Essa é a história de um “mistério” sobre um antigo navio a vapor, que me intrigava há cerca de 25 anos. Estimo que tenha sido no ano de 1998 que eu encontrei, na empresa onde trabalhava, um autêntico blue print (uma cópia de projeto, “impresso” em tecido) de um navio chamado “SS Cotovia”, datado de 1911.
A primeira coisa que pensei, quando encontrei esse projeto, foi que em 1911 o Titanic ainda nem havia afundado; então me caiu a ficha de que eu estava diante do desenho de um navio realmente muito antigo.
Essa cópia do projeto do SS Cotovia eu encontrei nos escritórios do antigo Moinho Fluminense, uma fábrica de farinhas de trigo então de propriedade da Santista Alimentos S.A., localizada no bairro da Saúde, na região do Porto do Rio de Janeiro.
Foi exatamente em julho de 1997, que ali iniciei o meu primeiro trabalho remunerado.
O Moinho Fluminense era uma fábrica de origem inglesa, construída em 1887, e cujo alvará de funcionamento fora assinado pela Princesa Isabel. Ele foi o primeiro moinho de trigo do Brasil, ou seja, antes da sua construção, toda a farinha de trigo consumida no país tinha que ser importada.

Naquele ano de 1997, cursava a graduação em Engenharia Civil, e fui contratado como estagiário para auxiliar os engenheiros do departamento de Engenharia de Fábrica.
Auxiliava, em especial, na obra de ampliação do Silo nº 3, um novo gigante de concreto e aço com cerca de 70 metros de altura, que estava sendo construído próximo ao cais do porto, entre as avenidas Venezuela e Rodrigues Alves.

Um longo túnel, com uma esteira para transporte de trigo, conectava o Moinho Fluminense ao Porto do Rio de Janeiro, passando por baixo da Avenida Rodrigues Alves, a via mais movimentada da região.
Uma única vez tive a oportunidade de atravessar esse túnel, e com a esteira em funcionamento transportando trigo, uma experiência claustrofóbica. Tive que percorrer aquele longo túnel abaixado, no escuro, usando a própria camisa como máscara, pois não havia levado uma para me proteger da poeira dos grãos.
Essa esteira era destinada a transportar, aos silos, os trigos que recebíamos por navio. Pela via marítima, recebíamos grãos oriundos do Canadá e da Argentina, nesse caso, da Bahía Blanca, a cidade cujo porto de grãos é o mais importante do país.
Um outro grande desafio de engenharia que tínhamos que lidar era com a manutenção civil das fachadas da fábrica, de arquitetura inglesa antiga. Como eram fachadas tombadas pelo patrimônio histórico, precisávamos mantê-las impecáveis, recuperando-as dos efeitos da poluição dos escapamentos dos carros e das carretas de trigo, mas principalmente, da maresia da Baía da Guanabara.
Em certa ocasião, no ano de 1998, decidimos promover uma grande arrumação no local onde eram armazenados os desenhos dos projetos da fábrica. Uma grande sala, com três postos de trabalho, mesa de desenhista, e armários metálicos com centenas de projetos em papel vegetal armazenados.
Naqueles dias auxiliei o último desenhista remanescente da equipe, o Sr. Ladislau, a descartar todos os desenhos em papel que não tinham mais serventia para nós, e que só acumulavam poeira. Durante essa arrumação, para minha surpresa, encontramos o desenho especial, enrolado em um tubo de papel: um blue print de navio cargueiro a vapor, datado de 1911.
Aqui abro um parêntesis para explicar que, naquela ocasião, eu não fazia ideia do que seria um blue print. Somente anos mais tarde descobri que um blue print era uma cópia de um projeto, na verdade.
No início do século XX, para se fazer uma cópia de um projeto, fazia-se um blue print dele, ou seja, uma cópia em tecido de linho, tingido de azul com uma mistura de citrato de amônio férrico e ferrocianeto de potássio.
O tecido era exposto à luz, e nas áreas que não estavam escurecidas pelas linhas do desenho original, a luz provocava as reações químicas para formar o azul. Depois o tecido era lavado com água, o que produzia uma imagem negativa, de linhas brancas sobre um fundo azul.
Evidentemente, como todo bom engenheiro que também é mergulhador, eu nunca descartaria no lixo um projeto de um navio antigo, com os demais desenhos obsoletos. Seu destino seria um belo quadro na parede, pensei.
Olhando mais atentamente aquele blue print, percebi que o navio, segundo informação escrita à mão no verso, chamava-se “SS Cotovia”, cujo prefixo indicava se tratar de uma embarcação movida a vapor, Steam Ship, o normal para a época. Nitidamente era um navio cargueiro, para transporte de grãos.
Na legenda, no canto inferior direito, encontrava-se o nome do estaleiro inglês que o projetou, Irvine’s Ship Building & Dry Docks Co. Ltd., e a data do desenho original, 8 de fevereiro de 1911. Completava a informação na legenda a localidade do estaleiro, West Hartlepool, na Inglaterra.


