SS Eugene V. R. Thayer é finalmente identificado

A localização já é bem conhecida pelos caçadores submarinos e pescadores do Ceará e Piauí, estando marcada inclusive, nas próprias cartas náuticas do Brasil.

Desde que mudei para o Ceará, desejava realizar esse mergulho tão especial, mas por conta de toda dificuldade e mito ao seu redor, levamos muito tempo para conseguir mergulhar nele.

Aqui no Ceará, muitos acreditam que não dá para mergulhar no Estado do Ceará, pois o mar é muito agitado. Realmente parte disso não é mito, o mergulho nessa região do país é difícil mesmo. Diria até extremo algumas vezes, mas é incrível e dispomos de excelentes naufrágios como o Macau, Siqueira Campos, Remédios, o Famoso Pecém (Baron Deshmond), Vapor do Paracuru e o Petroleiro do Acaraú, que é o motivo desse artigo.

Visitando o naufrágio do Acaraú

Creio que a pelo menos um ano e meio, tenho tentado agendar essa expedição para o petroleiro do Acaraú, porém, sem sucesso. Com diferentes equipes, sendo umas duas ou três vezes nesse ano de 2012. Em janeiro, o mar estava “rolando” muito e não havia visibilidade para mergulho. Em fevereiro, a água ainda não estava boa o suficiente e preferimos não arriscar ir até lá, porque é muito distante de terra.

Hoje, trabalho no Ministério da Pesca, lotado na Superintendência do Ceará, em Fortaleza, e acabo tendo muito contato com os pescadores do Estado, e que sem dúvida, acaba abrindo muitas portas para a realização de novos mergulhos por aqui. Assim sendo, consegui um bom contato no município de Itarema-CE, de um conhecido e bom mestre, o Claudinho, que conhece e pesca há bastante tempo pela região onde se encontra o petroleiro.

Cheguei até ele através de sua mãe, Glais, que é a presidente da colônia de pescadores Z-19 de Itarema e com quem tenho muito contato.

Já havia cancelado a operação com esse mestre duas vezes, em razão das condições do mar estarem impróprias para o mergulho, até que finalmente tivemos a sorte dele estar retornando de uma pesca no Pará e das condições propícias para a realização dos mergulhos.
Após alguns telefonemas, consegui formar uma equipe com 6 mergulhadores para a expedição até o então “petroleiro do Acaroa”.

A expedição

Era um sábado, 24 de março de 2012, e finalmente fomos realizar o mergulho nesse naufrágio lendário do Ceará.

Saímos em 3 veículos de Fortaleza, onde o primeiro carro foi mais cedo com os mergulhadores Júlio Sampaio e Nairo Freitas, e nos outros, Eu (Rodrigo Bricks), Gil Mexicano (Agert Gil Gerrero), Alexandre Martorano e Leonardo Maia. O destino era a cidade de Itarema que está localizada no litoral oeste, cerca de 220Km de Fortaleza.

Deixamos Fortaleza às 00:30h de sexta-feira, chegando ao ponto de embarque às 3:30h na manhã. Chovia muito naquele momento, mas embarcamos e seguimos viagem até o naufrágio, localizado 22 milhas náuticas (40Km) mar adentro.

A embarcação era um lagosteiro de madeira, com mais ou menos 11 ou 12m de comprimento, com cabine de proa, e do jeito que foi possível, nos acomodávamos nos beliches e tentamos descansar, pois teríamos pelo menos umas 4:30h de navegação até chegar ao naufrágio.

Pode parecer absurdo, mas aqui no Ceará isso é normal. Mergulhamos em alguns pontos que estão distantes da costa e leva-se muito tempo para chegar.

Alguns dias antes um amigo e caçador submarino, Iran, me disse que esteve no petroleiro no final de semana anterior e que a água estava muito clara, limpa, parada, e que dava até pra ver o naufrágio de cima do barco. Estávamos animados com essas notícias, e as condições eram promissoras, apesar da maior parte do ano não ser possível ir até lá. O melhor período de março até maio.

Não foi bem o que aconteceu, pois durante a navegação, caiu uma tempestade, no estilo dilúvio bíblico e a ondulação 2,5m por causa dos ventos e da corrente.

Quem não está acostumado com os mergulhos no Ceará, fica impressionado com condições normalmente encontradas, pois em muitas ocasiões, é digno de falarmos “Mar em Fúria”. Sem falar que o mergulho é em alto mar, pois estando a 22 milhas náuticas de terra, deixamos de ver qualquer sinal de terra. Sem contar, que o barco de pesca estaria à deriva e sempre existe o risco de quebrar algo. De não ligar quando se dá partida, e coisas do tipo.

