Kit para acionamento de resgate

Foto: Clécio Mayrink

De uns tempos para cá, presenciei alguns relatos de afundamentos de embarcações de mergulho pelo mundo, onde os passageiros ficaram por longas horas à deriva aguardando o resgate. Isso ocorreu, porque a equipe da operadora em terra não havia tomado conhecimento sobre o incidente, e só acionaram o resgate marítimo, ao perceberem que a embarcação estava demorando muito para regressar e não respondia aos chamados por rádio e telefone.

Em quase 100% dos casos, o afundamento da embarcação foi tão rápido, que a tripulação não teve tempo hábil para pegar o rádio e chamar por socorro.

Quando saímos nas operações, normalmente os mergulhadores vão para o ponto de mergulho despreocupados quanto às condições da embarcação e do mar. Em teoria, pagamos para ter esse tipo de serviço e a devida segurança, mas na prática, devemos (ou deveríamos) ser precavidos, e também fazer a nossa parte em prol da segurança de todos, não apostando que a equipe da operadora de mergulho seja 100% capaz de resolver todos os problemas.

Infelizmente as variáveis são muitas e em alguns casos, podem aparecer circunstâncias que podem atrapalhar todo o planejamento.

Naufrágios de pequenas embarcações, como é o caso das embarcações normalmente usadas pelos mergulhadores, acabam ocorrendo muito rapidamente, não dando tempo de salvar nada, muito menos, correr atrás de um celular para tentar acionar um resgate, por exemplo. Estamos acostumados a deixar nossos telefones móveis dentro de bolsas secas em áreas fechadas das embarcações, e numa hora de correria e desespero, ninguém alcança essas bolsas para pegar seu telefone.

Lembro de uns amigos que alugaram uma embarcação na Flórida, Estados Unidos, e saíram pra mergulhar. Enquanto estavam se equipando acima do ponto de mergulho, o barco repentinamente começou a afundar de popa devido a uma falha no comando do leme, e em questão de segundos, tudo foi para o fundo. Por sorte, passavam várias embarcações pelo local e conseguiram ser resgatados rapidamente.

Algum tempo atrás ocorreu um naufrágio similar em Recife com uma operadora de mergulho, e em 2015, com outro grupo de mergulhadores no sul do país.

Felizmente em todos os casos, nenhuma morte.

Kit-Resgate-Socorro2Após esses incidentes, passei a procurar uma forma de tentar amenizar o problema, pois já imaginou ficar aguardando por resgate em uma água fria ?   A partir daí, criei meu “kit resgate”, que pode não ser o mundo ideal, mas de uma forma ou de outra, pode ajudar numa situação de risco, como foram os casos citados.

Basicamente quando falamos em naufrágio, a primeira coisa a ser feita é a flutuação de todos, e em seguida, o acionamento do resgate. No caso da flutuação, isso pode ser resolvido facilmente usando as roupas de neoprene. No caso do acionamento do resgate, pode ser feito usando um Rádio VHF ou, havendo um sinal de telefonia celular, acionar o resgate simplesmente ligando para a polícia ou bombeiros usando o telefone móvel, por exemplo.

No caso do rádio, muitos mergulhadores já andam usando o Nautilus Lifeline nos mergulhos, e passa a ser também uma opção. Uma vantagem desse rádio é a possibilidade quanto ao uso do sistema MMSI, onde é possível disparar um sinal de emergência solicitando socorro imediato, para que as embarcações que possuam rádios com essa função e que estejam nas proximidades, possam receber o sinal MMSI, tomando conhecimento da sua posição (Long / Lat) de quem está clamando por socorro.

Uma segunda opção de rádio é adquirir um rádio VHF portátil (HT), de preferência, à prova d´água. Um rádio desses custa em média U$ 60 nos Estados Unidos. Se você quer uma coisa mais em conta, é possível adquirir alguns rádios Made in China do tipo multi-frequência (VHF – UHF) como os da Baofeng, custando pouco menos de R$ 150 em sites como Mercado Livre no Brasil, bastando apenas, cadastrar as frequências usadas pelos rádios marítimos.

No caso do telefone celular, ele pode ser levado dentro de uma caixa Pelican, que além de extremamente baratas e resistentes, elas flutuam e protegem o telefone.

Pra finalizar, a adição de um Safety Sausage, também conhecido como “Salsichão”, para ajudar na sinalização visual.

Como disse, um kit desses não é a solução e o “melhor dos mundos”, mas certamente, pode contribui muito numa situação de risco e não prevista.

Lembre-se que segurança a mais nunca é demais.

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount). É juiz internacional de apneia pela AIDA e foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008. Produziu documentários sobre as Bahamas, Bonaire, Galápagos e Laje de Santos, visitando mais de 30 países. Foi o idealizador do site Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP), atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.