Mergulho técnico na Pedra do Badejo e Galeão Sacramento com rebreathers

Foto: Bruno Fagundes

Mergulhos técnicos na Pedra do Badejo e Galeão Sacramento com rebreathers de circuito fechado e CCR Innerspace Systems Megalodon

Ficamos sabendo da existência da Pedra do Badejo através do Carlinhos, pescador veterano e dono do barco Marline, que costumamos alugar para fazer mergulhos alternativos em Salvador. Esse ponto se encontra afastado da costa cerca de 7 milhas, situando-se portanto em águas azuis. Trata-se de um pesqueiro profundo, conhecido por pescadores da região que utilizam o narguilé como ferramenta de pesca.

A ideia de organizarmos um deep air dive por lá partiu de Peter Tofte e Euripedes, e logo comentei com László Mocsari, meu parceiro para mergulhos com rebreathers, sobre a possibilidade de fazermos o nosso primeiro mergulho com Trimix e equipados de rebreathers, juntos com eles nessa saída.

A profundidade exata do local não era conhecida, mas estimava-se algo entre 45 a 50 metros, podendo alcançar até um pouco mais. Esta estimativa teve como fonte o relato de pescadores que frequentavam o ponto, bem como o fato dele estar próximo a outros sítios de mergulho conhecidos, como a Pedra da Caranha (46 metros) e Destroyer (52 metros), cujas profundidades se situavam próximas a esses patamares.

Havia o relato do encontro de mergulhadores de compressor com tubarões martelo naquele ponto de mergulho, o que tornava o mergulho mais interessante, devido a possibilidade de avistarmos grande peixes entocados no fundo, ou quem sabe até algum tubarão perdido mariscando pelo pedrado atrás de suas presas.

O planejamento

O planejamento principal do mergulho era eu e László Mocsari, que estávamos equipados com rebreathers de circuito fechado eletrônicos Megalodon, iríamos descer no máximo até os 50 metros e realizarmos 40 minutos de tempo de fundo. Combinamos também, que apesar de estarmos usando Trimix 15/30 como gás diluente, a navegação seria feita com o auxilio de carretilhas, pois nunca tínhamos mergulhado naquele local e assim, evitaríamos qualquer problema de orientação no fundo.

Além disso, pela experiência que eu já tinha de mergulhos anteriores na Pedra da Caranha, que é próximo à Pedra do Badejo, já sabia que a possibilidade de executar uma descompressão à deriva naquele local era perigosa, devido a existência de um constante fluxo de navios que entram e saem da Baía de Todos os Santos e passam próximo a esses pontos de mergulho.

A escolha do Trimix 15/30 como gás diluente se deu porque, em primeiro lugar, essa mistura possui uma PpO2 de 0.9 ATA na profundidade de 50 metros, abaixo portanto dos limites de 1.0 e 1.2 PpO2, que são os máximos recomendados para uso em mergulhos profundos com rebreathers de circuito fechado.

Essa recomendação se dá porque, caso haja uma falha de equipamento que provoque a elevação da PpO2 do loop de respiração para níveis hiperóxidos, é possível ao mergulhador, através do procedimento de lavagem do contra-pulmão (flush) com gás diluente, abaixar rapidamente a PpO2 do loop, evitando assim uma possível intoxicação do SNC pelo oxigênio.

Por evidente que essa limitação de PpO2 máxima de 1.0/1.2 ATA no fundo não se aplica ao planejamento de mergulhos técnicos em circuito aberto, pois nesse tipo de mergulho a fração de O2 do gás de fundo é constante, não havendo possibilidade de aumento de PpO2 por falha do equipamento. Com o equipamento de circuito aberto, os limites máximos de PpO2 recomendados são os já conhecidos 1.4 ATA no fundo e 1.6 ATA na descompressão.

