Ensaio sobre o Gerenciamento de Acidentes de Mergulho

Foto: Clécio Mayrink

Já definimos acidente como um encadeamento de erros previsíveis, e portanto, evitáveis. Porém quando a avaliação das condições ambientais que cercam a atividade de mergulho, a condição física, médica e psicológica e a competência técnica do mergulhador não se fazem adequadas, o acidente pode ocorrer.  

Em 2008 pesquisadores da DAN usando um modelo matricial identificaram quatro fases diferentes na cascata de eventos que levam a uma fatalidade no mergulho. O estudo investigou 947 mortes e apontou uma sequência de eventos comum nestas mortes: o evento desencadeante, o agente debilitante, a lesão debilitante e a causa da morte.

A causa mortis para maioria dos casos foi o afogamento. Porém, para os especialistas o afogamento foi precedido por alguma outra condição debilitante. O segundo número significativo de fatalidades está associado a Síndromes Isquêmicas Miocárdicas Instáveis (Infarto Agudo do Miocárdio).

A revista Alert Diver no ano de 2012 brindou – nos com um artigo do Dr. Dan Orr “Dive Safety: It’s No Accident” que analisou os gatilhos que levaram à morte 1.000 mergulhadores chegando aos seguintes resultados:

– 41% dos mergulhadores que foram a óbito ficaram sem gás;

– 21% ficaram enroscados ou presos;

– 15% tiveram problemas com equipamento;

– 10% enfrentaram condições adversas de mar;

– 6% sofreram algum tipo de trauma;

– 4% tiveram problemas com o controle de flutuabilidade;

 – 3% usaram gás respirável incorreto.

Independentemente do gatilho, do agente, da lesão ou da causa, sabemos que não existe nada mais sorrateiro e até porque não dizer traiçoeiro, do que a morte resultante de acidente. Para o senso comum ela surge do nada e colhe o que quer. De súbito, quem falava e mergulhava há pouco ao nosso lado está caído, inerte, sem voz e sem gesto. A vida desapareceu de forma inesperada.

Nos últimos Reports da DAN, o número de acidentes fatais (para os EUA, Canadá e Caribe) girou em torno de 100 / ano.

Diríamos desta maneira que a atividade do mergulho esportivo é suficientemente segura. Mas como todo esporte de aventura, o mergulho também tem seus riscos. Lidar com a estatística é fácil. O duro é ter que administrar uma fatalidade à bordo.

Em primeiro lugar, devemos lembrar que para manter e quem sabe até melhorar os níveis de segurança da modalidade, precisamos de um pouco mais de critério na formação de profissionais, na seleção dos candidatos, na avaliação médica, no nível e na qualidade de treinamento, além do adequado equipamento de emergência a bordo.

E no âmbito psicológico, vale lembrar que é preciso bom senso e respeito ao se trabalhar com a dor – diante de todos os que, direta ou indiretamente, estão próximos daquele que sofreu a perda. Para Lorie Laroche-Buscombe (2014) “tanto as vítimas quanto as testemunhas de eventos traumáticos podem apresentar reações emocionais e físicas desconcertantes e preocupantes, o que pode ter repercussões duradouras se não forem enfrentadas à tempo”. Vale à pena refletir sobre o tema.

Recordemos também que toda empresa, não importa o tamanho ou o segmento, está sujeita a fatalidades. Não existe o 100% seguro. E com o mergulho, não é diferente.

Para nosso entendimento, situações de morte são eventos indesejáveis e potencialmente perigosos já que provocam prejuízos significativos a todos envolvidos. Com relação às empresas, tais ocorrências afetam diretamente a relação com o público específico e, consequentemente, podem representar uma grave ameaça à sobrevivência da organização no mercado competitivo.

Nos dias líquidos de hoje, a velocidade com que as informações se espalham via internet é enorme, e obviamente, ficou mais difícil conter qualquer tipo de crise. Hoje elas podem surgir como boatos em qualquer mídia social, cujo potencial de alcance é muito maior que a mídia tradicional e pode ser devastador.