O mergulho

Chegamos por volta de 9:30h no naufrágio, as condições melhoraram um pouco e a chuva parou, mas a corrente nos preocupava, porque o naufrágio é muito grande, cerca de 130m de comprimento e a correnteza é forte.

O Claudinho fundeou o barco de modo que a corrente nos deixava quase em cima do naufrágio. Amarrei um cabo com uma bóia para descermos na proa do naufrágio e voltarmos por ele para ser resgatados.

Realmente, apesar do mau tempo, a água estava muito limpa. Aqui no Ceará essa é a melhor época de mergulho (março à julho), e apesar de ser o período de chuvas, é quando a água fica limpa e era realmente possível ver o naufrágio da superfície. Creio que a visibilidade estava em torno de 20m.

Debaixo d´água nosso grupo se dividiu e cada um fez um perfil diferente. Tenho mergulhado exclusivamente com a configuração sidemount nos últimos três anos, e dessa vez não foi diferente. Cai com dois cilindros S80 contendo EAN 33% para realizar um mergulho mais longo, já que o naufrágio era raso.

Primeiro mergulho de 72min, começando pela proa e percorrendo pelo lado direito do naufrágio até a popa, voltando pelo lado esquerdo, vendo os detalhes dos porões e dos pontos de penetração possíveis. Após um intervalo de superfície, fiz outra caída de 45min junto com o Nairo, Gil Mexicano e o mestre Cláudio, que levamos conosco conhecer as belezas do naufrágio que ele já pescou tantas vezes.

Até onde sei, o naufrágio já sofreu muitas dinamitações por um sujeito residente na região, e que normalmente vende os metais dos naufrágios como sucata (bronze dos naufrágios e alumínio dos aviões). Este mesmo sujeito conseguiu acabou com o ponto de mergulho chamado Avião, que não existe mais porque ele retirou todo avião da água pra vender o alumínio da carenagem.

Houve também um quase acidente com outro navio que colidiu contra os destroços do naufrágio do Acaraú, o que destruiu ainda mais sua já frágil estrutura. No mês de abril deste ano, o naufrágio do Acaraú completou 70 anos, fato que nos inspirou a realizar esta matéria.

O naufrágio

Amarramos o cabo no topo de sua proa que está apenas uns 6 ou 7m de profundidade e que desce até 21m na areia, parte mais funda. Apesar da longa distância da costa, ele está naufragado sobre um banco de areia.

Encontra-se em posição de navegação. Na ocasião, estava sem bússola e meus colegas não se atentaram a este detalhe, e ficamos sem saber exatamente para qual direção ele aponta, mas pela direção da correnteza, acredito que ela aponte para nordeste ou algo entre o norte e o leste.

A proa está com as chapas se dissolvendo, expondo as cavernas de metal do esqueleto do navio, o que deixa muitas entradas nos porões da proa que parecem até vitrais com janelas formadas por sua estrutura de metal, uma cena muito bonita.

Na parte superior da proa, ainda existe parte do chão do convés e alguns porões com teto, penetrações “overhead”, mas com chapas já desabando, e com risco e desmoronamento. Um perigo real para quem tentar entrar no local.

Essa é uma parte que apesar de estar por um fio para desabar, ainda está bem completa. No porão da proa, ainda está bem visível, e inteiro, o guincho que recolhia a âncora.

Seguindo para popa pelo boreste, o costado está integro da metade de sua altura para baixo. A outra metade já desabou assim como o convés que já não existe mais. Há diversos porões tanque abertos por cima, pois tratava-se de um petroleiro, ainda com suas escadas longas que vêm desde o fundo até as áreas superiores.

A maioria dos porões já estão sem o teto, e os cacos do teto podem ser vistos no fundo desses porões. Ao passar por cima do naufrágio, a maioria dos porões poderão ser vistos como uma planta baixa, sendo fácil a penetração nesses porões. Alguns são apertados e com refluxo.

No dia em questão, a correnteza estava muito forte no sentido da “bochecha de bombordo para a alheta de boreste”, e alguns trechos tinham que ser “escalados”, agarrando no naufrágio e puxando com as mãos, porque só com as nadadeiras, não conseguíamos vencer a corrente.

Mais ou menos até meia nau no outro lado, lado esquerdo, o costado se dobrou para dentro do naufrágio no sentido em que atua a corrente.

Após a meia nau o navio, está partido ao meio com uma área grande separada em duas partes.

Acabei ficando pouco tempo na popa, pois a corrente estava muito forte e me encontrava bem longe do cabo de descida que estava lá na proa, a quase 130m de distância.

A popa está adernada para bombordo e separada do navio. O grande motor está exposto e infelizmente seu hélice já foi retirado.

