Vou iniciar este texto me apresentando, a fim de contextualizar as minhas impressões quanto ao fato experimentado por mim. Sou jornalista e mergulhador há mais de 30 anos, possuindo mais de 4.500 mergulhos logados, com larga experiência em mergulho técnico e caverna.
Necessário também esclarecer que um Course Director é um dos mais altos níveis de certificação existentes no mercado mundial do mergulho. Em tese, deve (ou deveria ser) ser o profissional com a capacidade para realizar cursos e treinamentos para a formação de instrutores de mergulho, seguindo um código de ética, além de ser um exemplo 100% de um bom profissional na atividade.
Este relato tem como objetivo, ainda que pareça contraditório, demonstrar que uma certificação / título de profissional de mergulhador instrutor de alto gabarito, não qualifica, não gera competências necessárias para atuar no mercado, nem mesmo exige ética e humanidade.
Irei relatar uma situação, que jamais imaginei experimentar, fui abandonado dentro do mar com mais uma colega instrutora de mergulho, de forma proposital com a ciência e aprovação de um Course Director, que liderava o grupo de mergulhadores presentes na mesma embarcação.
O local e os nomes foram omitidos, vez que o caso foi tratado com sigilo pela PADI, e esse texto tem como objetivo relatar essa malograda experiência e deixar a opinião final para o leitor.
O incidente
Em um final de semana qualquer, em um dia frio, resolvi fazer um mergulho embarcado a fim de reposicionar uma obra de arte, que foi deslocada em razão de uma ressaca, que se tornou atrativo turístico em um ponto de mergulho, como já fiz em outras ocasiões, acompanhando uma amiga instrutora.
A embarcação transportava aproximadamente 30 pessoas, entre mergulhadores e tripulantes, sendo que a maioria absoluta dos mergulhadores fazia parte de um grupo liderado por um Course Director da PADI, sendo também, proprietário de uma escola de mergulho.
A ação quanto ao reposicionamento transcorreu durante os dois mergulhos do grupo, no final do segundo mergulho, decidimos realizar uma tração com o auxílio da embarcação utilizando uma corda, contudo, a embarcação apresentou problemas durante o acionamento dos motores, momentos antes de todos subirem no barco para deixar o local. Em razão disso, o piloto da nossa embarcação entrou em contato com outra embarcação de mergulho nas imediações (200 metros de distância) e solicitou a ajuda de um mecânico, um tempo aproximado de 20 minutos (conserto do motor).
Quando tudo foi resolvido, duas instrutoras passaram a ouvir reclamações em forma exaltada, aos “berros”, num completo destempero, por parte do Course Director PADI e, de uma hora pra outra, o “profissional” afirmou estar com pressa e que desejava ir embora, chegando a mandar cortar o cabo de âncora da embarcação e deixar o local imediatamente.
A instrutora que foi minha dupla nos mergulhos, imediatamente informou que desceríamos para soltar o cabo da âncora para partir e solicitou que a outra instrutora subisse no barco, para que eu e ela pudéssemos descer, desamarrar o cabo e irmos embora em sequência. Situação essa normal, para quem conhece uma rotina de mergulho.
Sem questionar, a fim de agilizar, imediatamente descemos para desamarrar o cabo da embarcação e assim que o soltamos, percebemos que o mesmo começou a ser puxado pela equipe de superfície de forma ágil.
Iniciamos a subida dos apenas 8m de profundidade, e ao chegarmos à superfície, a grande surpresa… nosso barco havia ido embora enquanto ainda estávamos submersos !
O barco partiu levando os pertences pessoais e sem qualquer comunicação prévia, como se fossemos objetos descartáveis.
Fomos abandonados ainda em mergulho, após termos feito a gentileza de ter soltado o cabo para que a embarcação partisse e sem saber o motivo daquilo estar acontecendo, posto que ninguém estava passando mal ou correndo risco de vida a bordo da embarcação para que justificasse minimamente o ocorrido.
Ficamos na superfície flutuando aflitos e inseguros com a situação até sermos resgatados pelo pequeno bote inflável de outra embarcação, com o marinheiro dessa outra demonstrando enorme indignação com o que havia presenciado.
Fomos “rebocados” e levados pelo cabo do pequeno bote até uma outra embarcação, sendo necessário aguardar que os mergulhadores desta outra operação terminassem o segundo mergulho, pois só depois, regressaríamos para nossa base, perfazendo 2 horas mais de espera, em meio ao frio, sem toalhas para nos enxugar, roupas secas para vestir, sem meu equipamento fotográfico, malas, drone e a mochila com todo o material seco, identidade, dinheiro e etc.
