Com águas claras de um azul belíssimo devido à sua formação vulcânica, a República das Maldivas é composta por 26 atóis formados por mais de mil ilhas de coral, um arquipélago no oceano Índico, sendo visitada por muitos casais em lua de mel, além de destino sonhado por muitos mergulhadores.

A decisão de viajar para este local paradisíaco surgiu de uma oportunidade oferecida por uma amiga que procurava juntar um grupo para acompanhá-la nesta jornada – desde a decisão até a viagem passou-se mais de um ano de preparativos. Embarcamos, então, doze amigos nesta aventura.

Chegando nas Maldivas

O live aboard escolhido, o Carpe Novo da empresa Carpe Diem Maldives, é um barco de 42m de comprimento e 11m de largura, cujas operações se iniciaram em 2016, com doze cabines distribuídas ao longo de três andares, além do deck de sol, contando com um barco de apoio para mergulho (chamado de dhoni pelos maldivos). A contratação foi feita pelo grupo diretamente com a operadora.

Optei por chegar alguns dias antes e conhecer a ilha de Gan no atol Laamu, onde pude fazer snorkelling em pontos com riquíssima vida, vendo cardumes de peixes variados, polvos, ostras gigantes, com direito até mesmo a uma raia manta avistada por um amigo. No grande dia de embarque no live aboard, fomos nos encontrar com o restante do grupo que chegava em Gan naquele dia. Partimos, assim, em direção a Malé, que ficava mais ao norte, seguindo o roteiro pelos atóis Laamu, Thaa, Meemu e Vaavu. Além de nós doze “brasileiros” (em nosso grupo de amigos, estavam também uma portuguesa e um coreano), havia mergulhadores de nacionalidades australiana, norte americana, austríaca e alemã, em um total de 21 passageiros.

Live aboard Carpe Novo da Carpe Diem Maldives – Foto: Viviane Kunisawa

Hukum thila

O primeiro dia de mergulhos teve início com o briefing bem cedo pela manhã, acompanhado de um desenho esquematizando o ponto onde seria feito o nosso check dive, o pináculo Hukum thila. Todos os briefings traziam estes esquemas. O Hukum thila é uma formação com corais negros e muitos peixes palhaço abrigados em anêmonas, aliás, estes peixes estiveram presentes em quase todos – ou mesmo todos – os mergulhos, fazendo a nossa alegria. Este pináculo foi um dos poucos pontos em que mergulhamos sem correnteza, tendo chegado a quase 30m de profundidade.

O mergulho seguinte já ocorreu em um canal ou kandu, em Dhivehi, a língua local. Nestes mergulhos em canal, o vão entre duas ilhas do atol, eram uma novidade para a maior parte do nosso grupo, inclusive para mim, e sendo bem desafiadores. Requerem calma e habilidade para, uma vez submerso em torno de 20 a 25m de profundidade, atravessar correntezas oceânicas que correm ao longo da parede de corais até se chegar ao ponto planejado, sem ser arrastado pela correnteza que entra ou sai do canal.

Reef Hook – Foto: Viviane Kunisawa

O ponto auge dos mergulhos em canal, em geral, era um “corner”, uma esquina formada por uma parede de corais ao longo da ilha e sua continuidade para dentro do canal.

A fim de não sermos arrastados pela correnteza do canal, utilizávamos um “reef hook”, um gancho que nos prendia a uma parte do coral para podermos observar os animais pelágicos nos corners ou pontos desejados, sem fazer maior esforço contra as fortes correntezas, nem sermos por elas inadvertidamente levados. Uma vez presos pelo gancho, podíamos observar com as mãos praticamente livres os cardumes de raias, tubarões e peixes que passavam à nossa frente, limitados apenas pela a quantidade de ar ou tempo de fundo marcado no computador pessoal.

Atol de Laamu

Nosso primeiro mergulho em canal, segundo daquele dia, foi em Maabaidhoo kandu, no atol Laamu, onde cheguei a uma profundidade máxima de 27m e fomos agraciados com a passagem de um cardume de cerca de 17 raias chita e dois tubarões cinza de recife. No ponto seguinte, o Mundu kandu, pudemos observar vários cardumes, peixe Napoleão e tartarugas em uma profundidade média de 20m. Ao término do dia, estava animada com os desafios que este primeiro dia tinha mostrado, cheia de expectativas para a semana que ainda me aguardava.

