Os cariocas são privilegiados por terem uma costa com várias praias que permitem o mergulho saindo de praia, e a cidade do Rio de Janeiro não é diferente.
No passado, como não havia muitas alternativas de operadoras de mergulho como hoje em dia, vivíamos tentando encontrar novos pontos de mergulho, e numa ocasião conversando com um cliente da loja em que trabalhei, ele comentou sobre o mergulho noturno no emissário submarino, na tão famosa Praia de Ipanema, na zona sul carioca.
Inicialmente achei estranho, e logo se imagina um mergulho em águas poluídas, mas logo depois, as informações são diferentes do que passa em mente.
O Emissário Submarino de Ipanema
O emissário submarino é uma tubulação utilizada para lançamento de esgotos sanitários ou industriais no mar, aproveitando-se a elevada capacidade de autodepuração das águas marinhas que promovem a diluição, dispersão e o decaimento de cargas poluentes.
O emissário de Ipanema foi construído em 1970, possui um diâmetro de 2.40m e lança os dejetos a 4Km da praia, permitindo que o esgoto seja lançado ao mar sem que ele retorne para a costa.
O mergulho
A dica foi dada e juntamos alguns mergulhadores para realizar o mergulho noturno saindo da Praia de Ipanema durante a semana, em meio ao mar extremamente calmo durante um verão, com maiores probabilidades de águas mais claras.
Um dos mergulhadores do grupo residia na própria Avenida Vieira Souto e bem em frente ao emissário, e a garagem de seu edifício se tornou nossa base para a montagem dos equipamentos.
Era a noite de uma quarta-feira com lua cheia, que iluminava bem a superfície do mar.
Já equipados, saímos da garagem do edifício com o porteiro nos olhando com uma cara do tipo “o que esses malucos irão fazer”, e assim, atravessamos a larga avenida em direção da areia da praia, até alcançar a água. Como já tínhamos encontrado o ponto onde o emissário se mostrava desenterrado, facilmente o encontramos a noite e iniciamos o mergulho seguindo a grande tubulação que ia em direção ao alto-mar.
Como não havia ondas no dia, a entrada na água foi fácil e iniciamos o mergulho analisando a tubulação. Nadando alguns metros, começamos a observar a vida marinha incrustada na tubulação, e assim, prosseguimos com o mergulho observando o aumento na profundidade.
Mais à frente, nos deparamos com duas pequenas arraias que descansavam na areia, ficando assustadas com os feixes de luz das lanternas. No mínimo devem ter pensando “quem são esses malucos aqui ?”.
Durante o mergulho observamos um aumento da vida marinha ao redor da tubulação, até o momento em que encontramos um grande cardume vivendo ao redor dele. Era como se o local fosse um enorme recife artificial, criando um ambiente propício para que os diversos tipos seres marinhos convivessem naquele local.
Chegamos alcançar os 14m de profundidade, e baseados na leitura da carta náutica, desviamos o curso seguindo a orientação da bússola até um acúmulo de alguns rochedos que chegam até os 2 ou 3m de profundidade e distantes 200 a 300m da praia.
Vimos inúmeras garoupas e pequenos badejos vivendo no local, apesar de ser um ponto muito conhecido pelos praticantes da caça-submarina naquela época. Os peixes surgiam curiosos com as luzes, dando as caras para fora das tocas.
Como a profundidade era baixa, o mergulho durou mais de 1h, permitindo a realização do trajeto planejado, alcançando a praia sem problemas. Quando desligávamos as lanternas, era possível enxergar com clareza embaixo d’água, por causa da luz da própria lua naquele dia.
Infelizmente foi a única vez em que estive naquele local, mas foi um mergulho inesquecível, até porque, saímos da água já quase meia noite e com algumas pessoas andando pelo calçadão de Ipanema espantados com o grupo de mergulhadores saindo do mar naquele horário, e atravessando a Avenida Vieira Souto totalmente equipados, mas felizes pela aventura realizada em plena semana de trabalho.
Certamente um momento inesquecível e para poucos.


Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



