Naufrágios – Aprofundando no Assunto – Parte 2

Tipos de Naufrágios

Quando falamos sobre um naufrágio, necessariamente não significa que estamos falando apenas de uma embarcação. Um naufrágio pode ser de uma aeronave ou algo que tenha submergido por questões alheias.

Hoje no Brasil, a maior parte dos grandes afundamentos está relacionada com os navios a vapor do século 18 e 19, e principalmente por problemas no comando e mau tempo. No passado não existia previsão meteorológica, GPS e mapas com boa definição, além dos equipamentos de navegação atualmente encontrados nas embarcações. Navegar sem instrumentos e sem a tecnologia de hoje, não era simples e os riscos eram bem grandes.

Colisões entre embarcações, mau tempo e encalhes, ocorriam com certa frequência e pouco se escuta sobre naufrágios nos dias atuais tendo esses aspectos como motivos principais.

 

Ponte de comando extremamente simples de um Liberty Ship (Jeremiah OBrien) – Foto: Clécio Mayrink

 

No passado, boa parte da navegação era feita com a utilização de bússolas e sextantes, que permitiam aos capitães navegarem pelo mar traçando rumos e se guiando pelos céus estrelados. O Sistema de Posicionamento Global (GPS) só veio a surgir na década de 90, trazendo grandes benefícios não somente para o transporte marítimo, como tudo hoje em dia, e navegar antigamente sem um sistema de radar, já era o suficiente para que muitos acidentes ocorressem.

Um grande exemplo disso são os naufrágios ocorridos na parte sul da Ilhabela, que é recheada de embarcações naufragadas, pois viam navegando rente à costa brasileira, e com a presença de nevoeiros na região, repentinamente se deparavam com a imensa Ilhabela à frente e sem tempo de parar totalmente o navio, a colisão e o naufrágio eram certos.

Os naufrágios mais comuns em nossa costa são de navios a vapor, que utilizavam o carvão como “combustível” para movimentar os motores da embarcação.

Em nossas águas encontramos também os galões, antigos navios de madeira que utilizavam a vela para navegar.

Encontramos também naufrágios movidos pelos motores a diesel. Estes são naufrágios mais novos e normalmente relacionados com a imperícia dos capitães.

 

Categorias de Naufrágios

Basicamente os naufrágios são categorizados em:

Inteiro

Quando o casco do navio está íntegro (Ex: Corveta Ipiranga);

Semi-desmantelado

Quando há alguma parte do navio ainda inteira e parte desmantelada (Moreia);

Desmantelado

Quando o naufrágio encontra-se em pedaços e já degradados pela ação do mar (Ex: Califórnia)

 

Análises de Acidentes

Antes de mergulhar em um naufrágio, é importante saber os motivos que levaram o objeto ao naufrágio. Seja para estudar um naufrágio recém encontrado ou simplesmente para enxergar e compreender de perto, os indicativos do acidente.

Quando buscamos por informações sobre naufrágios, boa parte dos acidentes está relacionada com a falta de habilidade do capitão diante de uma situação (imperícia) muitas vezes inesperada, e o erro na ação do comando relaciona-se com colisão, encalhe e mau tempo, e somente em casos de alagamento, guerra e na criação de recifes artificiais, o capitão não é o responsável pelo acidente, por motivos óbvios.

Apesar de raro hoje em dia em razão da tecnologia utilizada, em alguns casos o encalhe pode ser adicionado também nessa condição, dependendo do local onde ocorreu o naufrágio, pois em algumas áreas do planeta ocorre a uma grande movimentação do leito marinho, podendo diminuir em muitos metros a profundidade do local por onde o navio passou na ocasião do acidente, sem que a tripulação tome conhecimento sobre essa diminuição na profundidade. Essa movimentação é muito comum em regiões próximas às saídas dos grandes rios e baías, e nesse caso, o acidente é analisado pela Marinha do Brasil e julgado pelo Tribunal Marítimo, um tribunal que estuda os casos e julga os acidentes para determinar os responsáveis pelo acidente e aplicar as penalidades, se for o caso.

