Mergulho no naufrágio não identificado de Arembepe – Litoral norte de Salvador

Foto: Clécio Mayrink

O mergulho em naufrágios é uma das atividades mais gratificantes no mergulho amador, pois consegue aliar o uso de técnicas especiais com o aspecto histórico que envolve a descoberta e identificação dos sítios de naufrágios.

Em Salvador, capital do estado da Bahia, nós temos diversos naufrágios importantes, de diferentes épocas históricas, o que torna o mergulho em naufrágios uma atividade corriqueira para os que possuem o privilégio de morar e mergulhar nessa cidade.

Dos naufrágios conhecidos e identificados de Salvador, já tive a oportunidade de mergulhar em quase todos eles, a maioria através da participação em operações de mergulho comerciais montadas pelas operadoras que funcionam na cidade.

Outros naufrágios, porém, por se localizarem fora da área de operação das empresas de mergulho baianas, só há o acesso mediante a realização de operações independentes de mergulho, viabilizadas através do aluguel de embarcações de pesca e contato com pescadores locais.

Pecas-Naufragio1O litoral norte de Salvador

Além dos naufrágios e pontos de mergulho da capital Salvador, já conhecidos pelo grande público, há também outros ainda pouco mergulhados, por se encontrarem em áreas situadas fora do campo de atuação das operações regulares de mergulho.

Uma dessas áreas ainda pouco conhecidas pelos mergulhadores, porém muito promissora pela qualidade dos mergulhos que possui, está localizada justamente ao norte do litoral de Salvador, entre as localidades de Jauá e Praia do Forte. Em Jauá, balneário localizado entre os quilômetros 15 e 16 da estrada do coco, pertencente ao Município de Camaçari, já tive a oportunidade de mergulhar algumas vezes, sempre mediante a realização de operações independentes de mergulho, organizadas entre amigos mergulhadores residentes em Salvador, onde foi possível conhecer os naufrágios Salvador e Paraná, dois ótimos sítios de mergulho, com profundidades que não ultrapassam os 18 metros, água sempre quente, em torno 27ºC e visibilidade horizontal alcançando os 15 metros no verão.

Além de Jauá, mais ao norte seguindo a estrada do coco, encontramos também o charmoso balneário de Guarajuba, palco de partida para diversos mergulhos e aventuras na região. Foi em Guarajuba que no ano de 2005 conhecemos o pescador e mestre de embarcações Roberto Reis, proprietário da traineira de pesca “Luana” e conhecedor de muitos pontos de mergulho e pescaria na região.

Através do contato com esse pescador, tivemos a oportunidade de mergulhar em excelentes pontos de mergulho, com água sempre quente, em torno dos 28ºC no verão, visibilidade quase sempre caribenha, chegando aos 40 metros, e abundante vida marinha, motivos pelos quais eu e alguns colegas mergulhadores resolvemos eleger Guarajuba como o cenário para diversas saídas exploratórias de mergulho.

Em Guarajuba alugávamos a traineira “Luana” nos finais de semana e tivemos a oportunidade de mergulhar na Falha (27 metros), Mimosa (35 metros), Pedra da Aracanguira (26 metros), Flamengo (38 metros) e Atratores da Praia do Forte (73 metros), pontos inclusive que muitas vezes demandaram a realização de mergulhos com perfis descompressivos e uso de misturas especiais para acelerar a descompressão.

Durante a preparação para uma dessas saídas exploratórias tivemos o conhecimento, através do pescador Roberto, da existência de um naufrágio sem identificação próximo a Arembepe e motivados por nossa curiosidade e instinto explorador, resolvemos conhecer o local para ser mais um de nossos pontos de mergulho.

O mergulho no naufrágio de Arembepe

Em dezembro de 2006 fechamos um grupo de mergulhadores com o objetivo de conhecer esse novo ponto de mergulho, o naufrágio de Arembepe. A realização de operações independentes de mergulho demanda certas dificuldades operacionais, como um número mínimo de mergulhadores experientes para viabilizar economicamente o aluguel da embarcação.

Não é todo mergulhador que está apto a participar desse tipo de operação de mergulho, principalmente devido ao grande tempo de permanência no mar e a precariedade dos meios de resgate. Além disso, a própria embarcação, que tem como destinação principal a realização de pesca, não possui o mesmo índice de conforto presente nas operações comerciais de mergulho amador.

Foram convidados a participar desse mergulho, contribuindo com o seu planejamento e execução os mergulhadores Peter Tofte, Eurípedes de Lima Vieira, Jomar Souza, Léia Figueiredo, Sil e Pedro, todos mergulhadores com grande experiência.

Os objetivos principais dessa saída de mergulho era conhecer o naufrágio de Arembepe e também mergulhar num ponto profundo batizado de Flamengo, com cerca de 38 metros de profundidade, fundo composto de pedra e corais, com muita vida marinha e excelente visibilidade.