Mas voltando ao nosso planejamento para a Pedra do Badejo, a escolha do Trimix 15/30 também ocorreu porque essa mistura, combinada com um Set Point de 1.3 PpO2, nos dá uma Fração de hélio (FHe) inspirada, na profundidade de 50 metros, de 27.8 %, o que nos proporciona o conforto de uma profundidade equivalente narcótica (END) de 33.3 metros. Ou seja, mergulhar com Trimix 15/30 como gás diluente e setar a eletrônica do rebreather para trabalhar como uma PpO2 constante de 1.3 ATA no fundo de 50 metros, do ponto de vista da narcose, é como se o mergulhador estivesse usando ar comprimido a 33.3 metros.

Mais uma vez, apenas para ressaltar as diferenças dos tipos de planejamento, que são diversos entre o circuito aberto e o fechado, no caso dos rebreathers CCR, a profundidade equivalente narcótica (END) é variável e depende, além da profundidade que se vai mergulhar e da fração de hélio (Fhe) do gás diluente, também da regulagem do Set Point, que nada mais é do que PpO2 desejada durante o mergulho.

Isso ocorre porque, sob a influência da Lei de Henry, ao modificarmos o Set Point e consequentemente a PpO2 do loop de respiração, a própria pressão parcial dos outros gases presentes no loop também se altera, de modo que sempre haverá uma diferença, normalmente a menor, entre a fração de Hélio (Fhe) do gás diluente e a fração de hélio da mescla de gás efetivamente inspirada pelo mergulhador.

O nosso procedimento de descompressão foi planejado com o auxílio do software VPlanner, que tem como modelo o algoritmo bifásico VPM B/E, usado por diversas agências de mergulho técnico, entre elas a IANTD. O uso de modelos de descompressão bifásicos ou neo-haldesinos com ajuste de Gradient Factor (GF), são ainda mais recomendados em mergulhos com Trimix, pois o Hélio, por ser um gás de rápida difusão, depende de paradas profundas para a sua correta eliminação sem a formação de bolhas.

No nosso planejamento não foi previsto o uso computadores de mergulho para monitorar a exposição aos gases inertes, pois eles não estavam disponíveis. Usamos apenas Bottom Timers e por isso foram geradas várias tabelas simulando os possíveis cenários a serem encontrados, inclusive incluindo os procedimentos de bail out e o mergulho sucessivo que seria realizado no Cavo Artemidi ou Galeão Sacramento, a depender das condições de correnteza presentes nesses dois locais de mergulho.

Os displays primários e secundários da eletrônica APECS 2.5 dos CCRs Megalodon controlam o Set Point (PPO2 desejada) durante o mergulho, o que influencia, inclusive, na dosagem narcótica da mescla de gases inspirada pelo mergulhador.
Os displays primários e secundários da eletrônica APECS 2.5 dos CCRs Megalodon controlam o Set Point (PPO2 desejada) durante o mergulho, o que influencia, inclusive, na dosagem narcótica da mescla de gases inspirada pelo mergulhador.

O esquema de descompressão, gerado no VPlanner com o uso do nível de conservador +2, foi o descrito abaixo:

V-Planner 3,83 by Ross Hemingway
VPM code by Erik C. Baker
Decompression model: VPM – B/E

DIVE PLAN #1
Surface interval = 5 day 0 hr 0 min.
Elevation = 0m
Conservatism = + 2

Dec to 50m (3) Diluent 15/30 0,40 SetPoint, 15m/min descent.

Level 50m 36:40 (40) Diluent 15/30 1,30 SetPoint, 28m ead, 33m end

Asc to 30m (42) Diluent 15/30 1,30 SetPoint, -9m/min ascent.

Asc to 27m (42) Diluent 15/30 1,30 SetPoint, -9m/min ascent.

