Um mergulho a mais de 200m de profundidade no Mar Vermelho

Como qualquer mergulhador, nem bem saímos da água de um mergulho e já estamos pensando nos próximos…

Depois de muitos mergulhos técnicos nos últimos anos com o rebreather rEvo CCR, decidimos que era hora de explorar melhor a capacidade do equipamento em mergulhos extremos.

Para isso, escolhemos o Mar Vermelho como local para nossa semana de aventuras.

O Mar Vermelho reúne diversas características muito interessantes aos mergulhadores técnicos. Águas extremamente claras, temperatura ideal e excelentes operadoras totalmente equipadas para mergulhos com maior complexidade e com o uso de rebreathers.

A operadora escolhida foi a Orca Dive Club, especificamente a de Safaga. Eles estão completamente preparados para receber mergulhadores de rebreathers e ofereceram total apoio ao nosso projeto.

Reunimos então uma equipe de 20 mergulhadores técnicos e começamos os preparativos e planejamentos.

Paul Raymaekers (fabricante dos rebreathers rEvo), juntamente com Marc Crane, gerente de operações de mergulho técnico do Orca Dive Club Safaga, trabalharam duro por meses para acertarem todos os detalhes da operação.

O primeiro passo foi conseguir autorização para realizarmos mergulhos abaixo de 100 metros de profundidade no Egito.

A “Egyptian Chamber of Diving and Watersports” não só nos deu a permissão, como ofereceu todo apoio a nossa expedição.

Tivemos também o suporte da Hypermed, a câmara hiperbárica de Hurghada e do Dr. Hossam Nassef, que foi responsável pelas avaliações dos mergulhadores antes do mergulho e ficou de prontidão para qualquer imprevisto.

Depois das autorizações obtidas, suporte médico e toda a estrutura de apoio acertada, o próximo passo foi selecionar o time que faria parte da expedição.

Grupo de mergulhadores - Foto: Sebastien Micheloud e Tobias Steger
Grupo de mergulhadores – Foto: Sebastien Micheloud e Tobias Steger

Integrantes

Nossa equipe foi formada por pessoas de várias nacionalidades, uma verdadeira Torre de Babel…

Foi um time formado por excelentes mergulhadores, todos muito experientes em mergulhos com rebreathers e mergulhos técnicos. Só a convivência com todos já foi uma experiência muito bacana.

Planejamento e organização: Paul Raymaekers, em cooperação com o Orca Dive Club Safaga, na figura de seu gerente de operações de mergulho técnico, Marc Crane.

Equipe de mergulho fundo: Paul Raymaekers (Bélgica), Marco Reis (Brasil), Pim van der Horst (Holanda)

Equipe de apoio profundo 1 (120 m): Joël Gallien (França), Frank Robert (Bélgica)

Equipe de apoio profundo 2 (60 m): Wim Vermeire (Bélgica), JP van Mele (Bélgica)

Coordenadores de superfície: Marc Crane, auxiliado por Marc Thierens (Bélgica), Ahmed Salem (Egito)

Equipe de apoio raso (40 m): Arnaud St Jean (França), Johnny Sanders (Holanda), Tom Freibote (Alemanha), Stefan Weiss (Alemanha), Thierry Dedeurwaerder (Suíça).

Equipe de Foto (80 m): Tobias Steger (Alemanha), Birga Weisert (Alemanha)

Vídeo: Massimo Verde (Itália)

Fotos de superfície e sub (até 40 m): Sebastien Micheloud (Suíça), Tobias Steger.

Médico Hiperbárico: Dr. Hossam Nassef (Egito)

Mergulhos

A semana começou com alguns mergulhos rasos, na faixa de 15 aos 30m, para completar o treinamento de alguns novos mergulhadores com o rebreather rEvo e de novos instrutores. Foi ótimo para irmos nos ambientando com a maravilhosa paisagem submarina do Egito.

No quarto dia começamos os mergulhos pra valer, visitando as maravilhosas paredes de coral do Mar Vermelho. Ras Abu Soma foi o local eleito e a profundidade dos mergulhos girou em torno dos 50m, fazendo um multinível até as últimas paradas de descompressão.

Foi possível realizar dois mergulhos de 1:30h e fotografar e filmar muito. Foi como mergulhar em “Procurando Nemo”!

O próximo dia foi de naufrágio, que para a alegria geral, fomos de van até El Gouna, onde embarcamos em direção ao naufrágio Rosalie Moller, naufragado em 08/10/1941, cuja profundidade máxima girou em torno dos 50 m (no areião). A média está em torno dos 35 aos 40m no convés principal.

Aproveitamos neste mergulho para acertarmos o trim dos nossos scooters e cilindros de bailout. Fato interessante… logo que cheguei ao naufrágio, fui “eleito” por um peixe piloto como alvo !

Acho que ele confundiu o scooter com um peixão e ficou colado nele o mergulho todo. Depois de dois mergulhos com cerca de duas horas cada, foi hora de voltarmos a Safaga e prepararmos o próximo dia de mergulho.

O sexto dia foi uma prévia do nosso mergulho fundo. Reunimos todas as pessoas envolvidas e fizemos uma simulação em Panorama Reef, com um mergulho aos 120m. Correu tudo perfeitamente !

Cabos de descida, pessoal de apoio, fotógrafos, filmagem, etc… Foi possível ter uma prévia do visual que nos esperava. Tiramos um dia de folga para descansarmos e estarmos 100% para o mergulho final.

O mergulho abaixo dos 200metros de profundidade

Finalmente chegou o grande dia da expedição !

Estávamos todos ansiosos para cair na água, mas ao mesmo tempo confiantes e relaxados, depois da semana excelente que tivemos e tudo correndo conforme o planejamento.

