Mergulhando no Mar de Cortez: Los Cabos e La Paz

Foto: Viviane Kunisawa

Menos badalado que a costa caribenha, que contam com a fama de Cancun, Cozumel e Playa del Carmen, o Mar de Cortez (ou Golfo da California) no México revelou seu charme para mim de uma maneira inusitada. Após uma semana de mergulhos em Cozumel ganhei uma nova passagem para aquele país devido a overbooking.

Comentando com amigos sobre o que ocorrera, dois deles, em ocasiões diferentes, sugeriram que eu conhecesse a Baja California Sur (estado mexicano na ponta da península da Baja California), onde eu poderia mergulhar com leões marinhos, algo que sequer havia passado pela minha cabeça até então. Conversei com uma amiga que topou a aventura e começamos a pesquisar sobre este local, seus pontos de mergulho e operadoras. Por se tratar de um destino ainda pouco visitado por mergulhadores brasileiros, a maior parte das informações e planejamento da viagem baseou-se em pesquisa em sites estrangeiros.

Após receber algumas perguntas e pedidos de dicas, decidi escrever este texto, ainda que tenham se passado alguns meses desde a viagem em outubro passado, pois este é um local que vale muito ser visitado. Citando Jacques Cousteau, mergulhar no Mar de Cortez é mergulhar no “Aquário do Mundo”.

Los Cabos

Cabo San Lucas e San Jose del Cabo formam a região apelidada de Los Cabos, localizada bem na ponta sul da península, sendo polo turístico mexicano na costa do Pacífico, atraindo muitos norte-americanos que buscam águas quentes e férias em grandes resorts. Alguns mergulhadores conhecem Cabo San Lucas, por se tratar da cidade de onde saem live aboards para Revillagigedo, famoso arquipélago mexicano com riquíssima vida pelágica. A tríade é completada por Cabo Pulmo, parque nacional marítimo, localizado 100Km ao norte de Cabo San Lucas.

Contratamos diretamente a operadora Manta em Cabo San Lucas, onde ficamos hospedadas. Para podermos mergulhar em Cabo Pulmo, a operadora solicitou que fizéssemos antes dois mergulhos em pontos locais. Assim, decidimos fechar quatro dias no total para conhecer o que a região de Los Cabos tinha a nos oferecer.

Mergulhamos em dois pontos na reserva marinha local: Pelican Rock e Land’s End. Já na navegação através do porto, em direção a estes pontos, podíamos avistar leões marinhos tomando sol no píer e “pegando carona” em barcos que atravessavam a baía. Achando graça, ainda não podia imaginar o quanto estes animais seriam marcantes ao longo da viagem.

No Pelican Rock, onde cheguei a mais de 20m de profundidade, pude ver uma “avalanche” de areia ao longo de uma ladeira que se estendia ainda mais para o fundo e, em uma parte mais rasa, dois tubarões de galha branca dormiam sem se incomodar com os mergulhadores que passavam. O mergulho noturno foi feito neste mesmo ponto, repleto de pepinos do mar se movendo, um tanto irrequietos (talvez devido à lua cheia) e tartarugas.

Ao nos aproximarmos de Land’s End, podíamos ver vários leões marinhos tomando sol sobre pedras e estava ansiosa pela expectativa de poder mergulhar com eles. O que era uma expectativa, tornou-se uma realidade. Além de ver de perto um leão marinho que parou de nadar para nos observar com curiosidade, ao final do mergulho, uma grande família, com cerca de 15 animais, passou em nossa volta. Em cavernas existentes nas formações rochosas, também pudemos ver lagostas e moreias.

Este ponto revelou ser desafiador: quando passávamos em uma passagem entre duas rochas que se erguiam para cima da superfície, havia um forte refluxo que nos jogava no sentido contrário ao qual nos direcionávamos ou mesmo para cima das pedras cobertas por mexilhões – às vezes, éramos obrigados a nos “agarrar” na areia para não sermos arrastados pela força da água. Nesta passagem, vimos vários baiacus, que pareciam lutar nadando contra o refluxo como nós e, ao final dela, para o lado de fora da baía, podíamos mergulhar no naufrágio Nürnberg, a cerca de 12m de profundidade, que passou anos coberto por areia até o furacão Odile o “descobrir” em 2014. No entorno do naufrágio, pude ver tartarugas, baiacus arara, marias da toca, linguados, além de cardumes de cirurgiões de rabo amarelo, com presença marcante em todo o Mar de Cortez.

