Reguladores de Titânio X Oxigênio e Misturas Nitrox

Muitas vezes tomamos conhecimento de importantes aspectos sobre os equipamentos de mergulho, e que nem sempre são muito divulgados.

Anos atrás, um dos participantes de um fórum na internet, questionou o uso de reguladores fabricados com o primeiro estágio em titânio, e se de fato, haveria algum risco quanto ao uso do mesmo com stages de oxigênio e misturas nitrox.

Levando em consideração que um regulador fabricado em titânio custa hoje nos Estados Unidos mais de U$ 1.000, a grande maioria irá imaginar, que pelo preço, logicamente não haverá problemas e que um equipamento com esse custo e com toda tecnologia envolvida, teria uma utilização igual aos demais modelos do mercado.

O que essa grande maioria não sabe, é que se um mergulhador utilizar um regulador de titânio com oxigênio, por exemplo, ele poderá cometer um “suicídio.

Titânio como metal

O Titânio é um elemento metálico muito conhecido por sua excelente resistência à corrosão, quase tão resistente quanto à platina, e com grande resistência mecânica. Ele possui baixa condutividade térmica e elétrica. É um metal leve, forte, de fácil fabricação e com baixa densidade (40% da densidade do aço).

Ele é tão forte quanto o aço, porém, 45% mais leve e 60% mais pesado que o alumínio, mas sendo duas vezes mais forte que este último. Essas características fazem com que o titânio seja muito resistente contra os tipos mais usuais de fadiga.

Porém, como tudo na vida, o titânio tem o lado negativo, pois quando aquecido, o titânio queima e também é capaz de queimar quando imerso em nitrogênio gasoso. Ele é resistente à dissolução nos ácidos sulfúrico e clorídrico, assim como, à maioria dos ácidos orgânicos, mas o fato dele queimar quando relacionamos aos gases, o cenário muda muito quanto ao mergulho.

Por ser um metal inflamável, o uso de titânio com misturas ricas em oxigênio acaba tendo grandes limitações.

Um regulador pode até pegar fogo, em virtude da alta pressão e velocidade extremamente rápida quanto ao transpasse do oxigênio pelo primeiro estágio em titânio, gerado pelo calor excessivo devido ao uso de misturas ricas em oxigênio. Inclusive, é possível ocorrer uma ignição e consequentemente uma grande explosão. O titânio e o oxigênio, infelizmente não se dão muito bem…

Atualmente os fabricantes de equipamentos de mergulho consideram a utilização segura dos reguladores de titânio com misturas de até 40% de oxigênio no máximo. Esse aspecto é desconhecido por muitos profissionais e raramente divulgado pelos fabricantes, pois infelizmente o mercado tende a não expor com clareza esse tipo de informação.

No que diz respeito à recarga, transferidores, sistemas de conexão, manômetros e outros, não devem ser fabricados em titânio ou alumínio, por serem materiais que queimam.

Outro aspecto que poucos sabem, é que a utilização de oxigênio puro (100%) em cilindros de alumínio, também não é recomendável. Aliás, alguns manuais de cursos de mergulho técnico, indicam o uso de cilindros de aço para stage, e não os cilindros de alumínio.

Segundo um artigo da Compressed Gas Association (CGA), relata que os cilindros de aço com oxigênio puro e que de alguma forma tiveram entrada de água salgada, acabam tendo uma destruição muito rápida num prazo de 30 a 60 dias. Ao mesmo tempo, a recomendação é não submergir cilindros de aço em água salgada se o mesmo for utilizar oxigênio puro.

Resumindo, para cada lado que se corre, encontramos algum obstáculo, mas é preciso estar atento as especificações dos produtos e saber utilizá-los de forma correta, utilizando materiais compatíveis com oxigênio, ter ciência dos produtos que queimam com altas temperaturas e impedir uma possível ignição.

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount). É juiz internacional de apneia pela AIDA e foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008. Produziu documentários sobre as Bahamas, Bonaire, Galápagos e Laje de Santos, visitando mais de 30 países. Foi o idealizador do site Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP), atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.