As fortes correntezas do dia anterior não nos prepararam para o susto no primeiro mergulho do dia seguinte, em Munna kandu, que tivemos que abortar, após alguns mergulhadores do grupo serem levados por uma insurgência. Recuperados do sobressalto, alguns de nós não fizeram o segundo mergulho, enquanto outra parte do grupo mergulhou no Dhiyamigili corner, no atol Thaa, com correnteza moderada ao abrigo de um corner, a cerca de 18m de profundidade, onde pude ver tartarugas, peixe Napoleão e vários cardumes, além de tubarões cinza de recife avistados de longe.

Compensando a tensão do início do dia, o terceiro foi feito tranquilamente, atravessando uma correnteza leve e tendo chegado a 25m de profundidade, em Fahala giri, um pináculo repleto de vida macro, com nudibrânquios, pequenos camarões e lagostas, além de vários peixes palhaço abrigados em anêmonas roxas.

Tubarão Baleia durante o noturno – Foto: Viviane Kunisawa

O momento mais esperado daquele dia ocorreu à noite, o encontro com um tubarão baleia. Ao anoitecer, uma luz localizada na popa do Carpe Novo foi acesa para atrair plânctons e, consequentemente, o tubarão baleia. E ele não decepcionou.

Por volta de meia noite, quando alguns já tinham se recolhido, ouvimos o sino tocar, avisando que um tubarão baleia estava se alimentando ao redor do barco. Era um animal juvenil, de cerca de quatro a cinco metros de comprimento. Passamos a observá-lo, todos maravilhados. Após algum tempo, pudemos entrar na água para fazer snorkelling e observá-lo de perto, sempre tomando o cuidado de não tocá-lo, nem espantá-lo ao aproximar rápido e perto demais.

Fomos dormir todos empolgados, com a experiência encantadora de ver um tubarão baleia, e ainda mais ansiosos com a perspectiva de mergulharmos com raias manta no dia seguinte

Atol de Thaa

Aquele terceiro dia teve seu início em Olhugiri kandu, ainda no atol Thaa. Este mergulho foi descrito muito bem por um amigo como o “mergulho Kinoplex”, em que colocávamos o gancho na parede de corais a cerca de 21m de profundidade e a rica vida pelágica das Maldivas passava à nossa frente como em uma tela de cinema, com direito a tubarões de recife, raias chita, mero e garoupas enormes.

Foto: Viviane Kunisawa

Atol de Meemu

Passamos, então, a navegar em direção ao atol Meemu para o mergulho pelo qual eu mais esperava, meu primeiro mergulho com raias manta. Ao chegarmos em Kureli kandu, onde há uma estação de limpeza de raias manta, avistamos vários live aboards ancorados ao nosso redor, o que me levou a perguntar se de fato elas estariam lá, mesmo com tantos mergulhadores, ao que o guia respondeu “fique tranquila, as mantas estarão lá”. E estavam!

Foi um mergulho encantador, no qual cerca de seis ou oito mantas (houve divergência no grupo a respeito de quantas eram) se revezavam entre sua limpeza e a interação conosco, passando em rasante por nossas cabeças para sentir as bolhas de ar que soltávamos ao respirar. As mantas foram um show à parte em um local por si maravilhoso, com profundidade máxima de 15m, com moreias, tartarugas, peixes palhaço e peixes leão, que pudemos observar em um outro mergulho feito naquele mesmo ponto (o local de mergulho seria outro, mas atendendo ao pedido de todos, repetiu-se o ponto). Nesta segunda ocasião, avistamos somente duas mantas.

Ainda mergulhamos, no dia seguinte, mais duas vezes no atol Meemu, em Boahura kandu e Gaahura kandu, ambos com correnteza forte, chegando a uma profundidade máxima de 30 e 26m, respectivamente, em que avistamos tubarões cinza de recife, sendo que, ao final do primeiro, na parada de segurança, vimos um peixe vela (sailfish), e nosso guia ficou mais empolgado que nós com este peixe tão raro de ser avistado. O último mergulho daquele dia já foi no atol Vaavu, o último de nosso roteiro, em Rakeedhoo corner, um recife com “corais mesa” (table coral, um tipo de Acropora), peixes variados abrigados entre os corais, polvos e moreias em uma média de 14m de profundidade.

Fohtheyo kandu

Iniciamos o quinto dia em Fohtheyo kandu a cerca de 25m de profundidade, em busca de tubarões martelo, que, infelizmente, não avistamos. Mas, ao final, duas raias chita passaram fechando o mergulho. O ponto seguinte foi o Golden Wall, um paredão colorido por corais mole e peixes dourados (por isso o nome) com muitíssima vida e, novamente, os tubarões de recife estavam presentes.

