Visitando um Naufrágio desconhecido na Bahia

László, meu grande parceiro e mestre de mergulho, me ligou com uma novidade.

Haviam passado para ele uma marca de um naufrágio não identificado no litoral norte da Bahia. Não só de um, segundo o informante, de dois naufrágios, um colado ao outro, e de épocas distintas. Um navio de madeira e outro de chapa rebitada.
Uma marca no jargão de mergulho é uma coordenada (latitude / longitude) de um ponto de interesse no fundo do mar. Pode ser um pesqueiro ou um naufrágio.

Ouvi com ceticismo. Parecia o enredo do filme “The Deep” de 1977, onde um casal (a belíssima Jacqueline Bisset e Nick Nolte) encontra um naufrágio submerso sobre outro. Um avião carregado de drogas sobre um galeão espanhol cheio de ouro. Este filme já vi, pensei. Dois naufrágios de épocas diferentes no mesmo lugar num oceano tão vasto !

Pouco provável.

Mas ele complementou: outro mergulhador havia passado uma marca em outra ocasião que coincidia com esta. Era um pescador de compressor.

Para quem não sabe, a pesca de mergulho com compressor é proibida pelo IBAMA. Dizima espécies maiores e este tipo de caçador submarino normalmente não respeita as normas: pesca mero, lagostas de qualquer tamanho e no defeso, etc.

Além do crime ambiental, é um dos principais inimigos da arqueologia subaquática, pois são os primeiros a descobrir naufrágios históricos e os saquear. Peças do patrimônio histórico que deviam estar expostos em museus vão para coleções particulares.

Mas duas pessoas passando a mesma marca ?

Muita coincidência.

Aí a história ganha credibilidade.

Partimos de Salvador sábado de manhã para uma navegação de mais de 3 horas. O mar deveria estar quase liso pela previsão do CPTEC (ondas abaixo de 1 metro) mas não era isto que víamos. Estava calmo, mas com swell de nordeste.

Há algum tempo sem fazer mergulho fora da Baía eu alimentei os peixes diversas vezes. Como consolo, lembrei que quando vomito, o mergulho tradicionalmente é bom. Superstição otimista.

Chegamos no ponto para descobrir que havia um problema na direção da lancha Blue, do László. O leme apresentava problemas. O mestre Jorginho repôs óleo no sistema hidráulico, mas parecia que havia um vazamento.

Mesmo assim tentamos posicionar sobre o naufrágio. László notou na sonda uma proeminência no fundo, ou seja, o fundo era plano e algo se sobressaia dele. E coincidia com a marca. Habilmente colocou a lancha sobre a posição e jogamos a âncora.

Ele desceu na frente. Estava com rebreather (circuito fechado) e eu com circuito aberto (uma dupla de aço de 15 litros com 232 BAR). Ele tinha mais autonomia e assim teria tempo de procurar o naufrágio acaso não descêssemos exatamente sobre ele.

Combinamos que eu cairia 10 minutos depois. Mas o conserto de um pequeno vazamento de gás em um regulador me atrasou e só desci quase meia hora após.

Sem correnteza, que maravilha !

No litoral norte é usual ter correntezas bem fortes, o que cria um forte arrasto e grande esforço natatório do mergulhador, especialmente o técnico que desce com vários cilindros de deco ou bailout.

 

Foto: Peter Tofte

 

O mergulho

Aos 30 metros já delineava o fundo a 65 metros de. Ao me aproximar vi as luzes da filmadora de László e notei que a âncora do nosso barco caiu junto de uma âncora almirantado. Um monte de pedras de lastro delineava o formato do naufrágio. Ou seja, era um barco a vela de madeira do século 19 ou anterior. Bem na mira o nosso fundeio.

Visibilidade excelente. Comecei a percorrer os destroços. Não havia artefatos visíveis. Piratas já haviam feito uma limpa. Embora o ponto não seja conhecido por mergulhadores recreativos e técnicos, mergulhadores profissionais e pescadores de compressor já haviam estado ali. Desconfio que algumas lendas do mergulho baiano já visitaram este site.

Cavilhas grandes de bronze e o tamanho do amontoado de pedras de lastro indicavam que o veleiro era grande para os padrões da época.

László prendeu dois cilindros de bailout em cavilhas para não precisar carregá-los durante a realização do vídeo.

Algumas peças de ferro, um fogão, um guincho e as âncoras se destacavam. Não havia canhões. Era um mercante.

Em direção a popa do navio havia um conjunto ligeiramente separado que me pareceu ser outro naufrágio, como o mergulhador informante disse. Mas se era estava bastante assoreado (coberto) pela areia. László achou que na verdade era um único naufrágio. Fica para conferir em futuras expedições.

Acredito que se é de fato outro naufrágio, a explicação lógica é que o barco com rebites de ferro estava explorando o naufrágio antigo quando afundou. Nos tempos dos navios com casco de rebite, já existia o escafandro (aqueles pesados equipamentos com capacete de bronze alimentados por mangueiras vindas da superfície).

 

Foto: Laszló Mocsári

 

O ponto é um pesqueiro conhecido. Iscas artificiais e chumbadas mostravam que pescadores iam até aquele local. Cardumes de jaguriçás e olhos de cão desfilavam. Entre as pedras avistava alguns badejos sabão.

László achou uma garrafa de vinho do Porto com a inscrição do fabricante. No Google, descobriu-se que a fábrica passou a produzir vinhos a partir de 1860. Ou seja, o naufrágio deve ser do século 19.

Após meu limitado tempo de fundo, passei a subir e cumprir as etapas de descompressão. O swell provocava um balanço chato no cabo da âncora. Preso a ele pelo jon line, tinha que constantemente ajustar minha profundidade de descompressão. Mesmo assim era tranquilo. Já pegamos coisa muito pior.

László resolveu também subir atrás de mim, mas pegou uma descompressão bem maior, tendo em vista que ficara pelo menos meia hora mais no fundo. Mergulhar aos 65 metros de profundidade, não é moleza.

A bordo, alegres, comentamos sobre o belíssimo mergulho, uma volta ao passado, visitando uma cápsula do tempo.

 

Croqui do Naufrágio – Por: László Mocsári

Desenho: László Mocsári

 

 

Imagens do mergulho no naufrágio

 

 

Galeria de Fotos – Por: László Mocsári

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Veja também:

Mergulho no naufrágio não identificado de Arembepe – Litoral norte de Salvador

Mergulhadores de Salvador realizam pesquisa para identificar naufrágio.

Desconhecido

Ficha técnica do naufrágio
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