não está preparada para ser submetida a tantas variações de pressão. O ideal é fazer alguns períodos de descanso e equalizar bem delicadamente em todos os mergulhos quando se for encarar uma série grande mergulhos.

Ouvido tampado após o mergulho e sem dor

Aqui a causa mais comum é uma rolha de cerúmen que se deslocou com a água e está obstruindo o conduto auditivo. Pode provocar um pouco de dor mas não é comum. Após a confirmação com otoscopia,o tratamento é a remoção da rolha por um otorrinolaringologista. Pessoas com propensão a produzir cera, devem realizar esta remoção regularmente antes dos mergulhos.

Otite Timpânica
Otite Timpânica

Uma das “lendas” é sobre a presença de água nos ouvidos. Sempre que entramos na água nossos condutos auditivos se enchem de água. E assim que saímos da água o liquido escorre e sai. Por vezes ele pode se alojar em alguma reentrância, porém nada que umas sacudidelas não sejam suficientes para a remoção. Na pior das hipóteses, em pouco tempo a água evapora e a sensação de ouvido tampado melhora.

Portanto, se após algumas horas do mergulho seu ouvido continuar tampado, existe algum problema,que não é água. Por isso, o uso de gotas de álcool nos ouvidos deve ser desestimulado. Na eventualidade de uma perfuração timpânica pós-barotrauma, o álcool pode trazer conseqüências desastrosas.

Otite Externa
Otite Externa

Dor que inicia alguns dias após o mergulho

Nestes casos a causa mais comum é a otite externa. Uma infecção do conduto auditivo que pode ser causada pelo excesso de umidade. O tratamento é com gotas de antibiótico e sempre com prescrição médica. Pessoas com otites externas de repetição, podem utilizar gotas de álcool/ácido acético nos ouvidos após a exposição à água como medida preventiva. Porém nunca se houver suspeita de barotrauma ou na presença de dor.

Vamos lembrar mais uma vez, que para o diagnóstico correto, é necessária a realização de otoscopia por um médico gabaritado e que o uso de medicações deve ser feito sempre sob orientação médica.

Bons mergulhos !

Fabrizio Romano
Dr. Fabrizio Romano é Médico Otorrinolaringologista formado pela faculdade de Medicina da USP em 1997 Residência médica em Otorrinolaringologia pelo HC-FMUSP em 2001 e Doutorado em Otorrinolaringologia pela FMUSP em 2005, Rescue Diver PADI.