Stop at 27m 0:27 (43) Diluent 15/30 1,30 SetPoint, 10m ead, 19m end

Stop at 24m 1:00 (44) Diluent 15/30 1,30 SetPoint, 7m ead, 17m end

Stop at 21m 2:00 (46) Diluent 15/30 1,30 SetPoint, 5m ead, 15m end

Stop at 18m 2:00 (48) Diluent 15/30 1,30 SetPoint, 2m ead, 13m end

Stop at 15m 4:00 (52) Diluent 15/30 1,30 SetPoint, 0m ead, 11m end

Stop at 12m 4:00 (56) Diluent 15/30 1,30 SetPoint, 0m ead, 9m end

Stop at 9m 7:00 (63) Diluent 15/30 1,20 SetPoint, 0m ead, 7m end

Stop at 6m 8:00 (71) Diluent 15/30 1,20 SetPoint, 0m ead, 5m end

Stop at 3m 13:00 (84) Diluent 15/30 1,20 SetPoint, 0m ead, 3m end

Surface (84) Diluent 15/30 -9m/min ascent.

Off gassing starts at 35,6m

OTU’s this dive: 115

CNS Total: 42,8%

Note-se que decidimos realizar a troca dos Set Points dos rebreathers para 1.2 PpO2 a partir da parada dos 9 metros de profundidade. Isso ocorre porque quando mais raso se mergulha, menor pressão absoluta total e consequentemente maior é a dificuldade em se manter uma PpO2 elevada no loop de respiração dos rebreathers. Abaixando o Set Point nas paradas rasas, iríamos diminuir a janela de oxigênio, aumentando o tempo de descompressão, mas, por outro lado, iríamos ganhar em nível de conforto no mergulho, evitando-se a necessidade de realizar lavagens (flush) do contra-pulmão com oxigênio para elevar a PpO2, o que provoca perda de gás e aumento da carga de tarefas (task load) na descompressão.

Nos mergulhos técnicos com uso de rebreathers é regra a utilização de um volume de gás para Bail Out suficiente para que cada mergulhador seja capaz de retornar ao ponto de início do mergulho e completar toda a sua descompressão em circuito aberto. Essa é uma das grandes limitações para uso dos rebreathers para mergulhos técnicos muito fundos e/ou com tempos de fundo muito longos, pois nesses mergulhos o volume de gás requerido para bail out seria impossível de ser carregado pelo mergulhador, a menos que seja possível estagiar os tanques de bail out durante o mergulho, o que é uma possibilidade remota em ambientes de águas abertas oceânicas.

O mergulhador francês Cedric Verdier, recordista mundial de profundidade, usando um Megaldon CCR como equipamento principal e um BOB – Bail Out Rebreather clipado para bail out. Fonte: Considering a Bail-out Rebreather, in Rebreather World.
O mergulhador francês Cedric Verdier, recordista mundial de profundidade, usando um Megaldon CCR como equipamento principal e um BOB – Bail Out Rebreather clipado para bail out. Fonte: Considering a Bail-out Rebreather, in Rebreather World.

A solução para esse problema, cada vez mais adotada para os praticantes de mergulhos extremos com rebreathers é o uso de BOBs – Bail Out ReBreathers, que nada mais são que rebreathers independentes para Bail Out, A própria Innerspace Systems Corp. já colocou à venda nos EUA, desde da última exposição no DEMA / 2007, do “Mega Megalodon”, que são dois rebreathers Megalodon totalmente independentes e interligados com cintas de aço iguais às usadas nas duplas de circuito aberto.

Como se tratava de um mergulho cuja profundidade máxima planejada era de 50 metros, decidimos usar como gás de bail out de fundo o ar comprimido em cilindros de 80 pés cúbicos, pois é barato e disponível com facilidade. Além dele, usamos também como bail out raso o oxigênio puro, em cilindros de 40 pés cúbicos. A configuração de dois cilindros adicionais de bail out nos dava a segurança de poder cumprir toda a descompressão em circuito aberto caso houvesse falha total nos rebreathers. Além disso, nos dois reguladores de bailout foram colocadas mangueira de baixa pressão com conectores compatíveis com as válvulas de adição manual de diluente e oxigênio dos contra-pulmões do Megalodon. Assim, se poderia fazer uso desses gases off board caso necessário, o que proporcionava mais uma redundância ao sistema.

