Naufrágios – Aprofundando no Assunto – Parte 3

Identificação de Naufrágios: As dificuldades na pesquisa

Pra quem gosta de mergulho em naufrágios, muito provavelmente sonha um dia encontrar algum que ainda não foi visitado.

A busca por naufrágios é sem dúvida uma atividade trabalhosa e que exige muito tempo, dinheiro e conhecimentos do mergulhador que busca além do mergulho, um fato histórico.

 

Pesquisas

Basicamente, algumas informações sobre naufrágios podem ser obtidas nas principais bibliotecas, mais especificamente através de jornais de época, que em sua maior parte, levavam os fatos aos leitores. Através dessas notícias e pequenas notas, hoje, é mais fácil tentar encontrar o nome da embarcação, tipo, o que transportava, dentre outros detalhes, e em alguns casos, essas informações podem ajudar na localização do mesmo.

Apesar de alguns poucos desacreditarem no poder da Internet, muito provavelmente porque são pessoas atrasadas e desatualizadas com a agilidade e o poder que ela detém, através dela, é possível trocar informações com diversos pesquisadores em todo o mundo, principalmente com os ingleses, que sem dúvidas, é o grupo que mais detém informações do passado histórico dos naufrágios em nossa costa. Através de fóruns sobre história e naufrágios, é possível obter muitas informações, fotos e indicações de publicações editadas no exterior sobre naufrágios.

No Brasil, encontramos alguns pesquisadores de naufrágios sérios e consagrados, como o Professor José Góes (BA – In memorian) e o Elísio Gomes Filho (RJ), que trouxeram muita informação sobre nossos naufrágios. Parte das informações que eles encontraram, foi publicada em forma de artigos aqui no Brasil Mergulho ou em livros que eles lançaram.

A identificação de uma embarcação naufragada pode levar anos, e não se deve identificar a embarcação naufragada sem um embasamento seguro a fim de evitar erros. Quem pesquisa naufrágios, deve cruzar as informações até chegar a uma conclusão final e com embasamento. Infelizmente no Brasil ainda há alguns poucos oportunistas, que com o intuito de realizarem um marketing pessoal para a prospecção de cursos de mergulho, acabam muitas vezes publicando informações erradas como sendo corretas.

Então, procure tomar cuidado com a fonte consultada.

 

Biblioteca Nacional e o Tribunal Marítimo

A grande maioria das pessoas realizam buscam na internet hoje em dia, e a principal fonte de consulta para a obtenção de informações sobre naufrágios desconhecidos para os brasileiros é o site da Biblioteca Nacional.

Antigamente quando residia na cidade do Rio de Janeiro, muitas vezes saía no horário do almoço e visitava a Biblioteca Nacional à procura de informações dos naufrágios ocorridos em nossa costa. Era um trabalho árduo, porque ao chegar à biblioteca, era preciso preencher uma ficha de requisição de acesso, para solicitar os negativos dos jornais fotografados e guardados em forma de banco de slides pela biblioteca.

Também era preciso informar o jornal e o mês desejado para a atendente, aguardar algum tempo para que ela buscasse os slides, para então, colocá-los em uma das máquinas que permitia a visualização do negativo em uma grande tela, que usava um sistema com lentes de aumento e permitia ampliar a imagem do negativo dos antigos jornais, algo totalmente retrógrado para os dias atuais. Passava algumas horas olhando página por página, e em muitas ocasiões, nenhuma informação era encontrada.

Lembro de uma ocasião, onde encontrei uma fotografia em preto e branco de um navio que ainda não havia se tornado naufrágio na época em que a notícia havia sido publicada, e foi preciso pagar e aguardar que um setor da biblioteca realizasse um procedimento com o negativo, para que fosse possível imprimir a imagem em papel fotográfico. Processo caro e demorado, pois acabei desembolsando em torno de US$ 20 na época, por uma simples imagem antiga, e ainda ter que preencher alguns documentos relativos aos direitos autorais da imagem, apesar da imagem possui mais de 70 anos, que pela lei, perderia o direito de propriedade autoral. Uma grande burocracia, pra variar…

Com o avanço da tecnologia, grande parte do acervo da Biblioteca Nacional já foi digitalizado e encontra-se armazenado em um banco de imagens, com a possibilidade de pesquisa por palavras, o que além de evitar a necessidade de ir até a biblioteca, tornou possível selecionar o jornal e realizar uma busca por palavras. Com essa possibilidade em mãos, é possível realizar uma pesquisa mais profunda e rápida, sendo a principal ferramenta por aqueles que estão em busca de informações do passado.

Através desta ferramenta, consegui encontrar muitas informações e até fotografias antigas, possibilitando a atualização das fichas dos naufrágios no Brasil Mergulho, aumentando o banco de informações sobre os naufrágios em nossa costa. Hoje é o maior banco de informações sobre naufrágios disponível para os assinantes do Brasil Mergulho.

Com certa frequência recebemos algumas contribuições de alguns colaboradores, e com isso, vamos trocando e disseminando as informações, o que é muito bom, porque a informação não morre.