Foi um mergulho em drift aos 23m, em que pudemos relaxar e deixar a correnteza nos levar à medida em que observávamos o que a natureza subaquática nos revelava. Nosso êxtase diante do Golden Wall foi tamanho que pedimos para continuar no local para fazer snorkelling e não nos arrependemos, pois fomos agraciados com a presença de filhote de tubarão, moreia e tartaruga.

Naquela tarde, ainda ganhamos um prêmio da tripulação, nos levaram para passar algumas horas em uma ilha paradisíaca, formada por um banco de areia rodeado de um mar azul turquesa. “Nossa” ilha propiciou aquele típico cenário que pertence ao nosso imaginário quando pensamos nas Maldivas, inclusive, com um pequeno filhote de tubarão bem próximo à praia; e enquanto alguns faziam snorkelling, outros apenas descansaram, tomando um banho de mar.

Foto: Viviane Kunisawa

Alimatha Jetty

O terceiro mergulho daquele dia foi noturno em Alimatha Jetty, ponto em frente a um grande resort, conhecido por alimentar os peixes e que, por isso, proporcionou um show de tubarões lixa, raias prego e peixes enormes que, de tão acostumados com mergulhadores, nadavam encostando em nós, praticamente empurrando-nos.

Havia também muitas outras pessoas de outros barcos, e formavam-se vários círculos com os mergulhadores ajoelhados no chão a 13m, para que, atraídos pelas luzes das lanternas, os tubarões lixa e raias prego nadassem no meio. Em meio a este espetáculo quase circense, alguns tubarões de recife passavam despercebidos.

Alimatha kandu

Nosso último dia de mergulhos teve início no ponto Alimatha kandu, onde vimos alguns tubarões cinza de recife em uma média de 25m de profundidade, e fechou com chave de ouro em Miyaru kandu (Miyaru em dhivehi significa tubarão), carinhosamente chamado pelo nosso grupo de “Avenida Paulista dos tubarões”, de tantos tubarões de recife – cinza, galha branca e galha preta – que nadavam pelo ponto.

Um dos guias chegou a contar cerca de 100 tubarões, mas considerou a possibilidade de serem cerca de 40 que passaram mais de uma vez. Observamos os tubarões a cerca de 31m de profundidade até que o tempo de fundo de um dos mergulhadores chegou a cinco minutos do limite, quando nos “desenganchamos” e nos deixamos levar pela correnteza para dentro do canal, quando uma raia prego enorme apareceu para nadar conosco, coroando o final de uma série de mergulhos fantásticos.

As Maldivas revelaram uma quantidade de vida variada e abundante, com visibilidade média de 25 a 30m e águas com temperatura de 28oC nesta primeira semana de fevereiro. Apesar das dificuldades por conta das fortes correntezas, foram mergulhos memoráveis em um live aboard maravilhoso – com uma infraestrutura luxuosa, comida saborosa e tripulação prestativa e simpática – juntamente com uma turma pra lá de bacana. Este registro deixo aqui como uma forma de relembrar esta viagem inesquecível.

Dicas

Em se tratando de férias e diante do longo trajeto entre o Brasil e as Maldivas, sugiro chegar alguns dias antes do embarque no live aboard para descansar e desfrutar um pouco deste país com praias paradisíacas.

Devido à quantidade média de três mergulhos por dia, num total de 17 mergulhos ao longo da semana, optei por fazê-los com Nitrox. Tendo em vista as fortes correntezas e profundidade, é recomendável certa experiência antes de embarcar em uma aventura de mergulhos em canal nas Maldivas. Inclusive, como medida de segurança, cada um devia ter seu próprio computador de mergulho para monitorar o tempo de limite não descompressivo (caso não tivesse, era necessário alugar) e cada dupla devia ter consigo um marcador / sinalizador de superfície, deco marker, sendo que saber soltá-los foi requerido ao grupo pelos guias.

Caso queira mergulhos mais calmos, certamente oferecidos pelas operadoras, sugiro pesquisar os roteiros oferecidos com antecedência, indagando a respeito da intensidade das correntezas existentes, sempre lembrando que, a depender da época do ano, os mergulhos nas Maldivas também podem ser influenciados pelas monções.

Colaboração: Francisco Wu e Shislaine Zaidan

Foto: Viviane Kunisawa

Por:

Viviane Kunisawa

Viviane Kunisawa é advogada e mergulhadora avançada com especialização em Naufrágio, Deep e Drift Dive, Nitrox, PPB, tendo treinamento em EFR e certificada como Self Reliant Diver.

Apaixonou-se pelo mergulho em 2016, quando fez o curso básico, e mergulhou em diversos destinos como Fernando de Noronha, Recife, Salvador, Laje de Santos, Cozumel, Baja Califoria Sur (Los Cabos e La Paz), Maldivas e Austrália.