Stress e a Doença Descompressiva: Estão relacionados ?

Foto: Clécio Mayrink

Introdução

Alguns mergulhadores são admitidos em câmaras hiperbáricas, com sintomas de doença descompressiva, mesmo quando as regras das tabelas descompressivas foram estritamente seguidas. A razão para tal “HIT”, continua sem resposta. A Doença Descompressiva, ou “Bends”, ocorre quando a eliminação do gás dos tecidos do corpo é inadequada, para ficar em paralelo com a taxa de diminuição da pressão externa, resultando numa supersaturação do gás, no tecidos. Essa supersaturação dos tecidos, pode permitir que o gás saia da solução, na forma de bolhas (ou aumentando a proporção do crescimento das fases livres). As bolhas são, primariamente, formadas por nitrogênio (Weinke, 1991).

Em muitas situações tais bolhas, são pequenas em tamanho, e consideradas sub-clínicas. Se o tamanho e a concentração permanecerem abaixo do set-point crítico, o mergulhador deve continuar assintomático. No entanto, relatórios de mergulhadores, sofrendo de DCI (Decompression Illness), em situações em que os distúrbios normalmente não apareciam, levaram ao interesse de se saber outras possíveis causas. Foi sugerido que o mergulhador esteve desidratado e com isso, levando à aglutinação das bolhas sub-clínicas normais e da resultante DCI (Bennet & Elliot, 1975).

Apesar de a desidratação ter sido relacionado com a DCI, alguns mergulhadores, veementemente, negam a desidratação (afirmando que tomaram as devidas precauções), confirmando uma correta hidratação. Em um caso recente, um mergulhador, usando as tabelas DCIEM Canadenses, sofreu uma DCI. Uma revisão, nos fatores que ele reportou ter controlado, incluindo a taxa de ascenso, nível de hidratação, mergulhos recreativos, idade, temperatura, nível pessoal das condições físicas, falhou em descobrir os fatores para uma DCI. No entanto, foi determinado que ele estava sob um alto grau de pressão e Stress. A questão fica então, sendo, se as variações psicológicas resultantes de Stress psicológicos, podem ser fatores que contribuem para a DCS. O propósito deste artigo, é sugerir que os efeitos psicológicos do Stress, têm ramificações nos mergulhadores.

Tipos de Stress

O Stress, inicialmente descrito por Selye (1947), é um estado produzido dentro do organismo, sujeito a um estímulo conhecido como Stressor (ameaça). Ele mais tarde definiu Stress, como um “estado” produzido por uma síndrome específica (Síndrome de Adaptação Geral – SAG), incluindo mudanças dentro do sistema biológico. O aumento do Stress, pode resultar num desempenho enfraquecido, devido ao número de mudanças fisiológicas e físicas. Dois tipos de Stress, encontrados nos mergulhadores, são os Stressors psicológicos e fisiológicos.

Os Stressors fisiológicos são normalmente relacionados com o ambiente, equipamento e condição física. Os Stressors fisiológicos do ambiente, incluem, a temperatura da água, vida marinha, visibilidade e correntes. O Stress relacionado com o equipamento, é geralmente ligado a fraca adaptação do mergulhador ao equipamento a ser usado, e/ou um equipamento em más condições. Uma ineficiente habilidade em nadar, e uma falta de condição física, podem aumentar o Stress, sentido subaquaticamente pelo mergulhador.

Os Stressors psicológicos, encontrados pelos mergulhadores podem ser relacionados com a falta de competência e experiência. A pressão em terra, assim como, a pressão do tempo, são stressors psicológicos comuns (Sharr, 1989,p.68). Mergulhadores também sentem Stress, com pensamentos de possíveis perigos abaixo d’água. Outros Stressors psicológicos podem não ser relacionados com o mergulho, (tensão familiar, excesso de trabalho, problemas inter-pessoais), mas podem ter influência no momento da imersão. Estes Stressors, podem por sua vez, causar um número reconhecido de problemas psicológicos (percepção, resposta, estreitamento mental, pânico; aberrações no comportamento, tal como, olhos arregalados, movimentos descoordenados, irritação, fixação ou comportamento repetitivo, aumento dos erros e erros de julgamento). Finalmente, os stressors psicológicos são conhecidos por produzir reações fisiológicas e com isso, causando mais Stress.

A fisiologia do stress

Wilson e Schneider (1981), reportaram que o Stress pode resultar em 1.400 respostas psico – químicas no corpo (Asterita, 1985). Muitas das respostas fisiológicas do Stress, são o esforço do corpo em resistir à mudança e manter a homeostase. A maioria das respostas fisiológicas identificadas, ocorrem no sistema nervoso autonômico, com mudanças nas respostas endócrinas. A resposta fisiológica mais comum ao Stress, inclui o aumento da pressão arterial, aumento do fluxo sanguíneo para ativar os músculos, diminuição do fluxo sanguíneo para os órgãos que não estão diretamente ligados ao assunto Stress, aumento das taxas do metabolismo celular, aumento da concentração da glicose sanguínea, aumento da metabolização da glicose nos músculos, aumento da energia muscular, aumento da atividade mental e aumento da coagulação sanguínea (Allen, 1986).

