Naufrágio do Arquipélago de Tinharé

Perdido no tempo, ele está localizado em uma região da Bahia conhecida por Costa do Dendê, devido a abundância deste coquilho, um conjunto com  32 ilhas ao sul de Salvador é o destino de milhares de turistas que procuram em praias paradisíacas e com águas calmas.

Uma das ilhas mais procuradas é Tinharé, que dá nome ao arquipélago e abriga a badalada vila de Morro de São Paulo, e Boipeba, conhecida pela Praia dos Castelhanos. Esta praia é chamada assim, por causa de um naufrágio supostamente acontecido em 1535 de uma nau espanhola, chamada Madre de Díos.

Segundo dados históricos, esta nau, sob o comando de Simon de Alcazaba, juntamente com a nau San Pedro, saíram da Espanha em 1534 com 250 tripulantes, entre marinheiros, soldados e colonos, com a missão de encontrar e colonizar as terras pertencentes ao rei espanhol de acordo com o tratado de Tordesilhas. Os exploradores chegaram a seu destino – a atual Patagônia – e fundaram uma colônia batizada “Nueva Léon”, sob o governo vitalício de Alcazaba.

Já no caminho de volta, um motim liderado por Chavos Navarro e Juan Ortiz aborda a nau capitânia durante a noite e assassina Alcazaba tomando controle das duas naus. Ao passar pela costa da Bahia, a nau capitânia – Madre de Díos – encalha nos arrecifes da foz do atual Rio Catu, na ilha de Boipeba. Os 110 náufragos ao chegarem à praia são recepcionados pelos índios pataxós que matam ou aprisionam a maioria dos castelhanos. Sobreviveram apenas 17, que posteriormente são resgatados pela capitânia San Pedro.

Diogo Álvares, o Felipe Caramuru, personagem histórico na Bahia, ao tomar ciência sobre o naufrágio e do aprisionamento dos espanhóis, partiu com destino ao local do sinistro e resgatou quatro sobreviventes.

Contam os atuais moradores da ilha que ainda é possível avistar os restos da nau durante a maré baixa. Inclusive, diversos turistas chegam a Boipeba interessados em visitar este naufrágio tão antigo, mas surge uma dúvida: seria realmente possível que os restos de um naufrágio de 500 anos ainda visíveis e identificáveis ?

Devemos considerar que provavelmente, logo após o encalhe e o massacre dos castelhanos, os pataxós devem ter abordado a nau, realizado um primeiro saque, retirando tudo que os interessasse.

Quando Diogo Álvares retornou para resgatar os sobreviventes, provavelmente deve ter se dirigido até o local e retirado mais peças aproveitáveis deixadas pelos índios. Um terceiro saque deve ter acontecido ao longo do processo de colonização da região. Isso tudo sem contar com a ação do mar sobre a estrutura de madeira da embarcação. Nos primeiros anos toda a madeira teria apodrecido e o que restou, fora coberto pelos corais ao longo do tempo. O que poderia existir, seriam as âncoras, pedras de lastro e alguns canhões de bronze, provavelmente adaptados ao fundo marinho.

O que poderia ser visível na maré baixa ? As pedras de lastro ?  Um canhão em uma posição peculiar ?

Intrigado, decidi fazer alguns mergulhos no local para observar com meus próprios olhos o que seriam os restos de um naufrágio de quase quinhentos anos. Organizamos uma pequena expedição para mergulhar no local partindo da Vila Velha Boipeba, a maior da ilha e uma das mais antigas da região.

Saindo da base da operadora Ocean Scuba, que deu total suporte a expedição, levaríamos em média uma hora e meia de navegação até o ponto e, de acordo com pescadores, a profundidade máxima estaria em torno dos 10m.

Por se localizar na foz de um rio, o mergulho torna-se inviável na maré baixa ou vazante, visto que o rio derrama suas águas escuras na costa. Para desfrutarmos de uma boa visibilidade deveríamos iniciar o mergulho com a maré alta. Saímos pouco antes do estofo, e no caminho, fomos informados por um pescador da existência de uma âncora que ficaria visível na maré baixa.

Iniciamos o mergulho sobre o recife e logo encontramos a âncora. Foi então que tivemos a primeira surpresa: a âncora era enorme !

