Rebreathers e o Mergulho em Cavernas

Foto: Paul Heinerth

O uso de rebreathers em mergulhos exploratórios de cavernas, apesar de ser uma prática antiga, vem ao longo da última década se estabelecendo como um procedimento padrão. Por outro lado, a comunidade de mergulho esportivo cada vez mais utiliza este tipo de equipamento em mergulhos que, apesar de técnicos, são turísticos e voltados à recreação.

Quando pensamos em mergulhos em cavernas, o nome de Wookey Hole aparece como sendo um dos berços desta atividade. Explorada desde a década de 30 do século passado, esta caverna inglesa viu, em um primeiro instante, o uso de rebreathers de oxigênio na conquista de seus sifões. Posteriormente, o uso de rebreathers de circuito semi-fechado de Nitrox e de rebreathers de circuito fechado se tornaram necessários à exploração dessa caverna. Outras explorações de cavernas em toda a Europa também fizeram, e fazem até hoje, o uso de rebreathers.

Os rebreathers também são comuns em explorações de cavernas Norte Americanas. Um dos projetos mais ambiciosos envolvendo estas máquinas foi o Wakulla 2. Criado pelo Dr. Bill Stone, este projeto, na sua segunda edição, tinha como objetivo explorar e mapear o sistema Wakulla Springs no Norte da Florida.

Com uma ideia que havia começado dez anos antes, o Dr. Stone desenvolveu um rebreather de circuito fechado de misturas gasosas para ser utilizado durante o projeto, e que seria comercializado posteriormente, o Cis-Lunar. Este projeto é considerado um marco no uso de rebreathers em explorações de cavernas. O sistema Wakulla também é palco de outro projeto que tem feito o uso de rebreathers, o WKPP. Este projeto usa o rebreather de circuito semi-fechado RB80. Recentemente, e com o uso de rebreathers, mergulhadores conseguiram conectar o sistema Leon Sinks e Wakulla Springs.

Inúmeros outros projetos fazem uso da tecnologia de reciclagem de gases na exploração de cavernas em diversos países, em todos os continentes. O uso de rebreathers em explorações de cavernas traz alguns benefícios. Em primeiro lugar, assim que o desenvolvimento linear e a profundidade da caverna começam a aumentar, os desafios logísticos se tornam complicados. Em circuito aberto isto significa ter que preparar a penetração na caverna com uma série de cilindros auxiliares, que vão ser usados durante a entrada e a saída da caverna e, se a exploração continuar, esses cilindros terão que ser recarregados com misturas gasosas, de novo.

Foto: Paul Heinerth
Foto: Paul Heinerth

O uso de rebreathers não nos livra completamente destes cilindros auxiliares, já que precisamos ter acesso a uma alternativa em circuito aberto para a eventualidade de uma falha no rebreather. Por outro lado, falhas catastróficas são muito raras. A probabilidade de termos que usar esse gás de segurança é muito remota.

Podemos dizer que uma vez preparados, esses cilindros não vão precisar ser recarregados com misturas durante o resto da exploração. É claro que os cilindros dos rebreathers devem ser recarregados após cada mergulho, mas estes têm um volume muito menor do que os cilindros duplos usados para mergulhos em caverna e, portanto, demoram bem menos a serem recarregados. Além disso, um cilindro de três litros, comum em sistemas de circuito fechado eletrônicos, pode durar horas a qualquer profundidade.

Cavernas também podem nos apresentar situações imprevistas, principalmente cavernas inexploradas ou com pouca visitação. Instabilidades geológicas, presença de silt e muita percolação, por exemplo. Durante uma situação de emergência o nosso maior aliado é o tempo que temos para encontrar uma solução para o problema.

Em circuito aberto, o tempo disponível está diretamente ligado ao suprimento de gás disponível ao mergulhador. Nestas situações, a pressão do tempo aumenta a cada ciclo respiratório. O rebreather, por outro lado, oferece segurança estendida. Em situações adversas, o tempo deixa de ser um inimigo e se torna um aliado. Podemos parar, respirar e pensar mais.