Ao embarcarmos às 7:30h da manhã em frente ao mercado de peixe de Guarajuba, navegamos cerca de 1 (uma) hora até o ponto Flamengo, local onde realizamos um excelente e descontraído mergulho profundo, acompanhados de abundante vida marinha e boa visibilidade, cerca de 15 metros horizontais.

Zarpamos do ponto Flamengo às 10:30h da manhã e navegamos mais 01 (uma) hora a cerca de 7 nós até em frente ao emissário submarino da CETREL, empresa de proteção ambiental do Pólo Petroquímico de Camaçari, local onde estariam os destroços do então misterioso naufrágio.

Chegamos ao local e começamos a nos preparar para executar o mergulho. O combinado era o mestre Roberto Reis plotar a posição com o seu GPS embarcado e lançar um “sputnik” com o objetivo de demarcar o ponto de imersão até o naufrágio. A traineira “Luana” seria fundeada ao largo.

Ponto plotado e “sputnik” lançado, chegou a minha vez de cair na água para realizar a busca do naufrágio e deixar um caminho seguro e orientado para os outros mergulhadores que ainda se equipavam na embarcação.

Ao entrar na água percebi uma ligeira correnteza, muito presente Guarajuba e arredores e logo iniciei a minha imersão acompanhando o cabo do “sputnik” até o fundo. Procuramos realizar uma busca padrão circular e seguir os peixes que por lá passavam, pois eles certamente se assustariam com a minha presença e nadariam em direção ao naufrágio, com menos de 10 minutos de busca obtive sucesso encontrando os destroços. Um misto de Pecas-Naufragio2alegria e apreensão tomou conta de mim, pois apesar da alegria em ver pela primeira vez os destroços desse naufrágio, teria logo que terminar a minha faina amarrando a carretilha em algum ponto do naufrágio e iniciar o retorno para avisar sobre o início da operação de mergulho.

Assim que cheguei à superfície fiz um “Ok” ao pessoal embarcado e logo os outros mergulhadores foram também para a água para iniciar o mergulho. Desci novamente junto com o restante do pessoal e agora sim pude apreciar com mais calma os destroços do naufrágio de Arembepe.

O naufrágio se localiza numa planície com fundo de areia e cascalho fino, com profundidade máxima de 24 metros e está totalmente desmantelado. A visibilidade no local é de cerca de 10 a 12 metros e há abundante vida marinha circulando no seu entorno. O casco de madeira encontra-se enterrado e junto ao sítio foram encontradas três âncoras tipo almirantado, sendo que duas, maiores e cravadas na areia em posição simétrica, dão a entender que foram lançadas ao mar momentos antes do fim da embarcação.

Escavando a areia podemos ver o casco de madeira com placas bem disformes, sendo que algumas apresentavam uma cor enegrecida, dando também a entender ter havido algum incêndio a bardo. Um dos mergulhadores que participaram da expedição encontrou um caco de porcelana com escritos em inglês e uma peça de bronze do estaiamento da embarcação, presa ao casco através de parafusos bem torneados e com aspecto moderno.

Havia também uma boa quantidade de partes de metal espalhadas pela areia, difíceis de identificar tendo em vista o seu estado de conservação e agregação de vida marinha. Nada mais, porém, foi encontrado que pudesse sugerir a identidade desse naufrágio.

Junto aos destroços foi possível observar cabos de amarração lançados ao fundo, o que deu a entender ser esse naufrágio conhecido por outros mergulhadores e pescadores da região, que talvez já tivessem explorado o local.

Depois de cerca de 50 minutos de tempo de fundo feitos com ar comprimido, iniciei a minha longa descompressão até a superfície. Os comentários depois do mergulho foram animadores e todos gostariam de voltar ao lugar para realizar outros mergulhos, tendo em vista à sua beleza e abundância de vida marinha.

O retorno a Salvador e a divulgação do resultado do mergulho

Após retornarmos a Salvador resolvermos divulgar o ponto à comunidade de mergulho local para sabermos mais sobre esse misterioso naufrágio.

Realizei uma breve pesquisa na Internet e observei que só havia um único naufrágio registrado naquela região de Arembepe. Esse naufrágio foi batizado de “navio negreiro” pelo pessoal da empresa Bahia Scuba que trabalhava na manutenção de emissários submarinos no Litoral Norte.

O pescador Roberto Reis, proprietário da embarcação que nos levou até o naufrágio, não sabia o nome daqueles destroços e a partir daí surgiram dúvidas a respeito de sua a identificação.