Naufrágios por mau tempo e colisão são difíceis de ocorrer atualmente, por causa da tecnologia avançada das embarcações. Hoje um capitão tem a previsão meteorológica em tempo real, navega com mapas de alta precisão por causa das sondagens batimétricas mais precisas por causa das sondas de alta definição e a obtenção das coordenadas através do GPS. Grandes navios possuem modernos sistemas de mapeamento e navegação, gerando vários alertas para a ponte de comando e até alterando (de forma automática) a rota para evitar acidentes. A colisão entre navios ou contra algum objeto pode abrir um rombo no casco, acarretando em alagamento das partes internas da embarcação.

Quando mencionamos “mau tempo”, nos referimos as grandes tempestades e mar agitado, que também podem acarretar na entrada de água nas partes internas do navio.

Já os acidentes ocorridos durante a guerra, normalmente estão ligados aos ataques de outras embarcações, mas principalmente os U-Boats, os temidos submarinos nazistas que causaram um caos durante a Segunda Guerra Mundial e que afundaram muitos navios em todo o planeta.

Recifes artificiais não são acidentes, e sim, uma ação normalmente voltada ao turismo de mergulho e criação de um espaço para a manutenção da vida marinha subaquática.

Explosões também foi o motivo de diversos naufrágios no passado, tendo causas variadas.

 

Museu Marítimo do Chile – Foto: Clécio Mayrink

 

Fontes históricas

Infelizmente o Brasil possui um grupo limitadíssimo de efetivos pesquisadores de naufrágios. Pessoas que vão a fundo ao assunto e que chegaram a escrever alguns livros, inclusive. Elísio Gomes Filho, o Professor Góes e o Nestor Magalhães, são alguns dos brasileiros que efetivamente estudam (ou estudaram) em detalhes alguns naufrágios, sendo o Nestor, provavelmente o brasileiro que mais conhece e visitou naufrágios pelo mundo a fora e sendo uma grande referência sobre naufrágios históricos pelo mundo.

As três referências citadas publicaram diversos conteúdos sobre naufrágios, onde muitos deles foram disponibilizados aqui no próprio Brasil Mergulho e em nossos vídeos do nosso canal do You Tube.

Atualmente o Brasil Mergulho possui o maior acervo de informações disponível no país sobre naufrágios, bastando acessar as fichas dos naufrágios, onde você poderá obter informações, imagens e detalhes que vamos obtendo ao longo do tempo através das pesquisas que realizamos, e principalmente, de diversas colaborações enviadas, permitindo que as fichas de cada embarcação seja atualizada.

O que poderia ser a nossa principal referência, a Marinha do Brasil, infelizmente o assunto “naufrágio” não é um tema de interesse, talvez por ser um assunto desagradável para eles, o que é ruim para nosso país. Nos Estados Unidos, por exemplo, há uma gama em literatura sobre os naufrágios de guerra, com intuito de preservar o passado histórico americano, incentivando não só a leitura, como o conhecimento histórico pelo qual o país (Estados Unidos) passou até se tornar a potência que são nos dias atuais, o que de certa forma, causa ainda mais o efeito patriota nos americanos.

Um bom exemplo da preocupação quanto aos naufrágios de guerra por lá, é o memorial Pearl Harbor, que mostra o que uma guerra pode causar, permitindo as pessoas refletirem sobre todo o ocorrido por lá.

Infelizmente nossa Marinha demonstra não dar tanta atenção ao passado histórico marítimo do nosso país, o e o que temos disponível para a visitação, é muito simples e pouco divulgado. Talvez o museu histórico naval no Rio de Janeiro, seja o único museu voltado aos naufrágios em nossa costa, e o que encontramos por lá, é muito pouco, quando comparamos aos museus de outros países.

 

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Clecio Mayrink

Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.

Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.

Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.

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