Óxido de Alumínio em reguladores e a Inspeção Visual de Cilindros

Crosta de óxido de alumínio em um regulador desmontado para manutenção - Foto: Miguel Lopes

Ainda que diversos alertas venham sendo dados, alguns proprietários de escolas ou operadoras ainda insistem em não trocar os filtros de seus compressores no prazo recomendado, de acordo com a capacidade de cada conjunto. O pior, é que não executam as inspeções visuais e limpezas de seus cilindros de acordo com as normas internacionais vigentes.

A fim de esclarecer em definitivo a “dúvida” de alguns mergulhadores, transcrevo abaixo um trecho do Manual de Inspeção Visual da Luxfer (disponível também no próprio site:

Óxido de alumínio em um filtro de um regulador
Óxido de alumínio em um filtro de um regulador

O manual “Luxfer´s Scuba Cylinder Visual Inspection Guide” especifica no item Inspeção Visual – Frequência de Inspeção (página 5):

Serviço normal

A inspeção visual de cada cilindro de mergulho deve ocorrer pelo menos uma vez a cada doze meses (12 meses), ou em qualquer momento oportuno antes de doze meses.

Serviço pesado

Se o cilindro é usado em serviço pesado, então ele deve ser inspecionado a cada 4 meses.

Um cilindro é considerado em “Serviço Pesado”, se preencher um ou mais dos requisitos abaixo:

  • Cilindros recarregados cinco ou mais vezes por semana;
  • Cilindros de aluguel em uso durante a “temporada”.

Obs: os cilindros de aluguel para terceiros devem ter o mesmo tratamento de serviço pesado devido à impossibilidade de saber se foram submetidos a choques mecânicos ou altas temperaturas.

Óxido de alumínio no gargalo de um cilindro
Óxido de alumínio no gargalo de um cilindro

Atenção !

Cilindros que possam ter sido submetidos a choques mecânicos, calor excessivo ou com marcas óbvias de corrosão externa, devem ser retirados imediatamente de serviço e submetidos à inspeção.

Vale lembrar, que a demora na inspeção visual propicia o alastramento da corrosão galvânica entre o registro e as roscas dos cilindros.

Como sabemos, a corrosão galvânica é um processo eletroquímico em que um metal sofre corrosão preferencialmente em relação a outro, quando os dois estão em contato elétrico e imersos em um eletrólito. Essa mesma reação galvânica é explorada em baterias primárias (como as vulgarmente chamadas de pilhas) para gerar uma tensão. A corrosão galvânica e seus processos, são as formas mais comuns e frequentes de corrosão na natureza, e a mais destrutiva também.

Óxido de alumínio da rosca de uma torneira
Óxido de alumínio da rosca de uma torneira

Na corrosão eletroquímica, uma célula galvânica (ou células voltaicas) é criada quando dois metais diferentes, ou em áreas diferentes no mesmo metal, são acoplados por meio de um eletrólito elétrica ou um condutor de íons (chamado, em determinadas disposições, uma “ponte salina”). Como os metais e ligas diferentes possuem potenciais de eletrodos diferentes, e quando dois ou mais deles entram em contato quando imersos em um eletrólito, configura-se um par galvânico.

 

Um par galvânico também pode ser configurado em um único metal ou liga, devido à superfície de metal não ser homogênea ou, se o eletrólito varia em composição, formando uma célula de concentração.

Em nosso universo, a corrosão se dá nas roscas do cilindro devido à água salgada acumulada em seu interior. Essa água pode contaminar o cilindro durante a troca de reguladores à bordo das embarcações ou, simplesmente, na condensação formada pelo esvaziamento do cilindro quando este estiver contaminado em seu interior.

Orientações de senso comum para se lidar com os cilindros

  • Para alguns cilindros de aço poderemos observar, logo após a marcação de sua pressão de trabalho, um sinal “+” , indicando que ele poderá ser recarregado em até 10% acima de sua capacidade durante os primeiros cinco anos (5 anos);
  • Cilindros de alumínio jamais devem ser recarregados acima de sua capacidade;
  • Não deixe um cilindro totalmente vazio, a não ser, que esteja sem seu registro e com sua rosca e interior protegidos de umidade e sujeiras;
  • Todos os exames, testes e trabalhos de manutenção nos registros deverão ser executados por técnicos treinados e em laboratórios de confiança;
  • Inspecione pessoalmente o exterior de cada cilindro, antes de cada recarga;
  • Todo cilindro deve ser acondicionado na vertical com, no mínimo, 300 a 500 psi;
  • Remova o boot do cilindro periodicamente para ver se há a formação de corrosão;
  • Nunca deixe um cilindro cair ou colidir, seja ele de aço ou de alumínio;
  • Procure recarregar o cilindro vagarosamente a fim de evitar condensação em seu interior;
  • Mantenha sempre os cilindros afastados do calor;
  • Nunca use um cilindro de alumínio que possa ter se aquecido a mais de 130ºC. Acima dessa temperatura, haverá o comprometimento da integridade estrutural do alumínio.

Se você é o responsável técnico por uma estação de recarga, tenha como norma, nunca recarregar um cilindro que tenha seu teste hidrostático vencido ou que não possua a etiqueta de inspeção visual dentro de sua validade. Acostume-se a ter uma ficha de manutenção para cada cilindro que você inspecionar ou recarregar. Essa ficha contará a história de cada unidade e colocará a sua disposição fatos relevantes que o ajudarão a solucionar possíveis problemas;

Toda inspeção visual deve ser feita com cuidado redobrado, mas inspeções em cilindros utilizados a serviço de operadoras ou escolas, devem ser executadas com cuidado quadruplicado, devido ao grande giro de recargas, excessivos transportes e alto risco de quedas ou choques.

Recomendo a você, que é dono de cilindros, ler o referido manual, assim como, as recomendações da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), no que diz respeito às normas NBR 12.274 e NBR 13.183, e da CGA C-6.1, sobre o assunto.
É um assunto muito sério e os acidentes estão por aí sendo documentados. Não se torne uma vítima do descaso.

Enio Couteiro
Mergulha há mais de 30 anos e é inspetor especialista em cilindros de mergulho com certificação da PSI dos Estados Unidos, sendo um dos profissionais mais reconhecidos do mercado, em razão do seu vasto conhecimento técnico e tempo de atuação no mercado nacional do mergulho.