Para Tolentino (2015), os efeitos de uma crise sobre os negócios têm o potencial de desestruturar a organização, reduzir as vendas, abalar os resultados financeiros, gerar problemas políticos, desmotivar colaboradores, obrigar o pagamento de indenizações, criar entraves no mercado e prejudicar o funcionamento de toda uma cadeia de empresas e pessoas secundárias envolvidas indiretamente no negócio, causando transtornos diversos e inimagináveis, provocando lesões na reputação e credibilidade da organização.

O grande desafio da gestão da comunicação nestes casos é tentar reverter esse quadro, implantando alternativas imediatas para evitar ou minimizar os efeitos perversos da publicidade negativa sobre o ocorrido.

Se uma crise é mal administrada, a credibilidade e a reputação da empresa(s) envolvida(s) desaparece(m) rapidamente aos olhos do público. Segundo os especialistas da área de comunicação, uma crise sempre se agrava com a perda da iniciativa da comunicação.

Dois aspectos são fundamentais na gestão da comunicação de um acidente de mergulho:

  1. Esclarecer a comunidade específica e a sociedade como um todo através de respostas ágeis, objetivas, transparentes e verdadeiras sobre o episódio, visando manter a opinião pública informada;
     
  2. Fornecer informação clara, precisa e específica para os segmentos de público impactados pela crise, tais como familiares das vítimas, colaboradores, clientes, consumidores, fornecedores, revendedores ou outros públicos de relacionamento da empresa.

É preciso centralizar a gestão da comunicação nas mãos de um profissional de comunicação empresarial que detenha conhecimento do negócio e dos fatos, além da experiência na administração da comunicação em situações de crise, de forma a administrar a análise e o repasse de informações de maneira rápida e correta para a opinião pública e os demais públicos envolvidos.

Outro aspecto importante em casos de acidentes de mergulho é não se deixar pautar pelas especulações da mídia, mas focar sua atenção e seus esforços nas vítimas e familiares, oferecendo total apoio para amenizar o sofrimento dos envolvidos.

Foto: Clécio Mayrink

Sugestões de especialistas sobre o que fazer

Aqui colocamos recomendações que podem ser úteis durante uma situação de acidente de mergulho:

  1. Prepare-se
    Acione seu advogado e um especialista da área de mergulho para te orientar. Junte todos os documentos sobre o mergulhador. Anexe o plano de emergência para a localidade, data do último treinamento de primeiros socorros, RCP, provedor de oxigênio e de uso de Desfibrilador Automático Externo da sua equipe, bem como cópias das certificações de instrutores e divemasters com datas de renovação válidas, RGs, etc.
     
  2. Não saia falando sem saber de fato o que aconteceu
    Envie uma nota para as mídias sociais. Declare que você irá se informar e voltará a falar. E volte.
     
  3. Não tema. Fale !
    Se você não falar, alguém – o bombeiro, o marinheiro, o mergulhador de outra embarcação – vai falar por você, só que não necessariamente a verdade. Daí surgirão boatos que crescerão em proporções estratosféricas se não forem neutralizados.
     
  4. Mentir, jamais !
    A mentira tem pernas curtas. E, quando alguém descobrir que você está mentindo, um dos últimos e o mais precioso recurso que lhe resta, estará perdido. Daí para frente, nada mais importa: você será o culpado.
     
  5. Assegure-se de estar sendo compreendido !
    Adote que tudo pode ser problema de comunicação. Será que os jornalistas e a opinião pública estão de fato entendendo e aceitando o que você está falando? Cuidado com termos técnicos e evasivos.
     
  6. Não especule. Não brinque. Não subestime.
    Vai dar a impressão de que você é arrogante e age de má-fé.
     
  7. Jamais diga “sem comentários” ou “nada a declarar”
    Essas frases, antipáticas, dão a impressão de que você tem algo a esconder. Esclareça.
     
  8. Trate de ser identificado como crível, honesto.
    A imagem e a credibilidade, no momento de crise, são decisivos. Não basta ser honesto, você tem de parecer honesto.
     