Consultamos então o especialista em naufrágios da Bahia, Professor José Goes de Araujo, que sugeriu pudesse ser esse naufrágio um dos clippers Union Jacke (3/5/1863), Nye (2/4/1863) ou Lafayette (5/4/1863), incendiados depois de saqueados pelos cruzadores sulistas SS Flórida e SS Alabama, que tinha base na Bahia e Ilha Trindade e faziam ataques corsários às embarcações nortistas durante a Guerra da Secessão Americana.

Segundo o Professor José Goes de Araujo um desses clippers levada faiança (louça) inglesa com motivos de flores e poderia estar próximo a Guarajuba. Na ocasião, o Professor José Goes nos solicitou que fosse recuperado um pedaço da madeira estrutural do naufrágio para análise laboratorial.

Consultamos também outro especialista em naufrágios e o mesmo não acreditou na hipótese dos Clippers, pois, segundo ele, como as âncoras tipo almirantado encontradas no sítio do naufrágio não possuíam cepo de metal, elas não deveriam ser da época em que aconteceram os ataques pelos cruzadores sulistas americanos, mas sim do Século XVIII para trás.

Pecas-Naufragio3O segundo mergulho e a análise da madeira estrutural

Em vista à solicitação do Professor José Goes de Araujo, decidimos montar uma nova expedição ao local com o fim de realizar a filmagem dos destroços e retirar uma parte da madeira estrutural para análise em laboratório.

A operação foi montada rapidamente para aproveitar as boas condições de mar então presentes no litoral norte e dela participaram os mergulhadores Peter Tofte, Eurípedes de Lima Vieira, Jomar Souza, Léia Figueiredo, Genser Freire e Fábio Marconi. Em 07/01/2007 voltamos então a Guarajuba para retornar ao naufrágio.

O mergulho se deu da mesma maneira que no anterior, sendo que dessa vez, com o objetivo de estender o meu tempo de fundo, utilizei um cilindro único de aço de15 litros para um mergulho mais longo, e após cerca de 1 hora e 30 minutos de mergulho, retornei à embarcação com algumas amostras da madeira estrutural do naufrágio para encaminhamento ao Professor José Goes de Araujo. Outros mergulhadores também recolheram madeira estrutural para fins de análise e o cinegrafista Fábio Marconi, da Olhar Filmes, realizou uma excelente filmagem dos destroços, também com o objetivo de ser exibida ao Professor especialista José Goes.

De volta a Salvador marcamos uma reunião no Centro Náutico da Bahia – CENAB com o Professor José Goes, ocasião que lhe foram mostradas as peças retiradas do naufrágio e a filmagem realizada por Fábio Marconi. Após a reunião no CENAB, com a participação dos mergulhadores André Lima, Zilan Costa e Marcos de Paula, o Professor José Goes encaminhou parte da madeira estrutural para análise no Instituto Politécnico da Bahia – IPT e realizou algumas pesquisas com o pedaço de porcelana encontrado.

A análise laboratorial realizada no IPT revelou que a madeira encontrada era “Pinus” (Pinheiro), não se tratando de um “White oak” ou “Carvalho de Dandzig”. Segundo o IPT, o “pinus” é nativo do Hemisfério Norte, tendo sido introduzido no Brasil somente em meados do Século XX, o que descarta a possibilidade da madeira ser brasileira.

Segundo o Professor José Goes somente as embarcações americanas utilizavam o “pinus” em sua fabricação, sendo certo também que o pedaço de louça encontrado no naufrágio indica que ela não poderia ter existido antes de 1819, indícios que batem com a tese dos Clippers americanos.

Para esse historiador, no entanto, através dos dados até agora coletados, esses destroços tanto podem ser de um Clipper americano como um brigue construído no EUA e vendido ou arrendado para o tráfico negreiro, havendo a necessidade de uma datação com Carbono 14 e um levantamento no local a fim de determinar as dimensões do naufrágio.

Outros mergulhos ainda terão que ser feitos para tentarmos decifrar esse enigma. Esperamos que com a publicação desse artigo, outras informações possam surgir e contribuir na solução desse interessante e misterioso naufrágio, ainda sem identificação.

Bruno Fagundes
Nascido no Estado do Rio de Janeiro, mergulha desde 1992, quando fez o seu curso básico na escola de mergulho AquaRio (Cabo Frio, RJ). É graduado em direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Oficial da Reserva do Exército, ex-Procurador Federal e atualmente Procurador do Estado da Bahia. Tem como foco de interesse a realização de mergulhos profundos e com rebreather de circuito fechado. Atualmente é mergulhador de rebreather CCR Megalodon e Divemaster pela IANTD, tendo também as certificações IANTD CCR Trimix, IANTD CCR Normox Trimix, TDI Extended Range Diver, TDI Trimix Diver, TDI Advanced Nitrox Diver, TDI Decompression Procedures Diver, DSAT Tmx Gas Blender e PDIC Divementor.