Ao chegar à base duas horas depois, a instrutora que conseguiu subir no barco antes da partida da embarcação, relatou, assim como outras testemunhas, que Course Director determinou gritando que era para irem embora e que nos deixasse voltar em outra embarcação, sem nos dar qualquer conhecimento dessa decisão e apesar dos alertas dos demais à bordo.
Como um Course Director deliberadamente determina que abandonem mergulhadores em pleno mergulho ou seja, submersos ? Qual o exemplo a ser dado ? Onde está a ética ? Valorização da vida humana ?
Denúncia para a PADI
Apesar de vários profissionais da PADI afirmarem que eu não teria uma resposta compatível à esperada e indignado com a postura do Course Director, ainda assim, na segunda-feira posterior ao incidente, ingressei com uma denúncia no setor de qualidade da PADI, seguindo as orientações passadas pela mesma, preenchendo um formulário e anexando um relatório completo provendo todos os detalhes sobre a situação pela qual passamos.
Todos os documentos foram revisados por mim e pelas duas instrutoras PADI, a que passou pela situação de abandono e a que conseguiu subir na embarcação antes da partida.
No mesmo dia recebi um e-mail da PADI confirmando o recebimento da denúncia e dois dias depois, um e-mail do responsável pelo “controle de qualidade da região envolvida”, informando que o caso seria investigado.
Aspectos que causam estranheza e do conflito de interesses
Três meses depois do fato, o setor de qualidade da PADI apenas entrou em contato com uma das instrutoras com intuito de confirmar o relatado.
Um segundo formulário de denúncia foi preenchido e enviado para a PADI e a outra instrutora que testemunhou o fato, não foi contatada pelo setor de qualidade. Simplesmente não falaram com ela para atestar os fatos como testemunha e, também, instrutora da mesma certificadora do Course Director.
O responsável pelo setor de qualidade e que iria investigar a denúncia, possuía em sua página pessoal no site Linkedin, a informação de que era sócio do Course Director investigado, inclusive o site da suposta empresa de ambos, ainda encontrava-se em nome de uma outra empresa do investigador.
Como um investigador pode realizar uma investigação de uma pessoa que seria ou foi seu próprio sócio?
Decidimos entrar em contato com a central da PADI nos Estados Unidos alertando sobre essa relação comercial entre o investigador e investigado, e informaram que o investigador, responsável pelo setor de qualidade, “não teria mais” relação com esta “aliança”, uma vez que, ele se tornara um funcionário direto da PADI nos Estados Unidos e que as informações presentes em seu perfil no LinkedIn e no órgão de registros de domínios no Brasil, estavam desatualizados.
Após nossos questionamentos, o perfil no Linkedin recebeu uma atualização, sendo inserida uma data “anterior” de termino de relação com a empresa (aliança).
Conclusões
Quatro meses após a denúncia, recebo um e-mail da PADI informando que a investigação havia sido finalizada e que apenas uma instrutora fora chamada para esclarecimentos, confirmando o envio de sua denúncia também.
Ainda segundo o texto do e-mail, uma “ação corretiva” seria executada, mas a PADI não informou exatamente o que foi feito, pois como os mesmos afirmam, toda investigação feita por eles corre sob sigilo, e “somente” se houvesse uma expulsão do Course Director, tomaríamos conhecimento quanto ao fato através do jornal publicado mensalmente por eles. A expulsão não ocorreu, vez que não localizamos qualquer coisa neste sentido.
Apesar de ser jornalista e bastante conhecido no mercado de mergulho, ainda assim, acabei passando por uma situação cruel e desumana, não senti que a PADI tratou com a seriedade e a severidade o caso ocorrido. O que me fez questionar, será necessário um óbito ou uma ocorrência irreversível, para que realmente ocorra uma punição a altura ? E quanto ao desrespeito a vida humana ? Não houve sequer um pedido de desculpas.
Há uma declaração publicada em um site da PADI e escrita por um dos fundadores, que diz o seguinte:
“Um dia os Course Directors da PADI serão a nata da nata, pois são formadores de instrutores que conduzem cursos e treinamentos, mantendo os padrões mais elevados e respeitados do mergulho autônomo recreativo, por passarem por uma rigorosa seleção que examina a experiência e o treinamento de cada aluno previamente”.
De fato, conheço alguns instrutores que são Course Directors da PADI e são profissionais excepcionais, pessoas de alto gabarito técnico, com ética e de referência, mas acima de tudo, humanos e que prezam o bem estar e segurança dos mergulhadores, mas o fato pelo qual passamos foi um absurdo e incondizente com o código de ética que a PADI tanto cita em seus manuais.
A impressão final é que as afirmações feitas de que a PADI não faria nada, realmente estavam certas.

Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



