Entrevista: Flávia Dalla Santa

Flávia Dalla Santa

Qual a sua formação e profissão ?
Sou Arquiteta e Urbanista formada pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, com especialização em Arquitetura Comercial também pela UNISINOS, e especialização em Arquitetura Hospitalar pelo IAHCS – Escola Superior de Gestão e Ciências da Saúde. Atuo como arquiteta na área da saúde, e também me dedico à fotografia de natureza.

Há quanto tempo você mergulha e qual é a sua certificação ?
Fiz meu primeiro curso em 1987, e realizei alguns mergulhos naquela época, mas considero que efetivamente comecei a mergulhar em 2003, quando refiz o básico (Open Water Diver) pela PADI e, desde então, venho mergulhando com maior regularidade. Possuo as seguintes certificações e especialidades PADI: Advanced Open Water Diver, Enriched Air Diver, Wreck Diver, Emergency Responder, Digital Underwater Photographer, Dry Suit Diver, Manta Ray Awareness.

Como você ingressou na fotografia ?    E na fotografia submarina ?
Foi o mergulho que despertou meu olhar fotográfico. Sou uma apaixonada pelo mar, e a possibilidade de registrar em imagens e trazer para a superfície o universo que se vê durante um mergulho foi minha principal motivação.

Fiz o processo inverso. Iniciei na água, meu primeiro curso foi o de fotografia subaquática, e depois me aventurei a fotografar em terra. Tenho feito viagens nacionais e internacionais onde a fotografia é o principal objetivo, e participado de cursos e workshops na área também.

Você acredita que um curso de fotografia sub pode melhorar a performance do aluno ?
Com certeza o estudo é necessário, mas a técnica é só a base. Além da construção de um repertório, é preciso treinar e desenvolver o olhar fotográfico. É isso que faz a diferença e é em busca disso que eu sigo.

Que prêmios na fotografia você já conquistou ?
Recentemente conquistei o primeiro lugar no Campeonato Nacional de Fotografia Subaquática 2017, realizado em São Sebastião-SP, com três medalhas de ouro nas categorias Master Criativa, Temática e Peixe.

Também tive algumas fotos premiadas em concursos e campeonatos anteriores:

PRIME Brasil de Fotosub 2016
3° lugar Master categoria Criativa, 4° lugar Master categoria Peixe

Open SP de Fotografia Subaquática 2016:
3° lugar Master categoria Criativa
4° lugar Master categoria Temática
4° lugar Master categoria Grande Angular

Concurso Nacional de Fotografia Subaquática 2016, Cabo Frio-RJ:
3° lugar Master categoria Grande Angular
3° lugar Master categoria Criativa

PRIME Brasil de Fotosub 2015:
1° lugar Master categoria Close Up

Shootout 2015 ABISUB, Angra dos Reis-RJ:
3° lugar Master categoria Peixe, 5° lugar Master categoria Close Up
5° lugar Master classificação Geral
3° lugar classificação por equipe

Campeonato Brasileiro de Fotografia Subaquática CNFVS 2015 – Cabo Frio-RJ
2° lugar categoria Macro Temática

PRIME 2016 – 3° lugar na categoria criativa – Foto: Flávia Dalla Santa

Recorda-se de alguma foto que tenha sido bem complexa para ser feita ?
Lembro de uma foto que fiz do tradicional coral mole da Ilha dos Papagaios, em Cabo Frio, durante o CN2016. Na verdade não considero que tenha sido complexa, mas sim, trabalhosa, pois foi necessário montar praticamente um estúdio embaixo d’água, com flashes auxiliares. Para a execução desta foto, que levou praticamente o mergulho inteiro, contei com a grande e paciente ajuda da minha dupla, aliás, é muito importante destacar o papel fundamental do dupla / modelo / assistente na fotosub.

No caso da macro fotografia, a técnica é complexa para obter belas imagens ?
Penso que a macrofotografia apresenta dificuldades técnicas diferentes da GA (Grande Angular). Enquanto na GA, acredito que a parte mais difícil seja a iluminação e o posicionamento de flashes, na macro, principalmente quando se usa subsee, a dificuldade maior seja a questão do foco.

Tenho um particular fascínio pela macrofotografia, principalmente subaquática.

Talvez porque revele imagens que não são tão óbvias a um primeiro olhar. O perfil de mergulho, mais lento para foto macro, nos permite maior tempo de observação e descobertas sobre a vida dos pequenos habitantes do mar.

Você é uma pessoa criativa nas imagens. No caso das imagens de longa exposição, as ideias surgem na hora ou você chega a planejar antes ?
Planejamento é fundamental. O processo de criação inicia muito antes do momento da foto. Na astrofotografia, por exemplo, o planejamento ocupa cerca de um terço do processo de construção de uma imagem. É necessário um estudo prévio, desde a escolha de uma área longe de poluição luminosa, considerando também as condições climáticas, de acordo com a época do ano, fases da lua, posição e horário para estar no lugar certo e na hora certa, potencializando as possibilidades de composição da imagem. É importante fazer o scouting da área durante o dia, com o auxilio de aplicativos, para prever a posição da Via Láctea e determinar o melhor horário e ângulo para cada cena. Desde então a composição já vai se criando mentalmente.

De forma geral, considero que o planejamento é sempre necessário, inclusive nas fotos subaquáticas, onde temos que saber as possibilidades do que iremos encontrar para fotografar, para então planejar o mergulho, escolher as lentes, configurar o equipamento e definir acessórios a levar. De nada adiantaria estar diante de um tubarão baleia com a lente macro na câmera, ou encontrar um cavalo marinho pigmeu com a grande angular. É muito importante conhecer o que se vai fotografar, estudar a fauna marinha da região, hábitos e comportamento dos animais para saber onde, quando e como procurar o assunto para a foto.