  9. Tenha todos os documentos organizados
    Ficha do aluno, exame médico, Ficha de ciente de risco, Avaliação de aquacidade, Liberação de responsabilidade, Registro DAN, Avaliações durante o treinamento, entre outros.

É importante ressaltar que a empresa deve, na medida do possível, ser o mais transparente que puder com a imprensa e as mídias sociais. Isso significa divulgar o ponto de vista da organização sobre o assunto da forma ágil e objetiva, visando eliminar possíveis polêmicas.

Informe sua agência certificadora do ocorrido através de um relatório de acidentes. A DAN também possui em sua página na web um espaço para relatos de acidentes. Gere documentos oficiais e anexe os mesmos à ficha de aluno / turista. Isso ajudará a comunidade de mergulho a entender acidentes específicos e a desenvolver a prevenção.

 

Sugestões de especialistas sobre o que não fazer

Cuidado com sua postura na condução de uma crise. Evite agir desta forma:

  1. “Estou sendo injustiçado.”
    Mesmo que você tenha feito tudo na boa-fé, não se julgue perseguido pela família, pela imprensa, pelo governo, pela associação de consumidores, pela agência certificadora, pelas comunidades de mergulhadores. Isso não resolve. Agrava a situação.
     
  2. “Não é problema meu.”
    Não tente se preservar. Saiba conduzir a crise com competência.
     
  3. “Me respeite.”
    Por mais envolvido que você esteja, a questão não é pessoal. Menos envolvimento emocional facilita o raciocínio equilibrado.
     
  4. “Foi um episódio isolado. Não vai acontecer novamente.”
    Não ignore sinais de alerta. Resolva problemas potencialmente graves da primeira vez, antes de se tornarem crises.
     
  5. “Isso não vai dar em nada.”
    Efeito avestruz não ajuda. O que você prefere: um fim horroroso ou um horror sem fim?
     
  6. “Seguimos todas as normas, padrões e regulamentos.”
    Mas quem se importa com isso neste momento ?
     
  7. “Legalmente estamos cobertos.”
    Ter razão em crises não significa vencer. A questão é de imagem e não apenas de leis.
     
  8. “Foi um problema menor. Não há motivo para pânico.”
    Não se iluda. Uma pequena rachadura num dique pode significar catástrofe.
     
  9. Não negligencie seu público
    Respeitados e bem informados, eles podem ser seus aliados.

 

Pós-crise

Passada a crise, depois de todo o desgaste sofrido, tenha em mente que o trabalho ainda não terminou. Esse momento serve para analisar e refletir, com base nos dados coletados, sobre os pontos positivos e negativos causados pela crise, seus reflexos na opinião dos clientes, os meios de rever processos criados, o treinamento em áreas de Atendimento Pré Hospitalar e Resgate de Mergulhadores e, ainda, melhorar o seu plano de emergência juntamente com as pessoas responsáveis pelas operações de mergulho. Apoie psicologicamente a equipe envolvida no resgate e no atendimento médico de emergência.

Segundo Mayrink (2017) “Quanto à quantidade de notícias, com todos acessando a Internet, fica difícil esconder um acidente, pois rapidamente as notícias são repassadas, e todos tomam conhecimento sobre o fato. Infelizmente nosso mercado de mergulho tem a péssima mania de querer esconder as informações, quando deveria expor o fato a todos através de um relatório, para que ele seja analisado e compreendido por todos, pois só com erros e fatos amadurecemos em conhecimento e conseguimos evitar que o mesmo erro ou problema seja cometido no futuro. Sem contar, que eliminamos a possibilidade do fato ser distorcido”.

Fica a dica: O tempo de brincar de avestruz acabou. Efeito avestruz não ajuda. Em geral, o silêncio é a pior atitude nesses momentos.

Obviamente, a morte, como evento natural intrínseco ao processo de viver, não está sob domínio humano, mas a morte prematura, aquela que furta a vida na atividade de mergulho, seja ele esportivo, técnico ou profissional, poderia, sim, estar de alguma forma, sob o controle dos homens.

