Quase que diariamente, tenho visto alguns equipamentos bem antigos sendo anunciados em fóruns de mergulho, onde muitos se referem a reguladores e cilindros com mais de 20, 30 ou 40 anos de uso.
Sabemos que os equipamentos de mergulho em geral são fabricados com matéria prima de alta qualidade, e em alguns casos mais raros, com qualidade mediana ou duvidosa, mas em geral, de excelente qualidade.
Também sabemos que o mergulho não é uma atividade de baixo custo, e os equipamentos tem o seu custo, que de certa forma, é elevado. Logo, queremos aproveitá-los o máximo possível, mas é importante saber a hora de aposentá-los.
Digo isso, porque a tecnologia avança em todos os aspectos, e também, porque o material tem o sua vida útil, onde muitos, vão perdendo seu desempenho, e outros, simplesmente quebram de uma hora pra outra, e justamente nesse aspecto que a coisa pode se tornar perigosa, e o mergulhador precisa estar atento. Além disso, é importante não fazer gambiarras com intuito de prolongar a vida útil deles, principalmente por causa do quesito segurança.
Vamos conhecer a história do Giovani (nome fictício), um mergulhador de 60 anos de idade, com experiência em mergulho e que mantinha seus antigos equipamentos ainda em uso. Essa história mostra que usar equipamentos em bom estado de conservação, tornam o mergulho mais seguro e diminui exponencialmente os riscos.
Equipamentos antigos e gambiarras não combinam com a segurança
Vou contar uma história pra vocês, onde uma gambiarra absurda fez com que o mergulhador perdesse sua vida. Vamos chamá-lo de Giovani, um nome fictício, mas a história é verdadeira e ocorreu alguns anos atrás no exterior.
Giovani tinha 60 anos, gostava mergulhar sozinho e foi encontrado já falecido aos 40 metros de profundidade.
Ele havia saído com uma operadora de mergulho num sábado pela manhã de sol, para mergulhar em um local distante apenas 15 minutos de navegação.
O local era uma pequena ilha com paredões que alcançavam os 40 metros de profundidade, onde temperatura média da água gira em torno dos 28°C, e que eventualmente, recebe uma fraca ou moderada corrente.
O barco saiu no final da manhã tendo um guia de mergulho e três convidados, sendo um deles, o Giovani. Dois convidados seguiram o guia de mergulho e o Giovani acabou descendo sozinho, como estava acostumado a fazer.
Passado algum tempo, o guia de mergulho e os outros mergulhadores retornaram para o barco e não encontraram Giovani. Aguardaram algum tempo, e após vários minutos, começaram a ficar preocupados, até decidirem mergulhar novamente à procura do mergulhador desaparecido.
Infelizmente Giovani acabou sendo encontrado pelo guia de mergulho de outra operadora da localidade, com seu corpo pousado no fundo de areia.
Ele não estava equipado com seu colete equilibrador e cilindro, estando apenas com o cinto de lastro, máscara e nadadeiras. O colete e o cilindro foram encontrados próximos dele, também na areia.
Por motivo indeterminado, Giovani resolveu se soltar do colete equilibrador durante o mergulho, e foi constatado que havia gás suficiente para o retorno à superfície (110 BAR).
Como na maioria dos acidentes, não foi possível identificar o principal motivo que levou à morte do mergulhador, porém, alguns problemas com o equipamento utilizado podem estar diretamente relacionados ao incidente, como o estado de conservação caótica em que se encontravam.
Colete Equilibrador sem válvula de exaustão

Ao chegar ao píer, os equipamentos do Giovani foram verificados pelos mergulhadores e algumas fotos foram tiradas naquele instante.
Na imagem acima é possível visualizar a área da válvula de exaustão na parte inferior traseira do colete. Pela foto não dá pra saber se a válvula se soltou ou se o mergulhador havia realizado o tamponamento do local, removendo a válvula e fechando o buraco com algum acabamento plástico.
De qualquer forma, conclui-se que ele estava sem um item importante do colete, o que poderia ter possibilitado a entrada de água para o interior da câmara do colete, o que eliminaria toda e qualquer possibilidade de controle de equilíbrio do mergulhador.
Colete Equilibrador sem Traqueia e Power

O colete em si não tinha função, digo isto, porque o colete simplesmente não possuía traqueia e power para a inflagem da câmara.
A mangueira de baixa para o enchimento do colete se encontrava enrolada no primeiro estágio regulador.
Regulador sem bocal

O segundo estágio do regulador estava sem o bocal, e provavelmente ele deve ter se soltado durante o mergulho.
O regulador era muito antigo, tendo mais de 30 anos de uso e com o corpo do segundo estágio em material metálico, impossibilitando a fixação adequada do segundo estágio a boca do mergulhador, e consequentemente uma respiração ineficiente.
Levando em consideração que o mergulhador foi encontrado aos 40 metros de profundidade, os efeitos da narcose em meio a um cenário caótico com esses equipamentos, provavelmente deve ter ocorrido um efeito “bola de neve”, onde um problema acarretou em vários outros e colocando o mergulhador em uma situação caótica, até gerar o morte dele.
Conclusões
Obviamente, o relato acima é uma situação totalmente fora da curva e acho que nunca irei presenciar alguém mergulhando dessa forma no Brasil, utilizando um conjunto de equipamentos nesse estado, mas mostra que no mergulho encontramos de tudo um pouco e situações caóticas como a relatada acima, mostrando que o uso dos equipamentos em desconformidade, aumentam as chances de problemas no mergulho.
Hoje vemos antigos equipamentos de mergulho ainda são usados por boa parte dos mergulhadores, e que não se preocupam com o tempo de vida útil e com a manutenção.
É muito comum ver mergulhadores com reguladores com mais de 10/15 ou até 20 anos de uso, onde na maioria dos casos, já nem possuem peças de reposição.
Quando comentamos sobre o uso de equipamentos antigos com os funcionários das fábricas de equipamentos, muitos chegam a ficar surpresos como ainda há equipamentos tão antigos em uso no Brasil, e alguns chegam a comentar coisas do tipo: “como alguém ainda pode estar usando um equipamento tão antigo assim ?”.
Obviamente, para os gringos é mais fácil por que não pagam o absurdo em impostos que pagamos aqui e os equipamentos por lá, saem bem mais em conta, até porque eles ganham em dólar ou em euro, e estamos em um cenário bem diferente, mas preocupante.
Principalmente no caso de reguladores antigos, haverá dificuldade na obtenção das peças de reposição, não só no Brasil como no exterior, e o que mais se vê por aí é gente fazendo adaptações com peças não originais com intuito de manter o equipamento em funcionamento, mesmo que inadequado, ou ainda, dizendo que faz manutenção e na realidade, só lava o equipamento e remove a oxidação, deixando o equipamento com uma cara de “mais novo”, e não resolvendo o problema em si.
Fica a pergunta: Vale à pena arriscar ?
Procure saber a data de aquisição dos equipamentos, cuide bem deles, não os exponha ao sol, realize a manutenção frequente, e ao perceber que um equipamento está perdendo o desempenho ou começa a apresentar sinais que irá apresentar problemas em breve, faça a substituição para garantir a sua segurança.
Não quero dizer aqui que os mergulhadores devem ficar substituindo seus equipamentos toda hora, mas é primordial dar a devida atenção e utilizá-los para os fins ao qual foram desenvolvidos e dentro de um prazo de validade plausível.

Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



