Até onde me recordo, o primeiro computador de mergulho totalmente digital e com cálculos descompressivos em tempo real, foi o Aladin, que era fabricado pela antiga companhia suíça Uwatec.
Se não foi o primeiro, certamente foi um deles.
Era um computador simples de ser utilizado, havendo quatro pontos de toques para configuração e que só funcionavam fora da água.
Por muitos anos mergulhei com o Aladin. Foi um computador sensacional para a época, pois tínhamos várias limitações em equipamentos, além de não serem tão avançados como hoje em dia, mas certamente, foi um computador que deixou lembranças em todos os usuários daquela época.
Como a tecnologia estava longe do que temos hoje, se levarmos em consideração que era década de 80/90, mergulhar com um equipamento desses era algo revolucionário no mergulho, porque ele já realizava todos os cálculos descompressivos para o mergulhador, fazendo com que muitos investissem no equipamento para não ter que usar a tabela descompressiva.
Mas como tudo não são flores, o Aladin tinha um aspecto que incomodava muitos mergulhadores… o famoso SOS.
Quando um mergulhador burlava qualquer tempo da descompressão requerida pelo computador, o Aladin entrava no modo SOS, que exibia a sigla na tela de LCD e começava a apitar, deixando o mergulhador ciente de que não havia realizado a descompressão corretamente, de acordo com os cálculos que ele fez.
Quando falamos em mergulho recreativo, ver um SOS com algum mergulhador era raro naquela época, mas com o surgimento do mergulho técnico, mergulhar com o Aladin era uma dor de cabeça, porque seguíamos tabelas diferenciadas e a saída da descompressão era mais rápida em razão das misturas de gases que aceleram a o procedimento.
Vale lembrar, que o Aladin não havia sido fabricado para o mergulho técnico.
Como não havia disponível no mercado computadores apropriados para o mergulho técnico, ainda assim, muitos mergulhos eram realizados com o próprio Aladin, mesmo estando todos cientes que após o mergulho, ele ficaria travado pelas próximas 24 horas, e como não havia meio de cancelar essa trava, o jeito era esperar o computador destravar só no dia seguinte.
Esse travamento implicava em alguns transtornos para os mergulhadores técnicos, que muitas vezes, queriam mergulhar mais cedo no dia seguinte e não conseguiam, pois o computador ficava inutilizável. Não havia jeito, ele só funcionava após as 24 horas.
Também não era possível fazer o reset do computador, porque não era possível remover a bateria. O compartimento era selado com um fechamento especial por cola, logo, não havia jeito de burlar essa trava das 24 horas.
Digo, não havia, até surgir a ideia da panela de pressão…
A Panela de Pressão
Num belo dia ensolarado, retorno para a embarcação após um mergulho profundo e extenso com vários mergulhadores experientes, até que em dado momento, um deles subiu rapidamente as escadas, e ainda equipado, saiu correndo pra pegar uma panela de pressão que havia sido levada em sua mala de mergulho.
Naquele momento fiquei curioso, olhando e pensando: O sujeito vai cozinhar equipado ?
Ele colocou seu computador Aladin no interior da panela e, quando percebi, havia uma pequena bomba manual do outro lado da mesma.
Com uma das mãos, começou a bombear ar para o interior da panela, fazendo com que aumentasse a pressão interna e até que o computador parasse de ficar apitando. O apito era um aviso de que ele não havia realizado a descompressão que o computador exigia, e como ele utilizou outras misturas e acabou saindo da água mais cedo, conforme outra tabela usada no mergulho técnico, o computador já soltou o alerta e em pouco tempo, iria travar, visando a segurança do mergulhador, se fosse um mergulho recreativo.
No final, o computador ficou lá sozinho no interior da panela de pressão e realizando sua “auto-descompressão” até ficar liberado para um novo mergulho algum tempo depois.
E assim, surgia uma alternativa para não travar o computador Aladin, utilizando uma panela de pressão logo após os mergulhos descompressivos.
Um gambiarra que deu certo.

Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