Para o mergulho, utilizamos os seguintes equipamentos e gases: Paul: rEvo III standard, híbrido Marco: rEvo II standard, híbrido Pim: rEvo III mini, mecânico.

Gases Inboard Tx 5/75 e O2. Para ajustes da PPO a partir dos 100m, utilizamos Tx 10/70 (S80) offboard e além disso eu tinha um S40 com O2 , para qualquer eventualidade.

Cada um de nós carregou 3 cilindros de bailout, com Tx 5/75, 10/70 (conectado como offboard) e 15/50.

Os gases de bailout restantes (Tx 20/30, EAN 50 e EAN 80 e O2) seriam trazidos pela equipe de apoio e trocados nas profundidades adequadas.

Plano de Mergulho

A idéia era atingir a marca de 210m e a partir desta profundidade iniciarmos uma subida, fazendo um multinível e aproveitando o visual das paredes de Panorama Reef.

Nosso tempo planejado de mergulho era de 280 minutos, mas decidimos utilizar o perfil mais conservador dentre os que tínhamos a disposição (tabelas ou os dois computadores Shearwater que estávamos utilizando, um integrado ao rEvo e um em modo de PO constante).

Iniciamos o mergulho utilizando um cabo de descida preparado e com marcações a cada 10m.

Paul e eu descemos utilizando scooters e Pim preferiu descer pelo cabo, sem scooter. A nossa velocidade de descida foi 20 m/min, para tentar diminuir ao máximo os tempos das paradas de descompressão.

Aos 50, 100 e 150m, fizemos uma rápida parada para conferirmos se todos estavam OK e conferir os tempos.

Aos 180m tínhamos um “estacionamento” para nossos scooters. Como a profundidade operacional máxima dos equipamentos era de 180m, decidimos não arriscar e clipamos os mesmos no cabo e seguimos nadando até a profundidade máxima planejada. Isso serviu também para nossa última checagem antes de atingirmos o fundo.

Quando chegamos finalmente ao final do cabo, na marca de 210 metros, percebemos uma pequena diferença entre a marca no cabo e nossos computadores, que marcavam 212 metros. Após nossa checagem de segurança e aproveitarmos por alguns instantes o visual do fundo, iniciamos nossa subida. O mais impressionante foi perceber que a 212 metros de profundidade a luminosidade natural ainda existia e curtimos a subida observando o paredão bem a nossa frente, e sem a necessidade das lanternas.

Subimos até os 180m de profundidade e recuperamos os scooters.

O esforço para nos acompanhar de scooters foi muito grande e o Pim neste momento já estava com a respiração curta e um pouco ofegante. Ele então decidiu passar para o circuito aberto, até se recuperar e dai voltou ao circuito fechado, para completar o restante da deco de maneira mais eficiente.

Encontrarmos nossa equipe de apoio profundo, a cerca de 120m.

Dos 120 até os 60m, seguimos todos juntos, nós carregando os bailouts de fundo e a equipe de apoio com os bailouts intermediários. Aos 60m a parede já não era mais quase visível e então utilizamos um cabo de conexão que nos levou até um segundo cabo de subida, mais próximo a parede. Neste momento nos encontramos também com nossa equipe de apoio profundo 2.

A partir dos 60m, passamos a nos hidratar para melhorar nossa descompressão.

Quando chegamos aos 40m, fomos recebidos pelos mergulhadores de apoio raso, que trouxeram nossos bailout rasos (Tx 20/30 e EAN50) e levaram para a superfície nossos 3 cilindros de gases de fundo. Com tudo sob controle, decidimos explorar melhor o paredão e começamos a percorrer o mesmo lateralmente, nos deslocar para novos pontos na parede, enquanto cumpríamos nossas paradas.

Já aos 20m, uma nova equipe de apoio raso nos encontrou para retirar mais um cilindro.

Com isso, completamos nosso mergulho com apenas um S80 de EAN50 (mais o S40 de O2 que continuava carregando).

A quantidade de vida que encontramos, desde o fundo até a superfície foi incrível. Peixes borboleta, budiões, cirurgiões, garoupas e outros de todas as cores e formas. Peixes leão aos montes e a incrível “Cidade das Anêmonas”. A parede é literalmente coberta por anêmonas com seus peixes palhaços e donzelas.

Após um pouco mais de 4hs de mergulho, decidimos iniciar nossa volta ao cabo de apoio raso, onde tínhamos um cabo nos conectando até o barco principal e a estação de descompressão, que contava com mais cilindros de bailout e onde foi possível liberar de toda a “tralha” extra e completar nossa deco mais livremente.

Durante essa etapa final da descompressão, fomos visitados por todos os mergulhadores que estavam à bordo e por um par de sailfishes.

Após 294 minutos, todos os computadores já tinham liberado nossa subida e saímos da água, um pouco cansados, mas felizes por termos tido a sorte de aproveitar as maravilhas do mergulho profundo no Mar Vermelho.

E como qualquer mergulhador, nem bem saímos da água e começamos a pensar nas nossas próximas aventuras…

Marco utilizou os seguintes equipamentos durante os mergulhos: rEvo, Apeks, Whites e Deep Outdoors, distribuídos pela Mar Mergulho.

Marcos Reis (Marcão)
Mergulha desde 1980 e desde 1985 como mergulhador profissional. Como instrutor de mergulho, formou mais de 2.500 alunos e mais de 200 outros instrutores. Atualmente é coordenador de cursos da escola de mergulho Aventura Esportiva. Além das especialidades no mergulho profissional, é Instructor Trainer TDI e IANTD, Instructor Examiner DAN, certificado Platinum Pro 5.000 SSI e Instrutor de CCR Trimix.