Explorações também podem se tornar muito caras. Imaginem só o custo operacional em circuito aberto de uma exploração de um conduto que se desenvolve a uma profundidade de 80 ou 90 metros. O uso do rebreather vai tornar esse custo operacional muito menor, especialmente através do baixo consumo de misturas com gás Hélio. É claro que existem custos operacionais relacionados com o rebreather que não existem em circuito aberto – a cal sodada, sensores de oxigênio (para rebreathers de circuito fechado), manutenção específica – mas estes custos são mínimos quando comparados ao custo do Hélio.

A possibilidade de tempos de mergulho estendidos também traz uma vantagem operacional. Vamos pensar que para acessarmos um determinado conduto de uma caverna temos que nadar duas horas. Cada vez que precisarmos chegar até esse conduto perdemos duas horas de mergulho. Depois de uma navegação dessas seria interessante poder realizar o maior numero de tarefas possíveis e, dessa forma, diminuir o numero de vezes que precisamos fazer esse trajeto. Em circuito aberto, para podermos estender o mergulho além dessas duas horas precisamos carregar uma grande quantidade de gás.

Com o rebreather podemos estender o nosso tempo de mergulho, e assim otimizar cada viagem, realizando um maior numero de tarefas. É claro que existem outros fatores no planejamento desse tipo de mergulho que podem impedir uma exploração muito extensa, como por exemplo, restrições térmicas, o longo uso de pressões parciais de oxigênio, duração do depurador, etc.

Mergulhos estendidos geram um maior estresse térmico ao mergulhador. O gás que respiramos em circuito aberto é frio e seco. Os rebreathers, ao contrário do circuito aberto, minimizam a perda de calor. Por um lado, a reação química que transforma o CO2 em carbonato de cálcio gera calor. Por outro lado, em circuito aberto cada vez que respiramos o gás frio que vem do cilindro estamos resfriando os nossos pulmões e, consequentemente, o resto do nosso corpo. Nos rebreathers o gás respirado vem quente e é reaproveitado, minimizando a perda de calor. Outro ponto importante para mergulhos de longa duração é o fato de que o gás respirado nos rebreathers tem uma umidade alta, minimizando os problemas relacionados com a desidratação.

Foto: Paul Heinerth
Foto: Paul Heinerth

Podemos falar de uma série de benefícios que os rebreathers trazem ao mergulho exploratório e recreativo, mas não podemos nos esquecer dos desafios que eles oferecem. Em primeiro lugar temos que considerar que equipamentos específicos requerem treinamento específico. Isto significa que, antes de podermos mergulhar com um rebreather, devemos passar por um treinamento formal através de uma certificadora de mergulho.

Além do custo de treinamento temos o custo do próprio equipamento. Rebreathers não são baratos. Como em tudo o que fazemos, temos que colocar o custo inicial e o custo de manutenção em perspectiva, e decidir se vale a pena o investimento.

Mergulhar com rebreathers significa aumentar o risco. Assim como na análise de um investimento, precisamos entender a relação risco-benefício e decidir se vale a pena. Rebreathers são compostos de sistemas de alta pressão iguais àqueles usados em circuito aberto. O risco aumenta com o uso de outros sistemas.

No caso de rebreathers de circuito semi-fechado temos o sistema de depuração. Em sistemas de circuito fechado temos a adição de computadores, sensores e válvulas de adição. É claro que existem procedimentos específicos para lidar com cada uma das falhas, mas eles também dependem da atenção do mergulhador. O acúmulo de tarefas pode levar a uma falha humana.

Apesar do custo inicial elevado e dos riscos adicionais, nos últimos anos os rebreathers começaram a aparecer como ferramentas úteis aos mergulhadores técnicos e de caverna. Na Europa e nos Estados Unidos é comum encontrar mergulhadores que vão fazer mergulhos “recreativos” em cavernas com rebreathers. Eles usam estes equipamentos pelas mesmas razões que um explorador os utiliza e que mencionamos anteriormente.

Foto: Paul Heinerth
Foto: Paul Heinerth

Recentemente tive a oportunidade de mergulhar com um rebreather de circuito fechado em duas cavernas em que já havia mergulhado em circuito aberto diversas vezes. Os mergulhos em circuito fechado foram “um pouco” diferentes dos que havia feito em circuito aberto.

