Operação Regaste dos Cristais e o Naufrágio Amazônia

Em 02 de novembro de 1981 chegava ao Porto do Mucuripe uma embarcação avariada.

O navio mercante Amazônia apresentava problemas em suas bombas de esgotamento e já estava um pouco adernado à bombordo quando se aproximava da entrada do porto. Nos momentos finais da aproximação, o navio adernou completamente e deitou sobre seu bombordo no fundo da Enseda do Mucuripe.

Sua carga foi se desprendendo aos poucos, contêineres e grandes toras de madeira foram despejadas no mar. Começava assim a Operação Resgate dos Cristais.

Alguns contêineres recheados de produtos industrializados na zona franca de Manaus e que antes, eram destinados ao Rio de Janeiro, flutuaram e foram parar na Praia do Pirambu, assim como sua carga de madeira. A população ficou histérica com a possibilidade de obter algum bem daquele sinistro e a carga foi saqueada. No frenesi do saque, algumas pessoas se machucaram seriamente.

barco-cristais-recuperacao-carga-resgate2No entanto, alguns desses contêineres afundaram antes de chegar à margem levando consigo os produtos que traziam. E traziam peças de cristal. Travessas, cinzeiros, recipientes de diversos tamanhos feitos de um material que não se deteriora facilmente sob a água: vidro de alta qualidade.

Segundo o Wikipédia:

“Cristal é a denominação popular para um vidro de alta qualidade, transparência e densidade obtido através da adição à massa vítrea (durante a fabricação) de variados sais metálicos e em especial, neste caso, o óxido de chumbo (Pb3O4).[…] Geralmente quando o teor de chumbo é maior que 10% tais vidros ganham a denominação comercial de “cristal”, provavelmente se trata de tentativa de conferir uma distinção de “alta qualidade” em comparação aos vidros ditos “comuns”. Os teores de óxido de chumbo podem chegar até a 25%.”

Nos anos seguintes, mergulhadores amadores localizaram e “fizeram a festa” retirando peças de qualquer maneira e sem as devidas autorizações. Os contêineres foram saqueados. Existem relatos sobre cerca de 200 peças oriundas do Amazônia estão agora em Jericoacoara e que outras peças foram vendidas na internet.

O problema desta prática é que a legislação brasileira é bem protecionista em relação à bens perdidos no mar. Depois de um certo tempo, qualquer bem perdido ou abandonado no fundo do mar passa a ser propriedade do Estado. Portanto, para retirar qualquer peça do mar, são necessárias autorizações dos órgãos competentes, no caso a Marinha do Brasil e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

O tempo passou e a história foi esquecida. Virou lenda atestada por alguns poucos que ainda lembravam ou conheciam a localização. Em 2006 quando comecei a pesquisar sobre este naufrágio, tive dificuldade de encontrar a data mas localizei em jornais antigos fotos do seu afundamento.

O tempo passou e em 2012, Régis Freitas, um mergulhador conhecido como “Régis Doido”, trouxe para nosso conhecimento a localização de um desses contêineres. Augusto César Bastos abraçou o projeto de resgatar essas peças com o intuito de doá-las para o futuro Aquário do Ceará.

Augusto batalhou por quatro anos para que seu projeto de exploração fosse aprovado em Brasília. O longo processo burocrático de coleta de assinaturas foi árduo e o documento ainda foi perdido em trânsito de um órgão para outro.

cristal-peca-naufragioNo início de 2016 a autorização estava em mãos e a data escolhida para realizarmos definitivamente o resgate dos cristais. Acertamos meses antes a logística da operação que foi autorizada para ser executada por mergulhadores recreativos. Por este motivo, além do staff da Mar do Ceará, clientes e alunos foram convidados a participar da operação.

Num domingo, 21 de agosto, embarcamos no “Seu Lulu”, um traineira de 12m para curta navegação até o local planejado. Duplas foram definidas assim como suas funções sob a água.

A primeira dupla mergulhou para localizar precisamente o contêiner. Fizeram uma busca circular ao redor do local mais indicado e após 20 minutos de busca foi dado o sinal verde. As peças foram colocadas cuidadosamente em caixotes e após alguns mergulhos, uma dezena de caixas estavam cheias aguardando outra dupla para levá-la à superfície com o uso de balões infláveis (lift bag). Nesse dia conseguimos recuperar as peças que estavam expostas na areia.

seloInteressante observar que grande parte do papelão utilizado para embalar as peças ainda estava preservado e alguns selos com a logomarca do fabricante foram encontrados e perfeitamente legível o nome “Kaysons Crystal Limitada” e o “CGC 04.299.301/0001-19”, mesmo após 35 anos submerso.

Era um contêiner pequeno com mais ou menos 3m x 2m x 2m e toda a sua estrutura se deteriorou, exceto sua armação e a parte inferior, enterrada na areia. Em razão disso, foi necessário cavar. Utilizamos um sistema de sucção a ar para dragar o fundo e expor as peças que estavam enterradas. O processo de cavar, coletar, amarrar e içar foi repetido por mais três dias até concluirmos a operação. Foram dias muito divertidos, mergulhos fáceis a 10m de profundidade e com visibilidade média 4m. Após a fase de mergulho, foi necessário limpar e armazenar as peças.

Parte da carga recuperada foi destinada a Marinha que solicitou uma porcentagem. Outra parte, seria vendida para custear as despesas operacionais. Como não obtivemos resposta do Aquário sobre a nossa oferta de doação, idealizamos o “Museu Subaquático de Fortaleza”, mais um projeto de nosso grupo de pesquisas.

Posteriormente, juntamente com o documentarista Roberto Bonfim, lançamos o Atlas de Naufrágios do Ceará, com o documentário “O Naufrágio Amazônia e o Resgate dos Cristais”, onde apresentamos o resgate desta história para o público cearense.

mergulhadores-recuperacaoParticiparam da Operação:

Augusto Bastos           Alexandre Martorano
Alexsander Medeiros     Antônio Frazão
Cynthia Ogwa              Fabiana Santana
Francisco Carlos           Franco Bezerra
Joumar Roussine          Lídia Torquato
Lívia Torquato              Luciano Andrade
Marcondes Férrer         Marcus Davis
Melquíades Junior         Thiago Pereira
Thiago Magalhães         Pedro Emanuel
Rafael Alves

 

Marcus Davis Andrade Braga
Formado em publicidade e propaganda pela FIC. Mergulha há mais de 15 anos, é instrutor de mergulho pela PADI #196258, instrutor de primeiros socorros pela EFR e supervisor de mergulho formado pelo Corpo de Bombeiros do Ceará, instituição para qual presta consultoria. Fotógrafo e pesquisador de naufrágios, já participou de diversas matérias e programas de televisão relacionados a mergulho. É coordenador do Clube de Mergulho do Mar do Ceará, grupo envolvido no desenvolvimento da prática de mergulho autônomo, na preservação ambiental e na pesquisa e localização de naufrágios no estado.