Práticas de mínimo impacto aplicadas ao mergulho recreativo, turístico e lazer

A Organização das Nações Unidas (ONU) proclamou 2002 como o Ano Internacional do Ecoturismo numa tentativa de nos alertar a respeito da falta de planejamento e administração adequados aos locais visitados, em particular às áreas naturais ecológica e culturalmente frágeis. Nos últimos anos, o número de mergulhadores recreativos aumentou de forma surpreendente e a comunidade de mergulho está consciente do dano ecológico que tal fato pode provocar.

Compreendendo nossa responsabilidade diante dessa questão, a maioria dos instrutores procura, a cada curso de mergulho ministrado, formar nos novos mergulhadores uma consciência referente a suprema responsabilidade de manter vigilância constante e avaliação prudente a respeito de modificações que afetem a vida nos oceanos e o equilíbrio da sua natureza. Hoje sabemos que o comportamento de todo aquele que vem para junto do mar é um importante fator que pode contribuir para o aumento dos impactos causados em áreas de mergulho.

Sabemos também que, por consequência, temos o dever de administrar harmoniosamente os oceanos, garantindo o direito de mares não contaminados e não danificados para as gerações futuras. Como mergulhadores estamos assumindo o nosso dever em zelar pelas gerações futuras a fim de evitar um mal irreversível e irreparável à vida, à liberdade e à dignidade humana.

Nesse sentido, a compreensão a respeito das motivações individuais, do contexto grupal, da educação e experiência de cada mergulhador nos ajudará, associado a diversos outros fatores de mesma importância, a promover ações que modifiquem atitudes inadequadas e consequentemente reduzam os impactos gerados por elas.

Mergulhando em pontos constantemente visitados por embarcações em nosso país já é comum encontrar sinais evidentes do impacto no ambiente submerso tais como plásticos, vidros, pilhas, pneus, lixo em geral, lançados por indivíduos sem escrúpulos e sem qualquer noção de cidadania.

A comunidade do mergulho tem se preocupado com essa questão há muito tempo, e programas como o Dia de Limpeza dos Oceanos tem sido uma constante, mobilizando uma grande parcela de mergulhadores comprometidos. Mas infelizmente só isso não é suficiente. Um único dia no ano não basta.

Sabemos que existem, entre outros, impactos muito mais graves e menos evidentes como a pesca predatória ou a contaminação da água com combustíveis e esgotos repletos de poluentes humanos e industriais, gerando mudança do hábito da fauna, alteração na dinâmica do ecossistema marinho e promovendo até a extinção de algumas espécies. A ação poluidora do Homem parece não ter limites. Quase tudo que a humanidade tem feito polui. A poluição não pode ser totalmente eliminada, a menos que haja uma transformação radical na mente e nas economias atuais.

O Homem até agora tem se contentado com soluções que adiem os problemas catastróficos, conformando-se em conviver para sempre com eles. Frente a tal situação faz-se necessário investir em outras estratégias de prevenção e de manejo. Ao invés de prosseguirmos violentando a natureza, precisamos entender que o planeta Terra é um complexo sistema ecológico que compartilhamos com todas as outras espécies de vida animal e vegetal, e que essa estrutura baseia-se no equilíbrio.

Cada vez que uma característica é alterada, outras também serão, o que nos faz pensar no futuro e na possibilidade de não haver futuro. Uma estratégia de manejo que a comunidade de mergulho aplica há muito tempo é a adoção de um programa de educação para a prática de mínimo impacto.

A adoção de tais técnicas fundamenta-se no princípio ético de que todos os mergulhadores são responsáveis pela manutenção do bem-estar da área em que mergulham, e, embora as ações de uma só pessoa não sejam visíveis no ambiente, as ações de milhares de mergulhadores fazendo a mesma coisa terão um impacto positivo muito mais abrangente. A essência dessa técnica é deixar a área onde você vai mergulhar em melhor estado após o mergulho.

Nosso pressuposto inicial é sempre que precisamos informar ao novo mergulhador, através de alguns princípios básicos claros e bem elaborados, quais as práticas e hábitos adequados e não adequados para a atividade do mergulho, permitindo ao mergulhador, agregá-los à sua experiência gradualmente.