Estava com uma das “unhas” agarrada no coral e a outra apontando para a superfície, ligeiramente inclinada. Ao redor, formações que revelavam a presença de destroços, mas nada claramente identificável.

Descemos os recifes e seguimos costeando-os a uma profundidade de 8m. A principio nada encontramos até que após uma pequena parede de destroços. Grandes formações circulares com corais, o que me pareceu serem as rodas de propulsão lateral de um navio a vapor, mas não fazia o menor sentido – narcose ? – e descartei esta ideia.

Um pouco mais adiante surgiu o esqueleto de ferro do que seria um grande navio. Seguimos a “viga mestra” na direção do que achei ser a popa para tentar conseguir uma idéia melhor do local. No caminho, grandes cabeços de amarração indicavam se tratar realmente de uma grande embarcação, mas ao chegar à extremidade do naufrágio não consegui identificar as estruturas do leme ou hélice. Retornamos por bombordo ainda por dentro do casco a fim de localizar motor. No entanto, na altura das grandes estruturas circulares o naufrágio começa a se misturar com os recifes tornando difícil a identificação de outras estruturas.

Após o mergulho ficou claro tratar-se de um naufrágio mais recente, no entanto, bem castigado pela ação do mar. Já em terra, após uma breve pesquisa no livro Naufrágios e Afundamentos na Costa Brasileira, surgiu à primeira possibilidade: o navio a vapor chamado Bearn, naufragado em 1865, a 300m da Ponta dos Castelhanos.

Uma pesquisa aprofunda revelou que o Bearn era um navio a vapor de 3.036 toneladas construído em La Ciotat, França e lançado ao mar em quatro de outubro de 1860, possuía 101.7m de comprimento e 11.3m de boca, apenas uma caldeira e um par de rodas de propulsão lateral à meia-nau no lugar do hélice. Foi encomendado pela Compagnie des Messageries Maritimes junto com três outros vapores: o Navarre, o Estramadure e o Guienne, este último, seu irmão gêmeo.

Foi destinado a cobrir a linha Bordeaux – Rio de Janeiro – La Plata, quando em 27 de fevereiro de 1865, encalhou nos arrecifes da Ponta dos Castelhanos na Ilha de Boipeba, BA. Entretanto algumas fontes continham a seguinte observação quanto a sua localização: “Naufragado próximo a Hanos, Brasil.” Ora, ficou evidente que um erro de transcrição ou comunicação ocorreu em algum momento, eliminando o “Castel” do registro deste acontecimento.

Várias fontes confirmavam a primeira hipótese, inclusive, a existência de rodas de propulsão como as que encontrei durante o mergulho na Ponta dos Castelhanos. Mas era preciso de algo mais. Uma imagem ou detalhe que confirmasse sua identidade.

Após vasculhar alguns sites franceses, encontrei a foto de uma maquete de seu irmão gêmeo, o Guienne e…bingo !   Rodas de propulsão lateral  !

Não restavam mais dúvidas. O naufrágio que todos pensam ser uma nau espanhola de quase quinhentos anos é na verdade um navio a vapor francês que completará 160 anos em 2010. Curiosamente, o Guienne que foi convertido para hélice e rebatizado de Gambie, naufragou no litoral norte de Salvador em 1873 apenas oito anos depois e no mesmo estado brasileiro onde seu irmão gêmeo também naufragou, estando este último, não localizado até então.

 

Ilustração de época mostrando o Bearn encalhado próximo à praia.

Marcus Davis Andrade Braga

Formado em publicidade e propaganda pela FIC.

Mergulha há mais de 15 anos, é instrutor de mergulho pela PADI #196258, instrutor de primeiros socorros pela EFR e supervisor de mergulho formado pelo Corpo de Bombeiros do Ceará, instituição para qual presta consultoria. Fotógrafo e pesquisador de naufrágios, já participou de diversas matérias e programas de televisão relacionados a mergulho.

É coordenador do Clube de Mergulho do Mar do Ceará, grupo envolvido no desenvolvimento da prática de mergulho autônomo, na preservação ambiental e na pesquisa e localização de naufrágios no estado.

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