Entrevista: Paulo Dias

 

De fato, o que ocorreu em 01/11/1997 em sua escola / operadora de mergulho, o CIMA ? Foi uma explosão ?
Na verdade o que ocorreu não foi uma explosão de cilindro, mas sim o desprendimento da torneira do cilindro durante uma recarga. Na ocasião, o deslocamento do ar liberado foi suficiente para destruir toda a oficina, abalar a estrutura do imóvel, causando inclusive, rachaduras na piscina que ficava na área externa da escola.

Torneira-DanificadaQual foi a origem principal deste acidente ?
A adulteração da rosca das torneiras. Os cilindros (duplos) eram de origem americana (rosca em polegadas) e as torneiras de origem Italiana (rosca em milímetros). Como não havia compatibilidade das roscas, foi decidido de forma irresponsável fazer um “passe na rosca” das torneiras, para se tentar uma adaptação. Cabe salientar que nem o proprietário do equipamento, que era novo (primeira carga) e nem o CIMA foram informados desta adulteração feita pelo vendedor dos cilindros que veio a resultar no acidente em nossas instalações.

Mas isto pode acontecer ?
Na época, estávamos iniciando as atividades de Mergulho Técnico no Brasil e havia uma grande procura de equipamentos voltados para esta atividade. Infelizmente, algumas pessoas que não atuavam como lojistas, conseguiam encomendar equipamentos diretamente dos fornecedores e com isso ofereciam aos clientes equipamentos com preços inferiores do que as lojas. Muitas vezes, a irresponsabilidade e ganância falavam mais alto do que qualquer medida de segurança para se conseguir concretizar uma venda.

O que foi apurado deste acontecimento ?
Apuramos que seis torneiras foram compradas na Itália para que fossem instaladas originalmente em cilindros também de origem européia, mas ao chegarem ao Brasil percebeu-se que a distância dos manifold’s não eram condizentes com os cilindros europeus (eram curtos). Para evitar um prejuízo devido as incompatibilidades entre equipamentos, decidiu-se tentar a conexão em cilindros de origem americana. Embora a distância fosse compatível, as roscas diferentes.

A partir daí, a decisão irresponsável de se fazer “gambiarra” (procedimento indevido) nas torneiras. O passe feito nas roscas fez com que houvesse perda de material e consequentemente o enfraquecimento das roscas. Quando os cilindros chegaram para a primeira carga (pois eram novos e sem uso), nada foi informado sobre a adulteração e a mesma se tornava imperceptível, pois as torneiras já vieram conectadas aos cilindros.

Posteriormente este procedimento indevido foi comprovado por algum tipo de perícia ?
Sim, através de laudo pericial emitido pela empresa TH Comércio e Serviços de Cilindros Ltda, fotos periciais, declaração do fabricante das torneiras e foi aberto um inquérito policial na 10ª Delegacia Policia no Rio de Janeiro com denúncia de Lesão Corporal.

O que aconteceu com os responsáveis pelo acidente ?
Nada. Inexplicavelmente o inquérito foi engavetado e ainda recebi ligações anônimas com ameaças para que eu parasse com as investigações. O CIMA, que na época despontava como uma das maiores escolas do Brasil, não teve apoio de ninguém. Todos se calaram, inclusive a imprensa, que não se interessou a publicar qualquer coisa sobre o assunto.

Vocês tentaram esclarecer o ocorrido ?
Na época a internet não era tão difundida como hoje e nossa única maneira de passar informações ao público ficou por conta de mala direta (via correspondência) e telefonemas individuais. Obviamente que isso não foi o suficiente para evitar o equívoco e comentários sobre o ocorrido de uma explosão em nosso sistema de recarga, de meu conhecimento, a única que oferecia recarga NITROX e TRIMIX no Brasil.

Que consequências negativas o CIMA veio a ter posteriormente ?
O CIMA sofreu um impacto negativo e irreversível que veio a culminar com o seu fechamento. Muitos que me conhecem pessoalmente, sabem o quanto lutei para evitar que isso viesse a ocorrer. Infelizmente uma tristeza sem fim, um sonho interrompido, um projeto de uma vida terminado pela ganância e irresponsabilidade de terceiros.

Os responsáveis pelos danos conseguiram fugir da Justiça dos Homens. Durmo todas as noites tranquilo, grato por ninguém ter se acidentado seriamente e com a certeza que ainda verei a Justiça Divina cobrar aos responsáveis seus débitos.

Ao que tudo indica, após 8 anos do ocorrido nesta entrevista, estes procedimentos continuam sendo realizados por pessoas irresponsáveis. Informações preliminares ao relatório do acidente ocorrido recentemente na Ilhabela, indicam que o mesmo ocorreu no equipamento da pessoa acidentada.

Resta à todos nós, buscar a concretização na elaboração do devido relatório, a ser assinado por empresa idônea, e sem ligações com os envolvidos, para descobrirmos os responsáveis pela adulteração (executor e idealizador).

Com todo o avanço que temos no mergulho, este tipo de prática, só pode demonstrar falta de ética e irresponsabilidade de alguns profissionais.  Não podemos deixar nossas vidas, e muito menos de pessoas queridas sob este risco !

Redação
Se você possui mais informações sobre o assunto acima, entre em contato com a nossa equipe e ajude a tornar este site ainda mais completo. Isso ajudará os mergulhadores e todos aqueles que estiverem buscando por mais informações.