O esquema de descompressão com o uso dos gases de Bail Out também foi realizado no VPlanner e seguiu a tabela abaixo:

DIVE PLAN #1 – BAIL OUT – Ar/Oxigênio
Surface interval = 5 day 0 hr 0 min.
Elevation = 0m
Conservatism = + 2

Dec to 50m (3) Diluent 15/30 0,40 SetPoint, 15m/min descent.

Level 50m 36:40 (40) Diluent 15/30 1,30 SetPoint, 28m ead, 33m end

Asc to 30m (42) Air -9m/min ascent.

Stop at 30m 0:47 (43) Air 0,84 ppO2, 30m ead

Stop at 27m 1:00 (44) Air 0,77 ppO2, 27m ead

Stop at 24m 1:00 (45) Air 0,71 ppO2, 24m ead

Stop at 21m 1:00 (46) Air 0,65 ppO2, 21m ead

Stop at 18m 3:00 (49) Air 0,59 ppO2, 18m ead

Stop at 15m 4:00 (53) Air 0,52 ppO2, 15m ead

Stop at 12m 7:00 (60) Air 0,46 ppO2, 12m ead

Stop at 9m 9:00 (69) Air 0,40 ppO2, 9m ead

Stop at 6m 9:00 (78) Oxygen 1,60 ppO2, 0m ead

Stop at 3m 14:00 (92) Oxygen 1,30 ppO2, 0m ead

Surface (92) Oxygen -9m/min ascent.

Off gassing starts at 32,8m

OTU’s this dive: 98
CNS Total: 46,6%

986,6 ltr Air
421,5 ltr Oxygen
1408,1 ltr OC TOTAL

 

Os mergulhos

O nosso mergulho seguiu o planejamento realizado e tivemos a felicidade de pegar um mar calmo e com boa visibilidade até os 27 metros. Abaixo desse patamar, a visibilidade foi reduzida a uns 7 metros e não encontramos grandes peixes, nem mesmo os tubarões martelo, que, pelo relato do pescador Carlinhos, já foram avistados no local, tendo inclusive atacado uma fieira de peixes carregada por um mergulhador de compressor.

O perfil do mergulho, retirado do computador Dive Rite Nitek Duo, que estava funcionando em modo gauge, registra um tempo total de mergulho de 96 minutos, maior que o planejado, mas que já era o esperado, tendo em vista a necessidade de se fazer uma subida mais lenta a ponto de permitir aos rebreathers manter a PpO2 constante através da injeção de oxigênio no loop pela válvula solenóide.

Gostaria de agradecer a todos que participaram desses excelentes mergulhos, especialmente ao dupla László, que gentilmente cedeu as facilidades da Bahia Scuba para preparar nossas mesclas de fundo; bem como aos colegas Peter Tofte, Euripedes e Tomás, companheiros de tantas outras aventuras submarinas.

Perfil do mergulho retirado do computador Nitek Duo, que trabalhou em modo gauge durante todo o mergulho, fazendo redundância com um Bottom Timer.
Perfil do mergulho retirado do computador Nitek Duo, que trabalhou em modo gauge durante todo o mergulho, fazendo redundância com um Bottom Timer.
Bruno Fagundes

Nascido no Estado do Rio de Janeiro, mergulha desde 1992, quando fez o seu curso básico na escola de mergulho AquaRio (Cabo Frio, RJ). É graduado em direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Oficial da Reserva do Exército, ex-Procurador Federal e atualmente Procurador do Estado da Bahia.

Tem como foco de interesse a realização de mergulhos profundos e com rebreather de circuito fechado. Atualmente é mergulhador de rebreather CCR Megalodon e Divemaster pela IANTD, tendo também as certificações IANTD CCR Trimix, IANTD CCR Normox Trimix, TDI Extended Range Diver, TDI Trimix Diver, TDI Advanced Nitrox Diver, TDI Decompression Procedures Diver, DSAT Tmx Gas Blender e PDIC Divementor.