Da Hora II – Um naufrágio que não existe mais

“Tudo que é bom dura pouco”, diz o ditado popular.

Um desperdício de oportunidade para todos… Um naufrágio aconteceu e nada dele sobrou.

Segundo a legislação brasileira, o proprietário de uma embarcação que venha a naufragar, além do enorme prejuízo, pela perda do barco, deve arcar com os custos do desmonte da embarcação, para que a mesma não ofereça risco aos banhistas, e foi o que ocorreu com a embarcação Da Hora II, avaliado em R$ 3 milhões de reais e que veio a naufragar na costa do Rio de Janeiro recentemente.

 

O fato

Às 23h do dia 30 de abril de 2009, a embarcação Da Hora II veio a colidir com a Ilha do Breu, localizada em Cabo Frio. A colisão abriu um grande rombo no casco e consequentemente, o alagamento do porão e casa de máquinas. Duas outras embarcações que estavam por perto atenderam ao pedido de socorro e conseguiram levar a embarcação até a Praia do Peró (Cabo Frio). Apesar de todos os esforços, tudo foi em vão, pois a embarcação veio a naufragar às 2h do dia 1 de maio a uma profundidade de 6m.

Era noite e a embarcação rumava sob o comando do piloto automático, e embora o sonar tenha detectado a ilha se aproximando e ter disparado o alarme indicando que havia algo à frente ou ao redor”, nada foi feito a tempo para impedir a colisão.

No desespero do desastre, a tripulação optou em encalhar o barco na Praia do Peró para salvar os equipamentos eletrônicos. Realmente, como o calado do barco eram de 5m, o barco assentou-se aos 6m de profundidade.

A embarcação ficou praticamente na linha d’água, estando vulnerável as forças das marés e ressacas, impossibilitando um trabalho de resgate submarino para futuro reparo do casco e posterior reflutuação do mesmo.

A cada mudança de maré a embarcação era jogada para a beira mar e seu casco danificando-se ainda mais a cada dia.

Constatado então da total inviabilidade de se poder salvar a embarcação, deu-se início ao trabalho de desmonte da mesma.

 

Foto: Paulo Dias

 

Tudo presenciado

Acompanhei toda a operação dia a dia e lamentava ao ver a dilaceração deste grande guerreiro do mar, que um dia, certamente já havia enfrentado valente e corajosamente as grandes tempestades e trazendo sempre, com segurança, seus tripulantes.

Infelizmente agora, ferido e precisando de ajuda, parecia implorar para que impedissem aquela crueldade. Ele lutou bravamente contra a vontade do Homem e somente se deu por vencido quando da chegada de um trator que rasgou ao meio expondo suas costelas e seu coração.

Incrédulo com o que se passava a meus olhos, fiquei pasmo quando soube que todo o madeirame que estava sendo arrancado, pois soube que não serviria para mais nada, pois o gasto de transporte, tratamento e remodelagem das peças teria um custo muito alto do que encomendar novas peças para a construção de um novo barco.

Agora imagine, tudo aquilo poderia ter se tornado um lindo recife artificial, atraindo vida marinha para aquela praia e contribuindo para o turismo local, no que diz respeito aos mergulhadores.

Toda manhã, ia até o naufrágio para “conversar” um pouco com ele antes que os trabalhadores chegassem.

Fiquei lá até que o último pedaço dele fosse arrancado do mar. Uma lágrima correu de meus olhos e disse: Vai meu amigo !  Vai navegar agora na imensidão Azul do Céu.

Comentando sobre este naufrágio com alguns amigos meus, fui ironizado com a alegação de que não havia mais naufrágio algum para que alguém pudesse ver.

Particularmente, discordo sobre isso. O que fazermos então com celebres naufrágios como o Wizard, Galeão da Rasa, Carolina e tantos outros que hoje estão praticamente desintegrados devido ao efeito do tempo ?

Vamos remover os registros ou guardamos as informações para valorizarmos nossa história ?

Um fato ocorre para ser registrado e não para ser apagado.

Infelizmente, faltou interação entre a Secretaria de Turismo, Operadoras de Mergulho, Capitania dos Portos, IBAMA e com o proprietário da embarcação para que este belo barco, viesse a se tornar um recife artificial, o que iria trazer mais vida marinha para o local, assim como um novo e excelente ponto de mergulho.

Que ao menos a perda deste naufrágio sirva de alerta a todos para que isso não ocorra mais.

 

Ficha Técnica

  • Embarcação: DA HORA II
  • Naufrágio: 01/05/2009 – 0h
  • Posição: 22.51’50″ S / 41.59’03″ W
  • Ano fabricação: 1977
  • Comprimento: 21.95m
  • Boca: 6.5 m
  • Calado: 5m
  • Tipo: Pesqueiro de alto mar
  • Condições atuais: Não existe mais

 

Tribunal Marítimo

Da-Hora-II

Paulo Dias

Paulo Dias mergulha a mais de 20 anos, é Instrutor Silver PDIC (#11332) e Instrutor PADI #1569264, formando um número superior a 500 mergulhadores.

Foi o primeiro mergulhador a utilizar Trimix no mergulho recreativo e sua escola foi a primeira a trabalhar com Nitrox e Trimix no Brasil. Possui certificação TDI como Advanced Nitrox Diver e Extended Range Diver.

Tem como hobby, a pesquisa de naufrágios e a prática de hipismo. Foi integrante do grupo Wreckfinder, grupo voltado a pesquisa e busca de naufrágios na costa brasileira.

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