Sob condições normais, estas respostas ao Stress podem levar a efeitos positivos no mergulhador, aumentando a resposta física numa situação de perigo. No entanto, com o aumento do Stress, as respostas fisiológicas podem progredir para uma síndrome de pânico psicológico, resultando numa hiperventilação, tensão excessiva dos músculos e câimbra, aumento excessivo dos batimentos cardíacos e dificuldades respiratórias – que representam um estado negativo e destrutivo (Sharr, 1989, p. 66). Como anteriormente mencionado, os dois degraus fisiológicos principais afetados pelo Stress são, o sistema nervoso autonômico e o sistema neuro – endócrino. O estímulo simpatético (Sist. Nerv. Aut.) do coração resulta no aumento do ritmo cardíaco, contrações vigorosas e metabolismo celular miocardial.

A vasoconstrição periférica, resultante do estímulo simpatético, redireciona o sangue para fora da periferia, proporcionando um aumento na circulação, para funções centrais do corpo (talvez este seja um relevante tipo I de DCI nas articulações e pele). No entanto, dentro do sistema respiratório, os efeitos resultantes do sistema nervoso simpatético, incluem a dilatação dos brônquios e a constrição dos vasos sanguíneos locais. Os efeitos acumulativos no aumento do ritmo cardíaco, dilatação dos brônquios e a constrição dos vasos sanguíneos locais (Pulmão), potencialmente diminuem a eficiência dos pulmões, em remover as bolhas de nitrogênio. O estímulo simpatético da medula adrenal, causa a liberação de grandes quantidades de epinefrine e norepinefrine, na circulação.

Os efeitos da epinefre e da norepinefre são similares a do sistema nervoso simpatético. No entanto, o efeito desses 2 hormônios aumenta aproximadamente 10 vezes mais, devido a sua lenta taxa de remoção da circulação sanguínea (Guyton, 1981). A epinefrine causa diminuição no tempo de coagulação do sangue, com concomitante aumento no número das células vermelhas do sangue (Asterita, 1985). Adicionalmente, a atividade física resulta no aumento do liberação da epinefrine e norepinefrine. O cortisol, também chamado de hidrocoristina, é segregada do cortex adrenal. Em situações de Stress físico e emocional, a neuro-resposta age no hipotálamo, causando a secreção do fator de liberação, a corticotrofina, que estimula a pituitária anterior a liberar ACTH (hormônio corticotrofina anterior). A ACTH, causa a liberação do cortisol na circulação (Mcardle, Katch, Katch).

O cortisol tem muitos efeitos no corpo o mais notável é o aumento da gluconeogenis no fígado, aumentando o transporte de aminoácidos, do metabolismo das proteínas e aumentando a mobilização de gorduras para utilização na produção de energia e trocas nas quantidades das células constituintes do sangue (Guyton, Asterita). O cortisol também diminui os níveis do plasma em eosinofilas e linfócitos, com uma resultante diminuição no nível de imunidade. O fator para ativar os músculos macios (SMAF), causa inflamação e pode induzir a uma doença descompressiva, em animais. O Anti-SMAF, causa inflamação nas paredes dos capilares e vazamentos de fluídos sanguíneos para os tecidos, causando um aumento na densidade do sangue.

Os anticorpos C3a e C5a, também podem contribuir para implicações imunológicas e as bolhas de nitrogênio, em contato com as células brancas dos sangue, libertam uma toxina chamada de Radicais de Oxigênio, com resultante inflamação, que pode acelerar a formação de bolhas. Podemos ver o impacto que o Stress tem nos parâmetros fisiológicos, revelando que diversos mecanismos de controle homeostático são afetados. Quando combinados, com os Stresses normais do mergulho, uma diferença nesses mecanismos de controle, pode resultar no aumento da disposição do mergulhador, em ter uma doença descompressiva.

Sinais de alerta do stress

Alguns sintomas fisiológicos, podem incluir, a hiperventilação, pupilas dilatadas e tensão muscular. Podemos ainda citar, a irritabilidade, erros mentais simples, negligência, esquecimento, falta de vontade em completar as tarefas de preparação da imersão (Crotts, 1994).

Prevenção do stress

Muitos métodos para se reduzir o Stress, podem ser empregados e assim aliviar os sintomas do Stress, antes e durante a imersão (Sharr, 1989). Estes métodos incluem os procedimentos descritivos para a imersão, o uso do sistema de parceiro, a prática dos protocolos de redução, tais como, a respiração profunda e técnicas de relaxamento do músculos. O uso de 5 a 10 minutos de meditação e controle respiratório foram mencionados por um instrutor de mergulho (Mount, 1993).

Conclusão

O Stress pode ter efeitos positivos e negativos nos mergulhadores. Cada pessoa tem uma resposta diferente ao Stress. Os mergulhadores encontram o Stress, como resultado do ambiente, fatores físicos e/ou psicológicos. Qualquer resposta fisiológica ao Stress, resultante dos mecanismos de controle homeostáticos, podem render ao mergulhador mais susceptível, uma doença descompressiva. Uma pesquisa maior é necessária, para documentar estratégicas dos mergulhadores e a possível relação, entre causa/efeito do Stress, e a Doença Descompressiva.

Carlos Nelli Borges
Carlos Nelli Borges é Master Scuba Instructor pela PADI, Instrutor de Rebreather pela TDI (E.1211.I) e Instrutor Trainer Rebreather pela RAB (BR-133-02/98), possindo mais de 1.200 mergulhos com rebreathers. Foi representante da Dräger no Brasil entre 1997 e 2000. Atualmente atua como instrutor na África do Sul.