Talvez por falta de assunto, recentemente um site publicou uma notícia informando que um mergulhador havia sido atacado na cabeça pelo Big Mama, um Tibarão-Tigre já bem conhecido no arquipélago das Ilhas Fiji, durante um Shark Feeding, mergulho onde os tubarões são alimentados por um guia local.
Diante do sensacionalismo, diversos outros meios de comunicação republicaram a notícia como sendo procedente, chegando a mencionar que o vídeo continha “cenas fortes” e o fato era recente. Na verdade, ocorreu em 2019 e a história não é bem essa.
Na realidade, o Tubarão-Tigre numa determinada hora se voltou para um mergulhador e foi pra cima, mordendo o primeiro estágio do regulador e as mangueiras, como pode ser visto na foto abaixo, e não na cabeça do mergulhador, como todos noticiaram.
Apesar do grande susto, o mergulhador saiu ileso do problema, e o incidente pode ser visto nos vídeos publicados no YouTube.
Mas como é de praxe, sempre a “culpa” é colocada no tubarão, como se ele fosse o errado na história.

Mergulho com Tubarões é realmente seguro ?
Não sou um expert no assunto, mas sempre que me questionam se o mergulho Shark Feeding é realmente seguro, eu sempre digo que é razoavelmente seguro e tudo depende.
Certamente algumas pessoas já irão me criticar por pensar dessa forma, e sinceramente , não ligo pra isso, porque colocam uma opinião como sendo válida e que todos precisam comprá-la, e não concordo com esse tipo de atitude. No caso do tema em questão, acho que precisamos considerar alguns aspectos.
Os mergulhos para alimentar tubarões são muito comuns nas Bahamas, sendo que a maioria dos que aparecem durante a experiência, são os tubarões de recife. Eles simplesmente passam pelos mergulhadores com objetivo de se alimentarem com o que o guia fornece e não estão nem aí para o resto. São mergulhos extremamente seguros e bem interessantes. Apesar disso, tanto nas Bahamas como em outros lugares do mundo, há mergulhos desse tipo onde os grandes Tubarões-Tigre surgem, e apesar de alguns especialistas afirmarem que é extremamente seguro, vejo isso com certo receio.
Mais uma vez volto a dizer, que não sou especialista em tubarões, e minha opinião é baseada em relatos de amigos e outros mergulhadores.
O fato é, que o Tubarão-Tigre é um tubarão diferente. Ele é extremamente observador e, diria, imprevisível e esquisito. Algumas vezes ele se aproxima demais e pode dar uma “investida” pra averiguar o que somos, e aí que está o problema. Tigre é aquele sujeito que você sempre precisa estar de olho o tempo todo, aliás, jamais devemos dar as costas pra qualquer tipo de tubarão. Em todo o caso, o Tigre merece uma atenção bem maior.
É comum ver alguns instrutores afirmarem que tubarão não ataca e isso e aquilo, mas quando mergulhamos, estamos em um ambiente que não é o nosso, os animais são selvagens, podem estar com fome ou com aspectos que favoreçam uma investida, e justamente em momentos como esse, que acredito que algo pode dar errado. Apesar de raríssimos incidentes, quando acontecem, geralmente o resultado pode ser grave e culminando em morte.
Algum tempo atrás em Jupiter, na Flórida, uma operadora de mergulho bem conhecida por lá chegou a dar um “tempo” dos mergulhos com os tubarões do tipo Cabeça-Chata e Tigre em um determinado ponto, porque os mergulhos estavam ficando cada vez mais “tensos”, pois os animais passaram a dar algumas investidas bem agressivas nos mergulhadores. Pra mim, isso é a mesma coisa que ver leões em uma savana bem próximos ao jipe sem proteção. Normalmente nada acontece, mas e se o leão estiver com fome, a posição dos astros forem desfavoráveis e uma série de fatores contribuam para um ataque ?
Muito provavelmente não saberemos quando um momento é bom ou ruim para realizar a atividade.
Pode ser um receio da minha parte, até acho que sim, mas acho que a prática do mergulho precisa ter uma margem de segurança assim como em todos os demais esportes, e não devemos criar riscos desnecessários. Estar em um ambiente que não é o nosso enquanto tudo corre as mil maravilhas, é perfeito, mas um dia algo acontece.
Outro exemplo é realizar um mergulho noturno em locais onde sabemos que os Tigres estão por lá e surgem durante o mergulho, e um destino muito comum disso acontecer é o Arquipélago de Cocos, na Costa Rica. Você enxerga o que o facho da lanterna cobre, e levando em consideração que os mergulhos são em alto-mar, com correntes e com Tubarões-Tigre nas proximidades, não é uma ideia que me agrada.
Acho que mergulhar sob essas condições é abrir margem para um risco desnecessário, e já tomei conhecimento de algumas situações desses mergulhos, onde os mergulhadores tiveram que sair da água bem rápido.
Numa época chegou a notícia que iriam proibir os mergulhos noturnos por lá ou em algum determinado ponto por questões de segurança, mas não sei como ficou isso.
Um ataque é um ataque
Ao mesmo tempo em que vejo a mídia caindo em cima dos tubarões afirmando que houve um ataque, vejo pessoas defendendo os tubarões como algo do tipo “tubarão não ataca”, coitado deles…
Querendo ou não, eles são animais selvagens e somente agem como deveriam para sobreviver, ou seja, seu instinto. Não é culpa deles quando atacam, independente que seja apenas para verificar se a “comida” (nós) é boa ou não, se faz parte da cadeia alimentar, e coisas do tipo.
A mesma coisa com os crocodilos, pois estão em seu próprio ambiente e nós mergulhadores, é que “invadimos” o espaço deles com intuito de curtir um mergulho diferente, para alguns ter algo “radical” ou captar boas imagens.
Devemos saber nossos limites quanto à segurança, não criando riscos desnecessários em um ambiente ao qual não fazemos parte e também não cair em contos de fadas acreditando em tudo que se fala por aí.

Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