No parque estadual de Peacock Springs, ao norte da Flórida, existe um grande sistema de cavernas com várias entradas acessíveis aos mergulhadores.

Um dos mergulhos considerados clássicos nesse local é a travessia de Orange Grove para Peacock I, também chamada de Mile Run. Este mergulho costuma durar cerca de duas horas, nadando a maior parte com uma leve correnteza a favor, e aproveitando as entradas de Challenge e Olsen para recalcular o terço do suprimento de gás. Em circuito fechado fiz o que nunca me havia passado pela cabeça – sair de Peacock I, visitar a placa em Orange Grove, e voltar até Peacock I, sem parar em Olsen ou Challenge, nem na ida nem na volta. Três horas e meia de mergulho, 520 litros de ar e 400 litros de oxigênio consumidos durante todo o mergulho !

Para um mergulhador friorento como eu, fazer este mergulho em circuito aberto significaria ter passado um frio de lascar, mesmo com roupa seca. Também teria urinado o mergulho inteiro, ficado desidratado e com maior risco de doença descompressiva. Sem falar no peso e tralha que precisaria carregar.

Outra caverna que tive a oportunidade de revisitar foi Eagle’s Nest, na região de Tampa. Esta é uma das cavernas mais profundas da Flórida e tem uma interessante configuração. O mergulho começa em uma bacia que se desenvolve na forma de um funil. No final desse “funil” encontramos o salão inicial e a partir deste salão se desenvolvem dois túneis, o downstream e o upstream.

Foto: Paul Heinerth
Foto: Paul Heinerth

Um terceiro túnel, o Lockwood, se desenvolve a partir do downstream. Estes túneis têm profundidades que chegam a quase 100 metros e o mais longo se estende por quase 700 metros.

Mergulhar em circuito aberto neste sistema significa gastar uma bela grana em misturas gasosas com Hélio, além dos gases de descompressão. Em dois mergulhos que fiz usando um rebreather de circuito fechado – com profundidades de 85 e 83 metros, o primeiro com cerca de duas horas e meia de duração total e o segundo com cerca de duas horas – gastei 300 litros de heliox 12/88, cerca de 500 litros de oxigênio, e mais um pouco de ar para encher a asa. Se eu fosse fazer os mesmos mergulhos em circuito aberto teria respirado cerca de 4000 litros de heliox, em cada mergulho !

Os rebreathers são cada vez mais populares, especialmente entre mergulhadores técnicos. A relação custo-benefício é favorável a partir do momento em que mergulhos profundos se tornam parte do cotidiano de um mergulhador técnico. A relação risco-benefício é mais complicada de ser estabelecida. Por um lado, cada mergulhador tem uma forma de encarar o risco.

O que é um risco inaceitável para uns é um procedimento padrão para outros. Por outro lado, o fator que mais contribui para o aumento ou diminuição do risco é a atitude do mergulhador. Mergulhar com rebreathers é potencialmente mais arriscado do que se mergulhar em circuito aberto, e quanto mais sofisticado o rebreather maior é o risco potencial. De qualquer forma, é preferível ver um mergulhador consciente mergulhando em um rebreather do que um “tigrão” mergulhando em circuito aberto.

Agradecimento especial: Paul Heinerth

José Mário Ventura
José Mario Ventura é arquiteto com especialização em Planejamento Urbano. Mergulha desde 1992 e se formou instrutor em 2001. Atualmente é proprietário e ministra diversos cursos na escola Haloclina, em Campinas, onde é IDC Staff Instructor pela PADI, instrutor em diversas especialidades PADI. É instrutor de primeiros socorros EFR, instrutor de mergulho técnico pela DSAT, instrutor de mergulho técnico e de caverna pela IANTD, e instrutor trainer dos programas de segurança do mergulhador da DAN. Mergulhador credenciado em diversas especialidades de mergulho, entre elas: Full Cave, Trimix, Sidemount, O2ptima Rebreather, Drager Dolphin Rebreather, CCR Cave e CCR Trimix.