Grupo de Mergulho: A importância de se ter um

Arte: Buster Lung

Ao longo do tempo realizei diversos mergulhos com os mais variados tipos de mergulhadores, sendo estes iniciantes ou experientes, e chego à conclusão da importância de se ter um dupla ou um grupo de mergulho devido à responsabilidade que um mergulhador deve ter para com o outro.

” Tem alguém precisando de um dupla ??? ”

Sem dúvida nenhuma, essa é uma das perguntas mais realizadas nas operações de mergulho recreacional normalmente ditas, pois sempre há alguém sem dupla para descer. Na minha opinião, é justamente nessa hora em que o “problema” se inicia, pois quem descer com este mergulhador não terá a mínima idéia da experiência que este novo dupla tem, bem como o seu consumo de ar e perfil como mergulhador.

Para quem já possui certa experiência, paga por uma saída de mergulho e já possui um dupla regular, é muito incômodo descer com um mergulhador desconhecido, pois nunca sabemos o que ele poderá aprontar embaixo d’água, e de certa forma, ficamos responsáveis por esta pessoa que irá descer conosco, quando o correto seria um profissional do mergulho (Dive Master) mergulhar com ele.

Mergulhar com pessoas já conhecidas ou um grupo de mergulho, nos traz mais tranquilidade, pois conhecemos a fundo o perfil de cada um, sinalização, treinamento e capacitação. Se não temos uma certeza, teremos pelo menos idéia do que cada um é capaz de realizar embaixo d’água.

Mergulhar com um desconhecido X Stress

Passei por algumas situações desagradáveis como muitos já passaram, sendo esta abaixo, uma situação em que sempre a utilizo como exemplo.

Em um belo final de semana em Angra dos Reis, resolvi sair em uma operação de uma determinada operadora, e ao chegarmos em cima do naufrágio Pinguino, todos começaram a se equipar.

Num determinado momento, um instrutor chegou até a mim e perguntou se eu poderia descer com um mergulhador com especialidade em naufrágio e etc, pois ele era de outro estado e tinha grande interesse em conhecer algumas partes do naufrágio sobre o qual estávamos e que os demais não iriam, devido à falta de especialização e experiência. Pensei e pensei, acabando por concordar, por ser um mergulho que a princípio parecia ser simples e sem muita técnica. Para aqueles que conhecem o Pinguino, sabem do que estou dizendo.

Caímos na água e descemos lentamente até realizar a entrada em um dos seus porões, passando a carretilha até uma pequena sala. Ao chegar nesta, percebi nitidamente que o então “dupla arrumado”, estava com os olhos arregalados e indicando fora de controle emocional, demonstrando claramente que estava em estado de stress. Provavelmente, por estar em uma área do naufrágio com teto e alguns metros à dentro, além da visibilidade reduzida.

Percebendo que a situação poderia se transformar em um grande problema, perguntei se estava tudo OK de forma bem tranquila e sinalizei para retornar, pois na minha cabeça, algo me dizia para retirar o sujeito daquele ambiente. O problema, é que ao sinalizar para retornar, foi como se eu acabasse de detonar uma bomba, pois este dupla com “treinamento avançado”, simplesmente deu meia volta como um doido, siltando todo o interior da sala com sua batida de pernas totalmente errada, resolveu puxar o cabo da carretilha !!!     Logicamente, ele conseguiu arrebentar o cabo de 2.5mm e nos deixar no meio de uma água siltada com visibilidade inferior a meio metro… praticamente 0 (zero) de visibilidade.

Situação: Ambiente com teto, menos de 1m de visibilidade, cabo arrebentando e um estressado em mãos.

Parei, pensei e tentando demonstrar tranquilidade, o puxei e sinalizei um OK. Pedi para que segurasse em minha perna e comecei a buscar a saída. Conhecendo bem o naufrágio, logo a encontrei e guiei a bomba em mãos até a saída mais próxima. Chegando a superfície, parei, pensei e ao invés de questioná-lo, acabei me questionei: Porque desci com ele ?

Infelizmente, acabei passando por uma situação desagradável para chegar a uma conclusão da importância de conhecermos as pessoas que descem conosco. Na situação acima, eu não deveria ter aceito mergulhar com esta pessoa ou não realizar a penetração ao interior do naufrágio, mesmo que para mim, fosse uma entrada tão simples como é.

Você achou um absurdo ?    Então continue lendo…

Pois bem, observe bem o caso de John Bennet. Mergulhador e instrutor de mergulho técnico em uma região do Oriente Médio. Batera no ano passado (2003), um recorde em mergulho autônomo profundo, onde alcançou marca dos -305m de profundidade. Ele simplesmente descia aos 90m a ar para se acostumar aos efeitos da narcose a grandes profundidades para o dia do recorde, pois tinha plena consciência de que teria passaria por este efeito.

Este ano (2004) em uma operação de resgate de peças em um naufrágio aos 45m de profundidade, com água aos 9ºC e fortes correntes, John Bennet simplesmente sumiu durante o mergulho.

Segundo seu dupla, durante o mergulho ele percebera que John estava apresentando sinais anormais e quando questionado, ele confirmou que não estava se sentindo bem. No mesmo instante, este dupla chamou o mergulho (pediu para subir imediatamente) preocupado com John.

Até então tudo OK, se não ele não se virasse e seguisse o cabo para depois subir e realizar as paradas descompressivas acreditando que John Bennet estaria logo atrás. Por algum motivo e que nunca saberemos, John não estava atrás e desapareceu. Equipes de resgate ainda chegaram a descer na tentativa de encontrar John e até hoje o corpo não fora encontrado.

Algumas conclusões

Precisamos saber com quem estamos mergulhando, conhecer o perfil do dupla, seu grau de conhecimento e técnica. Um dupla nunca abandona o outro, mesmo que fale apenas 1min para finalizar uma descompressão. Um bom dupla, também sabe que pode errar e se for o caso, deve assumir o erro. Na minha opinião, uma das piores coisas que um mergulhador pode ter, é a “mania” de esconder erros ou até mesmo, não assumir um. Todos erram, inclusive, os “grandes” mergulhadores. E infelizmente com erros aprendemos e ensinamos aos demais.

Um bom grupo de mergulho se reúne para troca de informações, experiências e avaliação de novas técnicas, buscam também por novas informações e tem idéia da experiência de cada membro do grupo. Tenha em mente que um dia, sua vida poderá estar nas mãos do seu dupla ou de um dos integrantes de seu grupo.

Lembre-se que ninguém é melhor do que ninguém e certificações nem sempre podem garantir que um determinado mergulhador saiba mergulhar bem na especialidade especificada ou em mergulhos mais complexos. Desça sempre com alguém que você já conheça e tenha confiança, mas acima de tudo, humildade entre você e o grupo.

Clecio Mayrink

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount).

Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008, idealizador do site Brasil Mergulho em 1998 (MTB 0081769/SP) e atuou como consultor para a ONU, UNESCO, Segurança Pública, além de diversos órgãos públicos no Brasil.