Algumas vezes os equipamentos de mergulho possuem características que nem todo profissional do mergulho conhece tecnicamente o funcionamento dos itens, e acaba disseminando informações incorretas, e talvez um dos equipamentos onde haja mais desinformação, sejam os reguladores de mergulho. Reguladores de pistão, diafragma e esforço em joule, são algumas das dúvidas mais comuns, mas há um aspecto onde raramente escutamos a explicação correta… o Sistema Venturi.
Nos últimos anos, os reguladores de mergulho sofreram diversas alterações, sendo uma delas, a inclusão do Sistema Venturi, encontrado em diversos modelos de reguladores.
O principal aspecto relacionado ao sistema Venturi é uma alavanca (ou botão) no segundo estágio do regulador de mergulho, e uma das vantagens que este sistema traz ao mergulhador, é a diminuição das chances de um efeito Free-Flow no segundo estágio, que normalmente é aquele momento em que o segundo estágio “dispara”, soltando o gás em demasia e sem controle e mesmo sem que ninguém esteja respirando, causando um enorme barulho com a saída do gás pelo bocal do segundo estágio.

Sistema Venturi e seu funcionamento
Antes de tudo, precisamos compreender dois aspectos: o físico e o funcionamento do mecanismo que permite a saída de gás para o regulador.
Quando inspiramos no regulador de mergulho, o diafragma flexível dentro do segundo estágio se move em direção à boca do mergulhador e pressiona uma alavanca. Quando essa alavanca se move, ela abre um mecanismo que permite a saída do gás na mangueira para o segundo estágio.
Quando o mergulhador para de inspirar, o diafragma retorna para a sua posição original, deixando também, a alavanca em sua posição inicial, parando o fluxo de gás da mangueira para o segundo estágio do regulador. Essa alavanca fecha a saída de ar, e consequentemente, o gás fica retido no sistema.
Quanto à parte da física, o famoso físico italiano Giovanni Battista Venturi percebeu que a redução na pressão de um fluido, ocorre quando ele passa por uma seção restrita de um tubo.
No caso do gás que passa pelo regulador de mergulho, ao sair de uma restrição, ele se move mais rapidamente em comparação as partículas ao redor, porque há um aumento na pressão, como demonstra a imagem abaixo:

Esta movimentação mais rápida do gás atrai algumas das partículas que estão em movimento lento. Este efeito também é explicado pelo princípio de Bernoulli e no princípio da continuidade da massa. Se o fluxo de um fluído é constante, mas sua área de escoamento diminui, então, sua velocidade aumenta em razão do aumento da pressão. Para o teorema, se a energia cinética aumenta, a energia determinada pelo valor da pressão diminui.
Baseado nesses aspectos, os fabricantes de equipamentos perceberam que poderiam utilizar o efeito Venturi em benefício do mergulhador, e começaram a criar soluções inteligentes para estabelecer o efeito Venturi no segundo estágio e canalizar o fluxo de gás ao mergulhador de forma mais eficiente utilizando o efeito Venturi para ajustar o esforço respiratório e diminuir as chances de um Free-Flow.
Na prática, quando o botão do Venturi é acionado, ele cria uma restrição na passagem do gás da mangueira para o segundo estágio do regulador, diminuindo a pressão de saída do gás.
Se movermos a alavanca do Venturi para a posição “aberta” (+), o fluxo de gás sai da mangueira para o segundo estágio com mais fluidez por causa do aumento da pressão final. Pela falta da restrição, obtém-se mais fluidez do gás e uma vazão maior. Neste caso, qualquer movimentação do diafragma fará com que a alavanca fique mais sensível e se mova mais facilmente em relação ao seu eixo, permitindo a saída do gás em volume maior.
Mantendo o botão do Venturi fechado (-), a pressão de saída do gás diminuirá consideravelmente, e diminui-se a chance do tão conhecido Free-Flow, normalmente observado na montagem dos equipamentos ou quando pulamos na água.
Nos reguladores encontrados hoje em dia, encontramos o Sistema Venturi de forma simples, com uma palheta no meio do conduto de passagem de gás ao mergulhador, ou por exemplo, o Venturi dentro de uma espécie de câmara de passagem de gás para o segundo estágio, que é muito mais eficiente que o modelo mais simples.

Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