Na década de 90 as marcas de GPS dos naufrágios era uma coisa nova, e o Brasil Mergulho foi o primeiro site a publicar a localização GPS de alguns naufrágios, e isso ocorria à medida que a visita era realizada em cada naufrágio. Naquela época chegamos a ter um instrutor publicando marcas erradas, para evitar que os mergulhadores fossem aos naufrágios sem usar o serviço de operação de mergulho dele, e a coisa era tão absurda e arcaica, que no site desse indivíduo havia naufrágio plotado em cima da Serra do Mar, em Angra dos Reis !

Felizmente o tempo passou, as pessoas mudaram, o tal profissional se tornou esquecido pelo mercado e o conceito de pesquisa e divulgação mudou. Hoje a maioria das pessoas que pesquisam naufrágios conseguem obter as informações facilmente, tendo a Biblioteca Nacional como uma boa fonte de dados nesse aspecto. digo boa, porque ainda assim, as notícias publicavam várias informações imprecisas, sendo importante tomar cuidado e não levar a informação encontrada como correta logo de primeira.

Outra grande referência são os acórdãos do Tribunal Marítimo. É possível encontrar muitas informações sobre naufrágios ocorridos em nossa costa (e com detalhes). Nos acórdãos é possível obter as dimensões do navio, tipo de motor e dados sobre o acidente, o que ajuda muito nas pesquisas e na identificação de uma embarcação em si.

Com o acesso aos acórdãos, está sendo possível atualizar as fichas de naufrágios no Brasil Mergulho com mais detalhes, e frequentemente nossa equipe atualiza essas fichas com esses novos dados.

 

Foto: Clécio Mayrink

 

Dicas para pesquisar

Pesquisa por palavras requer algumas dicas básicas. Normalmente digitamos o assunto desejado no campo de pesquisas dos buscadores como o Google, e na sequência, temos as respostas. Mas quando tentamos localizar algum conteúdo sobre um determinado naufrágio em si, a coisa muda bastante, porque normalmente a disponibilidade das informações não são objetivas e o conteúdo é bem limitado.

Considero como fontes primárias os antigos jornais, e usando o site da Biblioteca Nacional, tenho pra mim, que os melhores jornais para as pesquisas são o Correio da Manhã, Jornal do Brasil, Revista Marítima Brasileira e o jornal O Globo (Este último não mais disponível na Biblioteca).

Normalmente inicio as buscas usando esses jornais, para depois, tentar encontrar nos demais. O Jornal Correio da Manhã chega a ter informações do século 18, aumentando as chances de êxito.

Por se tratarem de informações antigas, esbarramos num linguajar diferente dos dias atuais, pois encontramos uma escrita modificada, o que pode interferir nas pesquisas.

Por exemplo, no passado era comum escrever “Lage de Santos” ao invés de “Laje de Santos”. Paraíba se escrevia “Parahyba”, e infelizmente o sistema usado pela Biblioteca Nacional não faz análise por relevância estrutural da palavra, e se você digita “Lage”, o sistema irá exibir somente as páginas com essa palavra, e não irá considerar a palavra “Laje” com J.

Se digitarmos somente a palavra “naufrágio” irão surgir milhares de páginas com essa palavra, e grande parte se refere aos comentários de colunistas sobre “naufrágio do governo” e coisas do tipo, não tendo relação com o naufrágio que tanto desejamos.

Se você sabe o nome do naufrágio, vale à pena digitar a palavra “Naufrágio” e o nome da embarcação desejada, como por exemplo: naufrágio aquidabã. O sistema da biblioteca irá exibir as páginas que contenham a palavra naufrágio e que também tenham a palavra Aquidabã.

Se você digitar “naufrágio aquidabã” entre aspas, o sistema vai considerar uma busca por frase exata, e fará uma pesquisa pelas páginas que contenham as palavras “naufrágio aquidaba” na forma como foram escritas.

Essas opções de busca também se aplicam ao sistema do Tribunal Marítimo.

 

Sites sobre navios e outros meios

Como mencionei anteriormente, muito provavelmente os ingleses são o que mais possuem informações sobre navios que afundaram em nossa costa, e isso se deve, porque no passado eles eram os principais construtores de embarcações de grande porte na época. A cidade de Dumbarton, na Escócia, possui até hoje, diversos estaleiros construindo os mais variados tipos de embarcações.

Alguns anos atrás tive a oportunidade de visitar a cidade e fui conhecer de perto, o museu marítimo de Dumbarton, na Escócia, onde é possível ver como eram fabricados os navios à vapor e obter informações sobre os navios diretamente no banco de registros que eles possuem.

Todo pesquisador de naufrágios deveria conhecer dois dois principais museus de lá, para compreender os diferentes métodos de construção utilizados pelos estaleiros e ter acesso ao banco de informações.

