Não dei sorte com a viagem – Recife com menos de 2m de visibilidade

Por volta do mês de maio do ano 2000, fui obrigado a tirar férias de última hora devido ao cúmulo, e marcar férias em cima da hora é uma coisa terrível, pois os preços são mais altos, a disponibilidade dos hotéis é ruim, ficando tudo mais complicado.

Procuro planejar as viagens com antecedência, planejar e viajar em seguida, não é o tipo de coisa que eu gosto de fazer, mas na ocasião, não teve jeito. Tive que pensar rapidamente em algum lugar pra ir.

Sei que viajar para o nordeste a partir do mês de maio, pode fazer com que não consiga pegar condições boas para o mergulho, mas ainda assim, quis tentar.

Na época conversei com o amigo Fernando Kaltenbach, que era proprietário de uma escola e operadora de mergulho em Recife, e ele me alertou que as condições não estavam boas, mas ainda assim, insisti e acabei indo.

Com aquele sol de rachar e aquele lindo visual da Praia de Boa Vagem, cheguei à capital pernambucana com meus equipamentos e com a esperança de conseguir realizar algum mergulho nos naufrágios fantásticos que essa capital oferece aos mergulhadores, e tão logo cheguei, conversei com o Fernando sobre as condições, e como ele havia previsto, as não havia melhorado.

Feliz por estar com aquele visual da praia e triste por não poder mergulhar, o jeito foi circular e conhecer alguns pontos turísticos próximos, onde tive a oportunidade em ir conhecer o Projeto Peixe-Boi e o Forte de Santa Cruz, em Itamaracá.

 

Foto: Clécio Mayrink

 

Saindo de Recife de carro até o forte, são aproximadamente 50Km de distância que são percorridos em 1h. Depois de conhecer o local, fui para a praia já em Recife curtir um pouco do sol.

No dia seguinte, nova tentativa e nada… sem condições de mergulho.

Ventava muito e o mar continuava ruim. O jeito foi buscar novos pontos turísticos, e decidi pegar o carro e fazer um bate e volta até o Estado da Paraíba, que eu não conhecia.

Longe ?  que nada.

Aproximadamente 120Km separam as duas capitais, num percurso que pode ser feito em 2h de carro, e lá fui eu novamente pegar a estrava pra conhecer as praias de lá. Consegui conhecer o centro, passei por algumas praias até parar em uma delas pra curtir o dia. Jantei por lá e retornei a noite para Recife com alguma esperança de mergulhar em algum naufrágio nos dias subsequentes.

No terceiro dia o mar havia melhorado um pouco e já permitia navegar… bem, navegar pra quem é de lá, porque as condições eram severas pra quem é do sudeste, como é o meu caso. Brincadeiras a parte, o mar do nordeste é mais forte do que estamos acostumados por aqui no Rio e São Paulo, mas as condições ainda não estavam boas para mergulho, e diante do problema, peguei o carro e acabei indo para a cidade de Porto de Galinhas, que na época, não era tão conhecida e cheia como vemos hoje em dia, ainda mais fora de época.

 

Foto: Clécio Mayrink

 

Porto de Galinhas estava pacata, bem tranquila e vazia. Praticamente uma praia particular de um grande resort.

Foi possível realizar um snorkeling entre os corais e curtir o mergulhinho básico.

Como o dia estava mais ensolarado, os mergulhos foram bem agradáveis em razão da transparência da água e pela incidência de luz. Obviamente, um cenário bem distante do esperado, mas já era um mergulho.

Retornando para Recife a noite, converso com o Fernando e ele me avisa que as condições melhoraram, mas a visibilidade estava muito ruim por causa do mar.

Mas visibilidade baixa em Recife ?

E ele confirma que sim. Foi difícil de acreditar e acabei insistindo do tipo “vamos lá ver então”, porque era difícil de acreditar na baixa visibilidade. Acostumado com visibilidade inferior das águas do sudeste, pensei…. Ahhh, baixa visibilidade dele deve ser 10/15m.

Mesmo alertando pra mim e mais um casal sob as condições, ainda assim acabamos indo, praticamente contra a vontade dele, mas acho que perturbamos tanto, que ele acabou topando.

Saímos de Recife pela manhã e logo ao nos aproximar do quebra-mar, já percebemos que o mar mais calmo e um pouco mexido deles era bem diferente ao que estamos acostumados. Víamos grandes ondulações que se fossem no sudeste, era operação cancelada na certa, mas assim fomos.

Após um bom tempo navegando chegamos ao naufrágio Pirapama. Sim, aquele maravilhoso naufrágio onde as fotos saem fantásticas e com 30m de visibilidade, mas com o mar mexido, a cor do mar estava diferente.

Caí na água com o Fernando para amarrar o barco e logo nos primeiros metros a baixa visibilidade era notória, e continuamos a descer.

Depois de quase trombar num cardume de enxadas, alcançamos o naufrágio. A visibilidade não passava dos 2m lá embaixo. Era um vai e vem com a passagem das ondulações na superfície que mexiam com o fundo aos 22m de profundidade !

O desânimo chegou com força, olhei para o Fernando com uma das palavras em mente e que mais odeio… não vai dar… vamos abortar. Toda a esperança de mergulhar havia ido por água abaixo, porque as condições eram bem diferentes das quais estava costumado por lá e acabamos retornamos para a embarcação e depois para o cais.

E assim foi a semana com o mar não melhorando e sem dar condições propícias para o mergulho. Os melhores meses de mergulho por lá, vão de setembro a março. Obviamente, durante o meio do ano, surgem condições de mergulho, mas é sempre uma incógnita, e no meu caso que preciso pegar avião e hotel, a coisa é mais complicada.

Dessa viagem ficou a aprendizagem que não adianta insistir. Se o mar não está “não quer” saber de mergulho, não insista e perca seu o tempo. É melhor passear por terra mesmo.

Ficam os eternos agradecimentos ao paciente Fernando por nos receber e aguentar os mergulhadores que tanto lhe perturbaram e ainda assim, foi com toda a sua boa vontade tentar propiciar um mergulho aos amigos nas águas pernambucanas.

Clecio Mayrink

Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.

Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.

Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.

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