A identificação do naufrágio

Como dito anteriormente, não descobrimos a localização do naufrágio, pois já era um naufrágio frequentado há muito tempo pelos cearenses e pescadores do Piauí, mas até então ninguém sabia a real identificação do navio. Todos só o conheciam como sendo o Petroleiro do Acaraú, que teria sido atacado por um submarino na segunda guerra.

Como fomos até lá, tive que verificar no costado e na popa, se havia alguma inscrição para identificar se realmente se tratava do navio SS Eugene V. R. Thayer.

Na popa não encontrei nada, mas na proa, precisamente na bochecha de boreste, achei as letras AYER gravadas em relevo. O restante já estava destruído. Filmei essas letras e podem ser visto vídeo ao final deste artigo.

Indo para o outro lado, na bochecha de bombordo, constavam as letras GE_E.

A letra G não dava ter tanta certeza naquele momento, se era um Q, um G ou um C, porém entre os dois, o Es tinha uma esponja preta cobrindo que tentei retirar, mas não deu certo.

Gravei as letras do boreste em vídeo e antes de gravar do outro lado, acabou o cartão de memória. Posteriormente mostrei as letras ao Gil mexicano que estava comigo nessa parte do mergulho dizendo AYER como ontem em espanhol…

No dia seguinte, um domingo já em casa, comecei a pesquisar pelos naufrágios não localizados do Ceará, e encontrei o petroleiro torpedeado na segunda guerra em abril de 1942 Eugene Thayer. Foi só juntar as peças e começar a escrever esse artigo para divulgar esse achado.

O Marcus Davis já havia feito o levantamento histórico do naufrágio e publicado um artigo, que por suposição, imaginava se tratar do Eugene Thayer, o que nossa equipe conseguiu comprovar. O artigo escrito pelo Marcus Davis pode ser visto clicando aqui.

Ele foi um dos membros convidados para expedição, assim como o Augusto que fez o brilhante trabalho no naufrágio dos Remédios já publicado, porém eles foram investigar dois novos naufrágios encontrados recentemente no litoral leste, em outra extremidade do Estado, e infelizmente não puderam participar dessa expedição.

Vida Marinha

Mesmo o navio sendo um pesqueiro conhecido e bem explorado por pescadores e caçadores submarinos, a quantidade de vida marinha é incrível. Muitas barracudas, cardumes enormes de pampos, guarajubas, galos, piranjicas entre outros cardumes enormes como o de sargos e xilas.

Vimos também alguns galos enormes, um pampo serrambiquara e um bijupirá, ambos gigantescos. Um pequeno mero com uns 50 kg, além de pelo menos uns 10 tubarões lixa, normalmente encontrados nos naufrágios cearenses. Caranhas com mais de 10kg, uma tartaruguinha de pente, raia prego dentro de um dos porões, e o mais incrível, um grupo de arraias xita.

Eu e minha esposa moramos em Fernando de Noronha em 2005, trabalhando em uma famosa operadora de mergulho, e podemos dizer que nunca vimos tantos peixes e com o tamanho que se vê aqui no Ceará.

No fim de junho eu, Martorano, o Leonardo Maia e Nairo voltamos lá com o mestre Claudinho para mergulhar novamente, dessa vez, com condições um pouco melhores. Fizemos apenas um mergulho bem longo para explorá-lo com mais calma em detalhes. Fui com a configuração sidemount, obtendo 105min de fundo com EANx 36, realizando muitas filmagens do naufrágio. Pretendíamos fotografá-lo com equipamento de foto profissional, mas nosso fotógrafo Ithamar não chegou à tempo.

Ficam meus agradecimentos a equipe de mergulhadores Nairo Freitas, Alexandre Martorano, Leonardo Maia e Gil Guerrero e o mestre Claudinho, por toparem embarcar comigo nessa expedição e tornar essa história possível.

Rodrigo Bricks
Rodrigo Bricks é Mergulhador Técnico e instrutor PADI desde 2005 com diversas especialidades.Atualmente faz parte do NEPOM - Núcleo Especial de Polícia Marítima da Polícia Federal em São Luis-MA.Trabalhou em grandes centros de mergulho em São Paulo, Fernando de Noronha como guia da Corveta V-17 e na Republica Dominicana (2006), onde explorou algumas cavernas como Padre Nuestro, Macau Cave e El Chicho. Instrutor especialista em mergulho sidemount em naufrágios, configuração na qual mergulha desde 2009, introduziu o sidemount no estado do Ceará, tendo formado vários mergulhadores nessa especialidade e em mergulho em naufrágios. de naufrágios pouco conhecidos naquele estado.