Em segundo mergulho em Land’s End, durante a passagem pela fenda, vários leões marinhos cruzaram nosso caminho e o nosso guia decidiu imitá-los, nadando em círculos, ao que eles respondiam com piruetas ainda mais rápidas.

Os mergulhos no Corredor entre Cabo San Lucas e San Jose del Cabo foram feitos nos pontos Chileno e Cabeza Ballena (Whale’s Head), ambos em uma profundidade média de 10m, repletos de corais, sendo que avistei no segundo raia chita, moreias e um enorme baiacu arara que disputava o foco da minha lente com uma raia manteiga. Um acontecimento interessante foi recolhermos, durante o mergulho, bolinhas de golfe que encontramos no mar, provavelmente levadas dos resorts pela tempestade tropical Lidia que assolara a região um mês antes da nossa viagem.

Além dos mergulhos, a operadora incluiu em nosso roteiro um passeio de barco na região, passando em frente à Praia do Amor, ao famoso Arco (cartão postal do local) e contornando o fim da baía até entrar no início do Oceano Pacífico.

A visibilidade da água nos pontos de mergulho na reserva marinha local em Cabo San Lucas e no Corredor variaram entre 10m e 15m. Esta é considerada uma visibilidade baixa para a região, mas esperada tendo em vista a tempestade tropical Lidia.

Foto: Viviane Kunisawa

Cabo Pulmo

A viagem para Cabo Pulmo teve início bem cedo pela manhã, quando pegamos a van na operadora, e percorremos por cerca de uma hora e meia um vale de montanhas no deserto da Baja California Sur. Cabo Pulmo é um vilarejo antes dedicado à pesca cujas águas abrigam um enorme recife de corais e que, desde 2005, é considerado Patrimônio Mundial pela UNESCO.

Nada do que havia lido em blogs de mergulho, me preparou para os encantos de Cabo Pulmo. Foram dois mergulhos de 50 minutos (as regras locais limitam o tempo dos mergulhos), nos pontos Los Morros e El Bajo, em uma profundidade máxima de 17m e mais de 40m de visibilidade. São águas cristalinas com riquíssima vida. Assim que caímos na água em Los Morros, um cardume gigantesco de xaréus (jack fish) veio ao nosso encontro. Foi deslumbrante ser cercado por tamanha quantidade de peixes. Eram tantos que, se ficássemos embaixo do cardume, parecia que mergulhávamos no lusco-fusco com o sol se pondo. Seguimos sendo presenteados por moreias fora de tocas, polvos, grandes garoupas, peixes papagaio, cardumes de salemas e outros peixes multicoloridos. Várias raias prego bailavam se exibindo ao nosso redor. A sensação de mergulhar com uma garoupa dourada ao meu lado foi indescritível.

Fui solicitada com antecedência pela operadora a informar se levaria câmera para fotografia e filmagem. De acordo com as regras locais, as operadoras precisam informar às autoridades os modelos das câmeras que os mergulhadores carregam e, eventualmente, pagar uma taxa adicional por seu uso – na ocasião, não paguei. O guia também solicitou que os flashes e lanternas não fossem utilizados durante o mergulho.

Gordo Banks

Os últimos mergulhos em Los Cabos foram em Gordo Banks, uma montanha submersa a quase uma hora e meia de navegação do porto de Cabo San Lucas e um conhecido ponto de pesca, por serem lá encontrados cardumes de xaréus e atuns. Por conta destes peixes, cardumes de tubarão martelo também são avistados. E nossa busca por estes tubarões foi bem sucedida! Inicialmente, descemos a quase 40m de profundidade e vimos corais negros no topo da montanha. Em seguida, subimos a cerca de 30m, quando os avistamos. Era um cardume enorme, possivelmente com quase 100 tubarões martelo, que nadavam em círculos caçando atuns.

A temperatura da água estava em torno de 29oC na maior parte dos pontos, exceto em Gordo Banks, onde chegou a 26oC, tendo em vista a maior profundidade.