Uma forma conhecida de reduzir os contratempos na atividade de mergulho é lembrar-se dos procedimentos de segurança e segui-los. Shabbar I. Ranapurwala, no seu artigo Listas de Verificação, na Alert Diver, 2013, informa que evitar, omitir, negligenciar ou não entender a importância destes procedimentos leva ao erro humano. E que estes erros associados ao aumento de estresse, a dificuldade em operar equipamentos com defeito e a condições ambientais estressantes ampliam tal possibilidade.

O autor conclui que uma lista de verificação é uma ferramenta prática para reduzir erros, melhorar o desempenho e seguir os padrões de segurança.

Por fim, recordemos como bem diz um especialista da Psicologia do Esporte, que “a vida é frágil e sensível – tanto quanto a natureza humana e todas suas nuances. Tudo pode mudar em questões de segundos. O sofrimento não pode – nem deve – ser medido. Ele é único e intransferível”.

Aqueles que estão na linha de frente trabalhando com esportes de aventura e em específico o mergulho, precisam investir e apostar mais no treinamento de Atendimento Pré Hospitalar, mas também no respeito, ética e conhecimento da condição humana.

Só é possível ajudar alguém se o ser humano que habita em mim é capaz de encontrar o outro e ser solidário.

Foto: Clécio Mayrink

Referências

Buscombe L.L.  Mental Health First Aid After a Water-Sport Incident
http://www.alertdiver.com/MentalHealthFA – Acesso em 10/05/2017.

Buzzacott P, Zeigler E, Denoble P, Vann R. American Cave Diving Fatalities 1969-2007. International Journal of Aquatic Research and Education 3:162-177; 2009.

Denoble P, Caruso J, Dear G, Pieper C, Vann R. Common causes of open-circuit recreational diving fatalities. Undersea Hyperb Med. 35(6):393-406; 2008.

Denoble P, Pollock N, Vaithyanathan P, Caruso J, Dovenbarger J, Vann R. Scuba injury death rate among insured DAN members. Diving and Hyperbaric Medicine 38(4):182-188; 2008.

Forni, A.
http://www.comunicacaoecrise.com/site/ – Acesso em 05/04/2017

Mayrink, C.
http://www.brasilmergulho.com/aumento-do-numero-de-acidentes-entre-mergulhadores/ – Acesso em 05/04/2017

Mariasch, A. O que é gerenciamento de crise ?
http://www.racecomunicacao.com.br/blog/o-que-e-gerenciamento-de-crise/ – Acesso em 10/05/2017

Orr D, Douglas E. Scuba Diving Safety. Champaign, Ill.: Human Kinetics, 2007.

Orr, D. Dive Safety: It’s No Accident
http://alertdiver.com/No_Accident – Acesso em 10/05/2017

Ranapurwala, S.
http://portuguese.alertdiver.com/Listas – Acesso em 10/05/2017

Tolontino, V. Gerenciamento de crise: 6 dicas valiosas para reter clientes em http://resultadosdigitais.com.br/blog/gerenciamento-crise-6-dicas-reter-clientes/ – Acesso em 10/05/2017

Vann RD, Lang MA, eds. Recreational Diving Fatalities. Proceedings of the Divers Alert Network 2010 April 8-10 Workshop. Durham, N.C.: Divers Alert Network, 2011. ISBN #978-0-615-54812-8.

Roberto Trindade
Formado em Educação Física, Psicologia e Turismo. Pós-graduado em Psicomotricidade, Psicopedagogia, Esportes de Aventura, Psicologia do Esporte e Fisiologia do Exercício. Mestre em Psicologia. É mergulhador profissional pelo Ministério da Marinha e Delegacia de Portos e Costas - DPC. É instrutor trainer trainer pela IANTD e instrutor pela CBPDS, CMAS, PADI, NAUI, TDI, HSA, SBMA, SSI, NSC, ERDI e DAN. Também é Membro da Sociedade Brasileira de Atendimento Integrado ao Trauma (SBAIT), Undersea and Hiperbaric Medical Society e Centro Regional de Informação de Desastres para América Latina e Caribe.