Mas voltando ao assunto, hoje na internet também encontramos diversos sites com informações de antigos navios. Alguns deles são:

  • Lloyds Register
  • Maritime Timetable Images
  • Miramar Ship Index
  • Ship Spotting

Citei somente alguns exemplos, mas há uma dezena deles com acesso gratuito e que possibilitam uma busca por informações dos antigos navios enquanto se encontravam ainda na ativa.

Tenha cuidado com alguns sites. Infelizmente são poucos até onde se sabe, mas inclusive há um site nacional com várias informações incorretas e marcações GPS erradas publicadas de forma proposital, inclusive.

Uma forma que pode ajudar bastante, são as marcações de naufrágios nas cartas náuticas. A Marinha do Brasil costuma marcar em suas cartas, a identificação de naufrágios. O único problema, é que essas marcas geralmente não são precisar, onde inclusive, já identifiquei uma marcação com 1 milha de distância (1.8Km) de erro aproximadamente. Encontrar um naufrágio com um erro tão grande assim, demanda muitas horas, talvez, dias de buscar utilizando equipamentos de alta tecnologia.

Outro detalhe importante, é que a Marinha brasileira até algum tempo atrás, utilizava o padrão “Córrego Alegre” nas marcas GPS, sendo que o padrão mundial é o WGS 84, e quando plotamos uma marca do padrão Córrego Alegre num GPS configurado para WGS 84, dá uma enorme diferença quanto ao posicionamento do naufrágio em si. Então, caso adquira alguma marca da carta náutica, é imprescindível verificar qual padrão ela foi registrada, se foi Córrego Alegre ou WGS 84. Há inclusive, softwares que realizam a conversão de um formato para outro.

 

Foto: Clécio Mayrink

 

Identificando Naufrágios

Ao se deparar com um naufrágio desconhecido, a primeira pergunta que vem na mente é: que naufrágio é este ?

Para tentar identificar é necessário iniciar um trabalho de pesquisa, registrar o local exato do afundamento, bem como, o posicionamento do naufrágio em relação à costa.

Nos primeiros mergulhos é importante registrar algumas informações básicas e, normalmente, o nome do navio não permanece legível no casco. O pesquisador terá que analisar os detalhes da embarcação para refinar as possibilidades, até tentar alcançar um nome. Pelo tipo de embarcação encontrada, já teremos um indicativo da época em que ela fora construída. Por exemplo, confirmando que o naufrágio é um vapor, saberemos o século de fabricação. Identificando o tipo de motor, você conseguirá refinar a data.

Aspectos como navio cargueiro ou de guerra, diminuem o leque de possibilidades.

O encontro de objetos também podem dar um indicativo quanto à origem do navio. No passado era comum a inserção das iniciais do próprio nome do navio ou da companhia a qual ele pertencia em pratos de porcelana e talheres. A escrita em outra língua, “pode ser” um indicativo quanto a nacionalidade da embarcação.

Havendo algum tipo de carga, é importante a identificação dela para saber o que o navio estava transportando. No passado era muito comum o transporte de carvão, e mesmo ele estando muitos anos na água salgada, sua estrutura permanece intacta, facilitando o reconhecimento durante o mergulho.

O principal objeto de um navio é o sino, que na maioria das vezes, conseguimos visualizar o nome da embarcação, mas dependendo do tamanho do naufrágio, é como buscar uma agulha no palheiro, e pra piorar, os piratas de naufrágios buscam rapidamente esse tipo de artefato para furtá-lo. Outros objetos, como canhões, telégrafo de máquinas e a própria hélice, também podem dar pistas sobre a época em que a embarcação foi fabricada.

Uma possibilidade de fonte de informação são moradores e pescadores de alguma localidade próxima, pois em vários acidentes, as informações sobre o naufrágio acaba passando de geração em geração, e há casos em que os náufragos acabaram alcançando às praias pedindo socorro, e esse tipo de fato acaba ficando registrado pelos moradores. No nordeste brasileiro, isso ocorreu algumas vezes, inclusive. Pessoas mais velhas de uma localidade, muitas vezes tem histórias pra contar e sabem o que aconteceu durante um naufrágio próximo da praia, por exemplo.

Outra observação importante é quanto as chapas utilizadas no casco, se foram soldadas ou rebitadas. Navios antigos tinham chapas rebitadas, e navios mais novos, chapas soldadas.

A posição de navegação do navio pode ser um indicativo para a direção que o navio estava se dirigindo. Não é uma certeza, porque antes de afundar, ele pode ter derivado e ter sua posição original alterada, mas se o afundamento foi rápido, essa informação pode contribuir.

No banco de naufrágios do Brasil Mergulho é possível visualizar diversas informações sobre naufrágios em cada estado brasileiro, permitindo um comparativo com as informações de um naufrágio encontrado. Isso possibilita uma análise entre os dados da base de dados com os dados obtidos diretamente no naufrágio encontrado, e talvez, facilitando a identificação.

Procure divulgar o achado, pois outros mergulhadores poderão ter mais informações e ajudarem com as pesquisas, e no final todos saem ganhando.

 

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Clecio Mayrink

Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.

Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.

Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.

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