Que lugar no mundo ficou marcado em sua memória e em fotos ?
São vários, é difícil escolher. O primeiro encontro com um tubarão baleia, em Jardines de la Reina, Cuba, não teve foto, mas é uma imagem que está guardada para sempre na memória.

Interagir com os brincalhões “lobitos” em Galápagos também foi marcante, assim como o impacto de mergulhar próximo a um cardume de tubarões martelo. Esta é uma cena difícil de esquecer. A Ilha de Darwin, com certeza é um lugar especial.

Os loopings das raias mantas em Revillagigedo me renderam lágrimas de emoção e fotos que gosto bastante.

Mas não foi só a megafauna marinha que marcou, lembro também do snorkeling com mais de cinco milhões de águas vivas no Jellyfish Lake, em Palau que, sem dúvida, foi inusitado.
Também não posso deixar de citar alguns lugares e cenas incríveis que vi em terra, como as fantásticas cachoeiras da Islândia e a vida selvagem na África, que pude presenciar em seu estado bruto, durante viagem à Tanzânia.

Naufrágio São Luiz – Foto: Flávia Dalla Santa

Alguma vez foi complexo para alcançar um destino para fotografar ?
Em várias ocasiões. Costumo brincar, dizendo que as fotos mais complicadas são sempre as mais prazerosas.

A expedição para o Naufrágio São Luiz, por exemplo, demandou 12 horas entre navegação nas águas agitadas do Rio Grande do Norte e mergulhos. Saímos da marina às 3hs da manhã para fazer às 7hs o primeiro mergulho naquele lindo gigante de ferro adormecido. É um naufrágio belíssimo, muito colorido, totalmente coberto por esponjas e corais, e repleto de vida. Tanta beleza com certeza compensou o desgaste da longa travessia em mar aberto.

Na superfície, fotografar em temperaturas extremas também é sempre um grande desafio. Tive oportunidade de presenciar a Aurora Boreal em duas viagens à Noruega, e estas, com certeza são imagens significativas para mim. Atravessamos as noites “caçando” Auroras, percorrendo caminhos nem sempre muito fáceis de trilhar. Temperaturas negativas, vento, chuva e neve fizeram parte dessa e de algumas outras aventuras.

Não indo tão longe, aqui em terras gaúchas, fiz fotos noturnas, da Via Láctea, em condições que também exigiram certo sacrifício. Para que possamos fotografar as estrelas precisamos nos afastar da poluição luminosa e, consequentemente, da estrutura das cidades. Este tipo de fotografia normalmente envolve trilhas, e algumas vezes o que se tem para passar esse período são apenas uma barraca e mantimentos, além da câmera e muita vontade de fotografar. Na fotografia de natureza se aprende o valor de coisas simples como um banho quente no final do dia, ou uma cama confortável para descansar.

E quanto aos riscos ?
Fotografar em lugares inóspitos normalmente envolve algum tipo de risco.

Em relação à fotosub, podemos considerar que o próprio mergulho já é uma atividade que envolve risco, mas é um risco controlado. Respeitar as regras de segurança é fundamental. Acidentes de mergulho vêm acontecendo, e ter uma câmera na mão é um fator a mais que requer atenção. Já presenciei mergulhadores que simplesmente esquecem de tudo que aprenderam nos cursos de mergulho e nadam alucinadamente atrás de um golfinho, uma raia manta ou um tubarão baleia, sem a menor preocupação com a profundidade, para conseguir uma imagem.

Realmente é tentador, os animais são encantadores mesmo, e é difícil resistir, mas uma imagem não vale a vida, e sempre é bom lembrar que regras de segurança existem para serem respeitadas, e que o mar cobra caro de quem não o faz.

Tenho imagens que ficaram somente na memória, como o primeiro tubarão baleia que vi em Galápagos. Em função da forte correnteza não arrisquei a aproximação necessária para fazer a foto, inclusive porque a câmera proporciona um grande arrasto, dificultando ainda mais o deslocamento.

Você costuma realizar algum tipo de treino ?
Apesar de morar longe do mar, procuro mergulhar sempre que posso. A prática regular do mergulho é muito importante para manter as habilidades e controle da flutuabilidade, extremamente necessários para o bom desempenho na fotografia subaquática. O bom condicionamento físico é outro fator importante para a atividade. Pratico pilates, que também ajuda na questão do controle da respiração.

Que recomendação você daria aos leitores que desejam tirar boas fotos de mergulho ?
A recomendação primordial é: domine as habilidades do mergulho e tenha um bom controle da flutuabilidade, só depois caia na água com uma câmera na mão. Para que tenhamos as maravilhas do mar para fotografar é preciso preservar.

Cuidados como evitar contato com o substrato, minimizar a área de apoio, normalmente necessária para ancoragem nas fotos macro, apoiando de maneira consciente a fim de evitar danos aos organismos vivos, não tocar nos animais e evitar o stress dos mesmos são atitudes de respeito ao meio ambiente que devemos incentivar.

Tenha paciência, observe, espere que o animal aceite sua presença. Animais estressados não rendem boas fotos. Lembre que aquele é o ambiente dele, e é você o invasor.

Procure estudar e conhecer o que quer fotografar, e também não esqueça de uma parte muito importante: divirta-se !   O que se faz com prazer sempre traz melhor resultado.

Algumas imagens da fotógrafa:

Redação
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