Recentemente uma foto publicada em um dos meus artigos, chamou a atenção de algumas pessoas, pois eu e meu dupla estávamos com os rostos fora d’água em um bolsão de ar no interior do naufrágio Gonçalo Coelho, na costa de Pernambuco.
Aprendemos nos cursos de mergulho que jamais devemos tirar o regulador da boca, mesmo estando fora da água, como foi o caso acima, mas porque não devemos fazer isso ?
Basicamente os bolsões de ar são formados pelo acúmulo das bolhas liberadas pelos mergulhadores que adentram os ambientes com teto, como acontece muito em naufrágios e cavernas.
Uma boa parte desse gás exalado e acumulado no teto é formado por CO2, também conhecido como gás carbônico, liberado pelos mergulhadores através da respiração em razão da troca de gases feita pelo corpo humano. Nosso corpo absorve o oxigênio contido no ar comprimido dos cilindros de mergulho e exala as moléculas de CO2 através da respiração.
Vale ressaltar, que boa parte do gás exalado pelo corpo humano ainda possui moléculas de oxigênio, pois o corpo não consegue absorver todo o oxigênio contido em uma única inspiração.
Voltando ao gás carbônico, como sabemos, ele não serve como suporte básico de vida, portanto, se o mergulhador remover o regulador da boca e respirar esse gás em um bolsão de ar, entrará em hipóxia e após algum tempo perderá a consciência, tendo como consequência a morte.
Além disso, normalmente nos bolsões de ar encontramos diversos elementos contaminantes e seres marinhos que liberam outros tipos de gases, como o gás sulfídrico por exemplo, e tais gases são extremamente maléficos ao organismo humano. Uma simples inspiração em um bolsão desses e você estará introduzindo em seu organismo gases contaminados e extremamente perigosos.
Caso você encontre um bolsão de ar, jamais deixe de respirar pelo regulador e tenha muito cuidado para que nenhuma parte do teto se desprenda e caia sob sua cabeça. Naufrágios estão em processo de desmantelamento e, normalmente as áreas com bolsões de ar, merecem atenção especial, pois a falta do volume d’água nessa pequena área, acelera o processo de desmantelamento estrutural do naufrágio e diminui a sustentação, tornando uma área de maior risco quando o naufrágio já possui determinada idade.
Encontrando um bolsão de ar, lembre-se de respirar pelo regulador e tenha cuidado ao por a cabeça para fora da água, pois algum objeto pontiagudo do naufrágio poderá causar ferimentos sérios.

Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



