As meninas chegaram de vez a um dos últimos redutos reconhecidamente masculinos do mundo do mergulho, e vieram com força mostrando que podem tanto quanto, ou mais do que nós “homensaurus testosterona divers erectus”, figura retórica e licença poética de como uma boa parte dos mergulhadores técnicos se apresentou nos últimos 30 anos.
O mergulho técnico, que leva em consideração profundidades geralmente maiores que 40m; por vezes, limites de tempo estendidos e na maioria dos casos, paradas descompressivas para possibilitar a eliminação do nitrogênio acumulado em excesso (acima dos limites tradicionais do mergulho recreativo), teve por décadas um amplo domínio masculino e no mundo “mergulhês”, significava uma posição de elite, de notória liderança as vezes confundida com uma subliminar permissão para se colocarem acima de outros mergulhadores, os notórios scubinhas.
Essa não era uma máxima de todos os mergulhadores técnicos, mas uma parte, que assim se portavam, acabou criando um estigma nem sempre positivo com relação às atitudes de uma minoria. Infelizmente com o tempo, a figura do mergulhador Tech acabou se confundindo com a de um “super mergulhador”, o que não necessariamente corresponde a verdade. Na minha opinião, são mergulhadores com um pouco mais de experiência e teoria que os demais, fazendo mergulhos mais complicados, e muitas vezes, nem tão divertidos assim. Nada além disso.
Nos últimos tempos tivemos um esclarecimento a respeito do mergulho de uma forma geral e isso nos trouxe a uma nova realidade. Atualmente temos nos níveis de entrada o mesmo número de meninos e meninas começando seus cursos de Open, Avançado, dentre outros, e, essas meninas / mulheres estão aos poucos esgotando seus limites nos ambientes tradicionais e vindo com muita vontade para o mergulho Tech, o Trimix ou ainda, os níveis de Intro to cave e Full Cave.

A imagem que tínhamos alguns anos atrás de um mergulhador Tech, era alguém forte, destemido, que colocava a sua própria segurança e vida em risco, cheio de teorias profundas sobre equipamentos e descompressão e, com um monte de cilindros pendurados no corpo. Lamento informar, mas esse tempo já passou, e as meninas estão gostando dessa brincadeira.
O mergulho técnico envolve um risco presumido e assentido bem maior do que o recreativo, o nível de conhecimento teórico requerido é maior, a quantidade de equipamentos, cilindros, o peso da tralha toda, a sobrecarga de tarefas, a precisão na execução do planejado são barreiras sim, mas não mais exclusividade dos homens. Por muito tempo tivemos uma proporção de homens X mulheres no tech que não correspondia necessariamente a capacidade de cada sexo em lidar com essas variáveis.
Nos últimos tempos tenho visto cada vez mais mulheres exercendo funções na indústria do mergulho que eram “exclusivamente” masculinas. Mais instrutoras, mais divemasters, mais instrutoras de caverna e tech, enfim, as meninas que vieram primeiro contra o “status quo” masculino estabelecido, pavimentaram a chegada de uma nova geração de mulheres. Femininas, inteligentes, ponderadas, independentes financeira e emocionalmente, capazes de lidar com situações complexas com muito mais sabedoria do que nós, homens neandertalus lotados de testosterona que víamos no mergulho tech um nicho para provarmos nossa masculinidade dive.
Se em algum momento houver alguma dúvida da capacidade de uma mulher carregar uma dupla de 15 litros de aço com mais dois cilindros de stage do lado, você precisa ir a uma academia de crossfit, elas são a maioria já, e com cargas de treinamento tão pesadas quanto a dos homens normais senão maiores.
O segredo delas ? Dedicação e ponderação.
Por anos as mulheres foram relegadas a condição de “donas de casa ou mães”, atualmente elas são líderes e chefes na maioria dos casos bem mais competentes que nós homens, diz o cancioneiro popular que elas são multiprocessadas.
Se formos questionar o impacto dessa sobrecarga em uma menina de 1.50m de altura e 50Kg em relação a capacidade de um homem forte no alto de seus 1.80m de músculos, vamos ter que verificar que essa sobrecarga está aplicada em 99,9% do tempo para debaixo d’agua, tanto para homens e mulheres, não necessariamente na superfície.
Adequar acessibilidade para se equipar sem “sofrimento” é necessidade para os dois, portanto, não adianta ter músculos no corpo, ninguém vai correr 100m rasos com uma dupla nas costas. O talento para encontrar soluções inteligentes a fim de proporcionar acessibilidade tem vindo delas, nós neandertalus divers (homens) sempre fizermos questão (em uma boa parte dos casos) de mostrar que a dupla “não pesa nada”, testosterona pura, elas chegaram para provar que podem tanto quanto nós, não precisam ser “super divers”, apenas mulheres que encontraram maneiras de contornar com inteligência a barreira física utilizando o que elas tem de melhor, a inteligência emocional.
Nos últimos tempos tive oportunidade de conviver com mulheres em formação dentro do ambiente tech, chegando ao cúmulo (olhem que absurdo) de estar com 4 alunas fazendo curso juntas, teoria juntas e mergulhos de formação juntas, e posso dizer com toda certeza, preparem-se, elas são melhores que nós “neandertalus tech divers”.
Em momento algum se mostraram fragilizadas por serem menores, pelo contrário, isso foi uma motivação o tempo todo. A ponderação nos debriefings de cada mergulho sempre chegou mais produtiva na média do que em uma turma só de homens, realmente, está sendo uma excelente oportunidade para chegar à conclusão… mulheres, vocês chegaram com força, e meu lado machista se choca em reconhecer, vocês são melhores do que nós na água.
“Neandertalus tech testosterona divers”, nosso clubinho foi definitivamente invadido por elas. Sejam muito bem vindas, nós homens temos muito a aprender com vocês.


Michel Med
Mergulhador e instrutor recreacional, Tech, Trimix e Full Cave.
Possui mais de 20 anos de mergulho com mergulhos nos 5 continentes.
Proprietário da Dive Water Centro de Mergulho em Brasilia.



