Mergulhadores tem mais chances em sofrer da chamada hérnia inguinal, e normalmente isso está relacionado ao esforço e carregamento de peso em demasia.
No mergulho esse esforço ocorre principalmente durante o transporte dos equipamentos e a utilização da configuração que utiliza cilindros duplos, envolvendo principalmente os mergulhadores técnicos e caverneiros.
Lendo uma pesquisa, ela indicou uma incidência maior de casos deste tipo de hérnia em divemasters, e não é difícil imaginar os motivos.
Grande quantidade de peso que transportamos para mergulhar é um aspecto normal, e de uma forma ou de outra, sempre acarretará em algum problema um dia.
Aliás, lembro bem de uma ocasião em que estava descendo as escadas para iniciar um mergulho em uma caverna, e de repente senti uma fisgada com dor muito forte no joelho direito, e para aliviar o peso e a dor, instantaneamente me joguei na água. Inevitavelmente, senti dores posteriores, tive que tomar alguns medicamentos, e só resolvi o problema após um tratamento com fisioterapia.
Naquele dia meu joelho sentiu o excesso do peso transportado e reclamou através da dor local.
No mergulho, principalmente técnico e caverna, carregamos mais equipamentos, e consequentemente uma carga bem acima do que nosso corpo está acostumado, acarretando em algum tipo de problema.
Mas e a Hérnia Inguinal ?
As hérnias são aberturas na parede abdominal, possibilitando através delas, que o conteúdo abdominal se projete para fora. As hérnias inguinais são localizadas na virilha e são as mais encontradas entre mergulhadores e, provavelmente, as mais perigosas durante o mergulho.
Existem outros tipos de hérnia que podem ocorrer, como por exemplo:
- Umbilical (umbigo);
- Incisional (pós-operatório);
- Diafragmática (entre o abdômen e a cavidade torácica);
- Interna (uma alça do intestino através de uma adesão pós-cirúrgica);
- Femoral (outro tipo de hérnia na virilha);
- Dentre outras.
Todas as hérnias são perigosas e, cada uma representa uma ameaça de aprisionamento, estrangulamento (aprisionamento com perda de fornecimento de sangue), obstrução (bloqueio do fluxo intestinal) e possibilidade de morte.
Obviamente, uma hérnia deve ser corrigida, caso contrário, devemos considerá-la uma contraindicação para mergulho até obter a correção satisfatória. O perigo em relação ao mergulho se relaciona principalmente com os efeitos da pressão sobre o gás dentro de uma alça do intestino.
Sem a devida correção, uma hérnia anteriormente assintomática pode ser empurrada para fora através do anel da hérnia e ficar presa. Se isso ocorrer com o esforço, levantamento de cilindros e equipamentos pesados, juntamente com a execução de um mergulho na sequência, o ar retido no intestino poderá sofrer expansão pelos efeitos da Lei de Boyle durante a subida, e o incidente acarretará em uma cirurgia emergencial. Vale lembrar que nem sempre encontramos boas instalações cirúrgicas em alguns lugares onde mergulhamos, sendo um outro transtorno para o mergulhador, caso necessite de uma intervenção cirúrgica.
O retorno ao mergulho após a realização de uma cirurgia de hérnia deve ser feito após a cicatrização completa dos ferimentos e com a anuência do cirurgião. A incisão deve estar completamente cicatrizada e não deve haver outras complicações, como pneumonite ou trombose venosa profunda.
Em cirurgias mais recentes, como a laparoscopia, devem ser aconselhadas individualmente, e geralmente os ferimentos são pequenos.

Passando pelo problema
Alguns anos atrás enquanto transportava meus equipamentos de mergulho em um píer, um amigo notou que algo estava acontecendo comigo. Naquele momento estava sentindo uma pequena dor incômoda na altura da pelve esquerda, o que me forçava a andar mancando um pouco.
Expliquei o que sentia, e coincidentemente, ele havia passado por um processo cirúrgico um mês antes para a correção de uma hérnia inguinal, e os sintomas eram bem parecidos.
Na semana seguinte procurei o mesmo médico que ele recomendou e realizei uma bateria de exames, mas nada foi detectado. Consultei outros dois médicos, realizei novos exames e nada. Os anos foram passando e a pequena dor incômoda surgia de vez em quando. Muitas vezes sumia por um bom tempo, mas depois voltava.
O tempo foi passando e notei que a dor incômoda quando surgia, se apresentava mais intensa. Recebi outra indicação de médico especializado em gastroenterologia, e com isso, nova consulta e novos exames foram realizados. Felizmente algo surgiu dando identidade para a dor incômoda que sentia eventualmente, e eram duas hérnias inguinais, sendo uma de cada lado.
Não sei dizer quanto aos demais tipos de hérnias e, segundo uma amiga médica, não é difícil detectar hérnia inguinal, mas no meu caso foi complicado e ninguém conseguia fazer essa confirmação de forma eficaz. Com a constatação das duas hérnias, outros exames realizados e em meio à pandemia, acabei passando pelo procedimento cirúrgico para a correção dessas duas hérnias.
É uma cirurgia considerada simples e a minha foi realizada por 1h aproximadamente durante uma manhã, e no mesmo dia à noite obtive alta do hospital. No meu caso, o procedimento foi realizado por cirurgia robótica, que possibilita mais precisão e sendo menos invasiva que a cirurgia laparoscópica normal. Segundo os médicos, a recuperação é bem mais rápida quando realizada por robô.
Os médicos recomendam 40 dias de repouso e sem esforço. No meu caso, em apenas dois dias já estava me sentindo bem próximo ao normal, conseguindo andar e realizar as tarefas do dia-a-dia sem dificuldades e/ou dores. Atualmente me encontro em recuperação e sem a sensação de ter passado por uma cirurgia recente.
Acredito que as duas hérnias inguinais que tive, tinham como origem o esforço excessivo e uso contínuo de cilindros duplos de mergulho que transportei ao longo dos anos, aliado a quantidade de equipamentos que transportei para todos os cantos, e não tem jeito, uma hora nosso corpo vai reclamar de alguma forma.
Tentando facilitar o transporte dos equipamentos, de uns anos pra cá, venho utilizando alguns carrinhos entre o carro e a embarcação, o que facilitou muito. Algum tempo atrás cheguei a escrever sobre um excelente carrinho para o transporte de equipamentos da MagnaCart. Saiba mais aqui.
Outro aspecto que deve ser levando em consideração, é o uso da configuração sidemount.
Apesar de ainda preferir o mergulho com cilindros duplos, o sidemount se tornou básico pra mim, porque traz muitos benefícios, sendo um dos principais, a não obrigatoriedade de transporte de cilindros duplos, que são pesados, volumosos, acabam com a nossa coluna e ao que tudo indica, estão num processo lento de fase de extinção.

Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