Praticá-los leva tempo, exige um certo grau de comprometimento e uma boa dose de experiência, mas não é complicado. Desenvolver uma ética ambiental com relação ao mar é um dos itens de fundamental importância que os instrutores devem se preocupar, educando seus mergulhadores de forma contínua, até que os mesmos incorporem em suas visitas tal postura, e a encarem como a lição mais valiosa que poderão associar no seu dia-a-dia. Tais procedimentos são essenciais no uso público de qualquer área natural e tem demonstrado sucesso em diversos locais de mergulho como Bonaire, Cozumel, Mar Vermelho e Austrália.

No Brasil, programas de impacto mínimo já fazem parte dos discursos oferecidos por diversas empresas de mergulho.
Algumas condutas de mínimo impacto em áreas de mergulho

Planejamento

  1. Informe-se a respeito dos regulamentos e restrições existentes: se é permitido ou não o uso de luvas, faca, praticar pesca, caça submarina, etc.
  2. Informe-se sobre as condições climáticas do local e consulte a previsão do tempo, tábua de marés, ventos, ondas e correntes.
  3. Certifique-se de que você e/ou a embarcação possuem uma forma de acondicionar o lixo adequadamente.
  4. Escolha os mergulhos que você vai realizar conforme o seu condicionamento físico, grau de treinamento e experiência.
  5. Planeje seu mergulho e apresente seu plano ao supervisor de mergulho.
  6. Cumpra o planejamento e seja competente com o uso de tabelas e/ou computadores de mergulho.
  7. Tenha um plano de emergência e telefones de contato à mão.

 

Segurança

  1. O salvamento e resgate em ambiente de mergulho é caro e complexo. Não se arrisque sem necessidade.
  2. Calcule o tempo total em que passará viajando e deixe um roteiro com alguém de confiança.
  3. Caso você ainda não possua experiência suficiente, contrate empresas do ramo. (Mergulhadores inexperientes podem causar impactos sem perceber e correr riscos desnecessários).
  4. Use sempre barco, bóia o outro apoio de superfície.
  5. Avise ao Dive Supervisor responsável pela operação a respeito de sua experiência e certificação.
  6. Ouça cuidadosamente as instruções e respeite as recomendações do supervisor de mergulho.
  7. Mergulhar exige boa saúde física e mental. Se não estiver bem, diga não ao mergulho.
  8. Aprenda técnicas de navegação submarina, resgate, administração de oxigênio e primeiros socorros.
  9. Retorne ao ponto inicial do mergulho sem entrar na reserva.
  10. Disponha do equipamento de mergulho apropriado e em bom estado de manutenção.
  11. Mantenha correta flutuabilidade.

 

Cuide do fundo do mar

  1. Observe os animais à distância. A proximidade pode ser interpretada como ameaça e provocar um ataque, mesmo de pequenos animais.
  2. Não alimente os animais. Com esse procedimento você altera os hábitos dos seres marinhos.
  3. Não persiga, apanhe, moleste e nem mate os animais.
  4. Aprecie a beleza do local sem agredir a natureza e dando a mesma oportunidade aos outros mergulhadores.
  5. Seja educado com outros mergulhadores. Procure não levantar suspensão.
  6. Evite entrar a bordo de qualquer embarcação com armas, anzóis, bebidas alcoólicas.
  7. Não trafegue em alta velocidade próximo aos locais de mergulho. Respeite a vida.
  8. Colabore com a educação de outros mergulhadores, transmitindo os princípios de mínimo impacto sempre que houver oportunidade.
Roberto Trindade
Formado em Educação Física, Psicologia e Turismo. Pós-graduado em Psicomotricidade, Psicopedagogia, Esportes de Aventura, Psicologia do Esporte e Fisiologia do Exercício. Mestre em Psicologia. É mergulhador profissional pelo Ministério da Marinha e Delegacia de Portos e Costas - DPC. É instrutor trainer trainer pela IANTD e instrutor pela CBPDS, CMAS, PADI, NAUI, TDI, HSA, SBMA, SSI, NSC, ERDI e DAN. Também é Membro da Sociedade Brasileira de Atendimento Integrado ao Trauma (SBAIT), Undersea and Hiperbaric Medical Society e Centro Regional de Informação de Desastres para América Latina e Caribe.