Se não estou enganado, a primeira vez que vi algo sobre asa com redundância de power e câmara, foi no final da década de 90, durante os primeiros cursos de mergulho técnico no país.
Caso o mergulhador venha ter algum problema com a asa durante o mergulho, ele terá o power e a asa redundantes para sair da situação indesejada.
Não sei exatamente o motivo, mas pelo pra mim, ficou a imagem de que o mercado acabou adotando as asas com apenas uma câmara e power, e as asas com redundância praticamente sumiram das lojas. Talvez por serem mais pesadas, com mais objetos e pelo baixo índice de incidentes com esse tipo de produto, mas é aquilo, infelizmente algo pode acontecer.
Ao longo de todos esses anos mergulhando com coletes do tipo asa, tinha tido apenas um problema com uma unidade que apresentou um defeito de fabricação no processo de solda da câmara e, felizmente, nunca presencie algum mergulhador tendo problemas com esse tipo de equipamento. Talvez por isso, sempre olhei com certa descrença quanto ao uso das asas com redundância.
Algumas certificadoras até criaram seus requerimentos para os cursos de mergulho técnico, mas de certo modo, raramente vemos alguém fazendo uso das asas com redundância.
Mas é aquilo, algumas vezes precisamos ouvir algum caso ou passar por um problema, para rever os conceitos e buscar mais informações sobre o assunto.

Um incidente
Durante um mergulho profundo com alguns amigos no Stargate, em Goiás, aos 55m de profundidade aproximadamente e com toda a tralha de equipamentos fotográficos, passei por uma situação desagradável, apesar de ter revisado todos os equipamentos antes da viagem.
Aliás, o Stargate talvez seja um dos piores lugares pra se ter qualquer tipo de problema com a flutuabilidade, pois sabemos que a profundidade naquele local ultrapassa os 330m e que ninguém conseguiu determinar até hoje, a profundidade máxima daquele local. Alguns geólogos chegaram a afirmar que a profundidade poderá alcançar os 1.000 / 1.500m, alcançando um imenso lençol freático bem conhecido.
Mas voltando ao incidente, na ocasião, estava utilizando um colete de sidemount e relativamente novo, e durante o mergulho, repentinamente escutei um “estouro”, percebendo logo em seguida, um vazamento relativamente forte no power.
Mas logo no colete ???
Pois é, não acreditei quando constatei a origem do problema, e com o vazamento em andamento, percebi que ele ocorria na junção da mangueira do inflador automático com o pino de engate rápido do power, e pra piorar, com todo o peso e tamanho do meu equipamento fotográfico, tudo fica mais complicado, principalmente porque o mergulho estava sendo realizado na água doce, onde com qualquer descuido, ganha-se profundidade rapidamente em razão da densidade da água, então, tinha que resolver tudo rapidamente e de forma controlada.
A primeira atitude foi manter a flutuabilidade, e na sequência, desconectar e reconectar a mangueira na tentativa de verificar se o vazamento fosse estancado, pois talvez fosse algum encaixe mal feito com o conector, mas infelizmente isso não resolveu após algumas tentativas, e o jeito foi deixar a mangueira desconectada e usar a inflagem manual para finalizar o mergulho.
Se estivesse utilizando uma asa com redundância de câmara e power, poderia continuar utilizando o automático do power e resolver o problema momentaneamente, tornando o mergulho ainda seguro.
Levando em consideração o local, tipo de mergulho e principalmente por não “haver fundo”, obviamente que o uso de uma asa com redundância é mais do que importante para um mergulho como aquele local, por exemplo; e após essa ocorrência passei a achar muito válida a utilização de asa com redundância em mergulhos com mais fatores de risco, como é o caso de Stargate.
Em mais de 35 anos de mergulho, fui ter problema com a inflagem do colete no pior cenário possível para um mergulhador, e felizmente a calma, o treinamento e a experiência, permitiram o gerenciamento e a finalização do mergulho com total controle até sair da água.

Analisando o motivo
Posteriormente analisando o power do colete, percebi que houve um problema de fabricação da estrutura do power, permitindo que o pino de conexão com a mangueira de inflagem girasse em falso com a pressão Incidente sob o local.
Talvez a dilatação do plástico possa ter contribuído a ponto de reduzir a tensão de pressão do conector da mangueira em relação à estrutura do próprio power, e por haver um defeito de fabricação da área de rosqueamento, isso piorou ainda mais a conexão do pino com a rosca, e consequentemente, interferindo na vedação. O jeito foi substituir o power por um novo.
Conclusões
Apesar da revisão, ela não garantiu 100% de eficiência e jamais vai garantir.
Neste mergulho em si, se estivesse usando uma asa com redundância, certamente o mergulho seria mais seguro, e hoje, tenho uma visão diferente para asas redundantes.
Apesar da grande maioria dos mergulhadores não relatarem situações como essa, acho importante esse tipo de divulgação para que outros não passem por situação igual ou próxima.


Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



