Madeiras do naufrágio de um galeão espanhol do século XVII foram encontradas na costa norte do Oregon, confirmaram hoje autoridades. Os restos extraordinariamente raros do casco foram removidos de algumas cavernas marinhas próximo de Manzanita, no início desta semana, durante uma missão de recuperação de emergência envolvendo arqueólogos, equipes de resgate, polícia e outras agências.
Acredita-se que a dúzia de madeiras sejam pedaços do galeão espanhol Santo Cristo de Burgos, que navegava das Filipinas para o México em 1693 quando desviou do curso e acabou desaparecendo. Sua carga incluía seda chinesa, porcelanas e blocos de cera de abelha para fabricação de velas.
Esse galeão era de Manilla, um tipo de embarcação de madeira que navegava por uma rota comercial anual entre as colônias espanholas nas Filipinas e no México de 1565 a 1815, período que marcou a primeira era do comércio global. Os navios europeus foram construídos em portos asiáticos. Houveram muitas perdas de embarcações de madeira que cruzavam o perigoso Oceano Pacífico, e poucos naufrágios como o o galeão Manilla foram encontrados. Apenas três foram encontrados e identificados na costa oeste das Américas, um no Oregon, outro na Califórnia e Baja Mexico.
Indicativos do naufrágio
Havia pistas de que um naufrágio estava escondido em algum lugar da costa, desde pequenos pedaços de porcelana azul e branca até grandes pedaços de madeira jogados nas rochas ou enterrados na areia. Uma seção do convés superior de um navio de madeira era visível na foz de um rio próximo de Manzanita até a década de 1920. E histórias orais das tribos indígenas da região dizimam que um navio estrangeiro teria naufragado na área tempos atras e a tripulação desembarcou e foi para destinos variados.
À medida que os colonos brancos chegaram a esta costa ouvindo os relatos dos nativos americanos, contando histórias cada vez mais fantásticas de riquezas escondidas. No final do século 20, lendas locais de tesouros e galeões, até mesmo a busca por eles, apareciam regularmente nas páginas dos jornais do Oregon.
Tsunami
Por volta do ano 2000, um grupo de pesquisadores e membros da comunidade, decidiram verificar as histórias, formando a Sociedade de Arqueologia Marítima (SAM), estudando milhares de peças de porcelana chinesa coletadas nas praias ao longo dos anos, e conseguiram determinar que eram do período Kangxi (1661-1722). A cerâmica chinesa e os blocos asiáticos de cera de abelha com marcações espanholas levou a conclusão que o Naufrágio da Cera de Abelha devia ser um dos dois galeões de Manilla que desapareceram entre 1650 e 1750, sendo o Santo Cristo de Burgos, perdido em 1693 ou o San Francisco Xavier, que desapareceu em 1705.
A princípio, os arqueólogos suspeitaram que o Naufrágio da Cera de Abelha fosse o São Francisco Xavier de 1705, pois em 1700, um forte terremoto de magnitude 9 atingiu a costa oeste, provocando um enorme tsunami.
Posteriormente um estudo geológico revelou uma a área próxima do Rio Nehalem, onde cera de abelha, porcelana e pedaços de um navio de madeira haviam sido encontrados, estando sob e dentro da camada de sedimentos deixada pela onda estimada de 7m de altura que atingiu a costa. Isso significava que o misterioso naufrágio já devia estar lá quando o tsunami atingiu em 1700.
Um catálogo de navios espanhóis publicado na década de 1930, afirmava que segundo os registros espanhóis, o Santo Cristo teria naufragado em algum lugar no meio do Pacífico., contudo, vários estudos realizados na Espanha, indicavam que o navio Santo Cristo de Burgos simplesmente desapareceu.
Exploradores
Craig Andes é um pescador comercial e que pertencia a um grupo de garotos que cresceram explorando a costa, inspirados em contos de tesouro. Ele começou a compartilhar seu conhecimento sobre os artefatos da área com a SAM, depois de ler uma notícia sobre a busca ao Naufrágio da Cera de Abelha.
Essa informação incluía a presença de pedaços de madeira nas cavernas marinhas que Andes avistou pela primeira vez em 2013. Ele percebeu que eram madeiras de navios, e em 2020, entrou em contato com a sociedade e levou uma amostra da madeira.
Uma análise de laboratório revelou que as madeiras foram cortadas de Anacardiaceae, uma espécie de madeira tropical encontrada na Ásia. A datação por radiocarbono indicou que a árvore foi derrubada por volta de 1650. Ambos os fatos se alinham diretamente com a composição e idade do Santo Cristo.
Durante o verão de 2020, os arqueólogos da SAM investigaram as cavernas, que são acessíveis apenas por água ou uma perigosa escalada sobre rochas em marés extremamente baixas, e encontraram um depósito secundário de madeiras, indicando que não faziam parte de um local de naufrágio, mas o que surgiu na superfície, acabou sendo levado para a caverna, possivelmente pelo tsunami de 1700.
Os arqueólogos também concordaram que as madeiras corriam o risco de serem arrastadas para o mar, mas extraí-las da caverna marinha seria complicado e perigoso. Teriam apenas cerca de 90 minutos para documentar e remover as madeiras antes que a maré subisse e ficassem presos pelo mar. Uma equipe de especialistas foi recrutada para recuperar as madeiras, com o financiamento do National Geographic Society. Cada madeira será digitalizada em detalhes e serão compartilhadas com especialistas do galeão Manilla em todo o mundo, para compreender como os navios foram construídos.
A fonte da cera de abelha e porcelana que ainda chega ao longo da costa permanece em algum lugar no mar, e o SAM continuará sua busca pelos restos do Galeão Santo Cristo de Burgos.
Possui algum conteúdo relacionado ao mergulho e acha que pode ser interessante dividir com outros mergulhadores ?
Envie um conteúdo para a principal revista eletrônica sobre mergulho do Brasil.