Em conversa com os guias, soube que não há muitos brasileiros mergulhando em Los Cabos. Para eles, chegava a ser surpreendente a proximidade do português e do espanhol.

Foto: Viviane Kunisawa

La Paz

De Cabo San Lucas, pegamos a estrada para La Paz que margeia a costa, sendo presenteadas com uma paisagem desértica belíssima, cheia de cactos, alguns bem próximos ao mar. A maior parte dos pontos de mergulho em La Paz estão ao redor da Ilha Espírito Santo e requerem cerca de uma hora e meia de navegação – ao longo da qual víamos ocasionalmente golfinhos – partindo-se de um píer da área central do Malecon, a avenida ao longo da orla da cidade.

Sem dúvida, Los Islotes, onde fica a colônia de leões marinhos, foi a estrela dos nossos mergulhos em La Paz. Se já estava empolgada com as interações que tivemos com eles em Cabo San Lucas, nada se comparou ao que este lugar nos proporcionou. Alegres e curiosos, os filhotes de leão marinho vinham brincar, mordiscando as mãos dos mergulhadores e pedindo carinho, como fazemos com filhotes de cachorros. Dois deles “abraçaram” o nosso guia. De vez em quando, alguma fêmea adulta se aproximava para garantir que os filhotes estivessem seguros, enquanto os machos olhavam de longe. E, como a profundidade não era grande – a cerca de 7m na maior parte do tempo – ficávamos despreocupados com o consumo de ar e relaxávamos.

Confesso que não brincava muito com os leões marinhos e observava mais os outros mergulhadores, tirando fotos. Insatisfeito por eu “ignorá-lo”, um filhote veio morder e puxar a minha nadadeira, chamando minha atenção para interagir com ele. Como resistir a este pedido ?

A visibilidade em Los Islotes era de cerca de 30m – enquanto brincávamos com os leões marinhos, podíamos avistar garoupas passeando ao fundo.

Contratamos diretamente a operadora Dive in La Paz para mergulhos ao longo de uma semana, sendo que repetimos os mergulhos em Los Islotes. Como a interação com os leões marinhos foi algo mágico, não tivemos o que reclamar, além de termos feito perfis diferentes em duas das cinco vezes em que mergulhamos lá. Em uma das ocasiões, passamos por baixo da fenda que se abre na formação rochosa deste ponto. Todavia, caso esteja pensando em um período mais curto de estadia, acredito que cinco dias sejam suficientes para conhecer a maior parte dos locais de mergulho em La Paz.

Além de Los Islotes, é possível avistar leões marinhos nadando em toda a baía, e uma colônia menor é também encontrada em San Rafaelito. Com uma visibilidade de cerca de 5m a 10m, neste local, os leões marinhos nadam e brincam em cima de um recife de corais.

Foto: Viviane Kunisawa

Para chegar em La Reina, uma formação rochosa semelhante a um canyon submerso, fizemos uma hora e meia de navegação em um mar bem ondulado e, uma vez submersos, tivemos que atravessar uma corrente bem forte para passar de um lado para outro da rocha. Mas nosso esforço foi recompensado. Cardumes de peixes multicoloridos, como peixes borboleta, nos esperavam para posar e tirar fotos ao seu lado.

Mergulhamos em três naufrágios da região. O naufrágio Fang Ming é um navio que o governo mexicano afundou para se tornar um recife artificial, sendo preparado para mergulho, encontra-se a 22m de profundidade e em bom estado de conservação. Além deste, pudemos penetrar, fazendo um mergulho multinível, no C59 a cerca de 21m de profundidade.

Este naufrágio também foi afundado para se tornar um recife artificial e encontra-se adernado. Por sua vez, mergulhar no naufrágio Salvatierra, que está em estágio avançado de degradação, requereu calma para estar sob uma correnteza forte a cerca de 15m de profundidade e, ao mesmo tempo, foi encantador, diante da quantidade de peixes vistos, além de um polvo fora da toca em pleno dia!

Em El Bajito, um recife de corais em uma profundidade média de 10m a 15m, contando com muita vida e um paredão de pedras coberto por corais sol, vi moreias verdes “escondidas” ao longo de fendas em um número incontável. Mergulhamos também em Isla Balenna, Swanee Reef e em El Bajo. Neste último, que consiste numa cadeia de três montanhas submersas, fomos em busca de tubarões martelo, mas não tivemos sucesso.

A temperatura da água na maior parte dos pontos era de 29oC, exceto em El Bajo que estava 27oC.

Ainda, ganhamos um brinde especial que não esperávamos quando planejamos a viagem: fizemos snorkelling com um tubarão baleia juvenil de cerca de 4m de comprimento! Ele estava se alimentando na baía em frente à praia principal da cidade de La Paz, enquanto caíamos na água para observá-lo e nadar juntos, todos maravilhados.

Foto: Viviane Kunisawa

Dicas

A alta temporada de mergulhos ocorre entre setembro e novembro, sendo que neste, por ser mais próximo do inverno, espera-se que as águas já estejam mais geladas. A partir de dezembro a visibilidade também cai. É preciso considerar, todavia, que esta é também a temporada de furacões e tempestades tropicais.

Quando marquei a viagem, não tinha visibilidade deste risco (acabamos recebendo no Brasil mais informações sobre os furacões que se formam no Caribe e nem tanto no Oceano Pacífico) e, cerca de um mês antes da minha chegada a Los Cabos,no final de agosto, a tempestade tropical Lidia atingira a região causando grande destruição – além do furacão Norma que passou perto, não chegando a atingir nenhuma cidade, mas que certamente sacudiu os mares.

Embora um amigo que nos acompanharia tenha desistido por conta disto, minha amiga e eu decidimos seguir com a viagem como planejada e não nos arrependemos, mas contatávamos frequentemente tanto as operadoras em Cabo San Lucas e La Paz, sendo ambas muito prestativas, nos fornecendo atualizações sobre a reconstrução de estradas e recuperação da região. Aliás, fiquei impressionada com a capacidade de os moradores de Los Cabos, que fora mais devastada, se mobilizarem e reerguerem vias e casas em curtíssimo tempo, para que o turismo, principal fonte econômica do local, não fosse muito mais impactado.

Reservamos nossa hospedagem em ambas as cidades através do site AirBnB, o que acabou saindo mais em conta do que reservar um hotel, com a praticidade de termos um apartamento e uma casa com bastante espaço para lavarmos nossas roupas e equipamentos.

A região conta com dois aeroportos, um em San Jose del Cabo e outro em La Paz. Em San Jose del Cabo, é possível pegar uma van que faz o traslado entre o aeroporto e Cabo San Lucas por um preço menor que o de um táxi, deixando os passageiros nos respectivos hotéis e locais de hospedagem. Dependendo da disponibilidade e preço dos voos, vale a pena verificar a conveniência de ambos, de acordo com o planejamento da viagem.

Alugamos um carro para nos locomovermos pela região, pois já havíamos pesquisado que o traslado entre Cabo San Lucas e La Paz não era tão frequente, o que se mostrou uma decisão sábia. Embora pudéssemos ver alguns táxis circulando pelas cidades, a locomoção através de transporte público não pareceu ser fácil e prática. A estrada entre Cabo San Lucas e La Paz é bem pavimentada no geral, mas a saída de ambas as cidades pode ser confusa e o asfalto não é tão bom. O trajeto dura cerca de duas horas e meia a três horas, sujeito a um trânsito maior dependendo do horário.

Ambas as operadoras Manta e Dive in La Paz foram muito solícitas em toda a comunicação durante os preparativos e organização da viagem, sendo bem profissionais. Em Los Cabos, dirigíamos até a operadora e utilizávamos o estacionamento – pago adicionalmente – da própria marina; em La Paz, contávamos com o traslado oferecido pela própria operadora, já incluído no pacote de mergulhos.

Colaboração: Shislaine Zaidan e Ricardo Pierro

Cardume em Cabo Pulmo – Foto: Viviane Kunisawa
Viviane Kunisawa
Viviane Kunisawa é advogada e mergulhadora avançada com especialização em Naufrágio, Drift Dive, Nitrox, PPB e EFR. Apaixonou-se pelo mergulho em 2016, quando fez o curso básico, e mergulhou em diversos destinos como Fernando de Noronha, Recife, Salvador, Laje de Santos, Cozumel, Baja Califoria Sur (Los Cabos e La Paz) e Maldivas.