Por volta de 1998, época em que encontramos o desenho, a internet já estava bastante avançada, porém, nas minhas primeiras pesquisas, não encontrei na rede nenhuma informação sobre o SS Cotovia. Então o blue print do navio cargueiro seguiu guardado comigo, por anos a fio.
Não me recordo exatamente o que me levou a fazer nova tentativa de buscar na internet, oito anos depois, em 2006, informações sobre o Cotovia. A minha dúvida não era somente conhecer detalhes do navio, se fora realmente construído ou se era apenas um projeto, mas também tentar descobrir o que uma cópia dele estaria fazendo no Moinho Fluminense. Evidentemente, o transporte de trigo até o Rio de Janeiro, por esse navio, era quase uma certeza de ter sido realizado. Mas teria como origem o Canadá, ou a Argentina ?
Naquele ano de 2006, enviei mensagens a algumas instituições de Hartlepool, cidade portuária do Condado de Durham, na Inglaterra, onde o navio teria sido construído, e enfim, consegui as primeiras informações sobre o Cotovia. E eram informações muito surpreendentes: ele não só havia sido construído, como havia se tornado um naufrágio da 1ª Guerra Mundial.
O SS Cotovia foi construído naquele ano de 1911 mesmo, conforme consta no desenho, e foi afundado apenas seis anos depois, em 1917, pelo submarino alemão UC-49.
Transcrevo aqui a resposta que recebi da senhora Sandra Mckay, assistente do Departamento de Referências da biblioteca municipal de Hartlepool:
De: “inf***@hartlepool.gov.uk” <inf***@hartlepool.gov.uk>
Para: “am***@yahoo.com.br” <am***@yahoo.com.br>
Enviado: segunda-feira, 3 de julho de 2006 às 14:07:01 GMT-3
Assunto: re: SS Cotovia
Dear A. Lisboa
In reply to your enquiry regarding the SS Cotovia we have found the following information. The ship was built by Irvines Shipbuilding and Dry Docks Co. Ltd at the Middleton Yard. Its machinery was built by Richardson and Westgarth, the ship was built in 1911 for Frumenton S.S. Co London and it weighed 4020 tons and was 370 feet long. (Shipbuilders of the Hartlepools p61). Its master was C.E Hawkins, it had one deck which was built from part steel part iron, the ship was 50.2 feet in breadth and 24.9 feet in depth. (Lloyds Register 1922-1923). She sank along with her cargo of flax on her voyage from Archangel for Dundee on the 22/7/1917 by mines South of Auskerry, her wreck sits 8 miles N.E of Mull Head Orkneys. Her wreck is flat with three boilers and engine block standing proud and sits in 40m of water.
(http://www.beyondmagazine.co.uk/wreck/dnlights.htm)
Hope this information is satisfactory
Yours sincerely
Sandra Mckay
Reference Assistant
Reference Department
Hartlepool Borough Libraries
O site que me foi enviado como referência ao final da resposta, infelizmente já não está mais disponível na internet. Mas, felizmente, naquela ocasião eu salvei em arquivo a tradução do texto desse site, que fiz na época.
“Um mês após o naufrágio do Tosto, o UC-49 estava mais uma vez ativo ao largo de Orkney, abrindo um campo minado em Kirkwall e reivindicando o navio a vapor Cotovia, de 4.020 toneladas, junto com sua carga de linhaça. O Cotovia, construído em West Hartlepool em 1911, terminou seus dias em 22 de julho de 1917, afundando em 40 metros de profundidade.
E aqui ele ficou esquecido até quatro anos atrás, quando foi encontrada acidentalmente por Mark Halsted, capitão do barco de mergulho ‘Sunrise’ enquanto estava a caminho das Ilhas do Norte – nem mesmo os pescadores locais pareciam saber do Cotovia. Eu mergulhei no naufrágio pela primeira vez há três anos, a bordo do ‘Jean Elaine’, e a visibilidade era incrível, de 15m abaixo eu podia ver o topo do bloco do motor coberto por dedos de homens mortos. O naufrágio está plano com suas três caldeiras e bloco do motor em pé, caixas de projéteis espalhadas pela popa onde termina o eixo da hélice. Este é um grande naufrágio e serão necessários dois ou mais mergulhos para ver tudo – um bom mergulho com nitrox!”
Essas informações que consegui sobre o SS Cotovia, considerando que em 2006 eu já era um mergulhador com alguma experiência em naufrágios, me deixaram muito empolgado. Dessa forma o desenho do SS Cotovia continuou muito bem guardado comigo, por alguns anos mais.
O Moinho Fluminense encerrou suas atividades em 2016, no local onde funcionou por mais de um século, 129 anos para ser mais exato. A produção de farinhas dessa unidade, agora de propriedade da BUNGE Alimentos, foi transferida para um novo e moderno moinho em Duque de Caxias, na baixada fluminense. O antigo Moinho, hoje, pertence a um grupo de investidores, que deverá transformá-lo em um espaço multiuso no Porto Maravilha, recebendo escritórios, bares, restaurantes e espaços para eventos.
Em março de 2023, anos depois de ter conseguido essas informações sobre o Cotovia, enfim defini um local para colocar o seu desenho em um quadro na parede. E novamente iniciei pesquisas na internet, no sentido de tentar descobrir o que uma cópia do seu projeto estaria fazendo no Moinho. E dessa vez, enfim, consegui encontrar a peça que faltava nesse quebra-cabeças.
Nas pesquisas de 2023 cheguei aos sites da Fundação Biblioteca Nacional e da Biblioteca do Ministério da Fazenda no Rio de Janeiro, onde encontrei dois jornais ingleses que eram publicados no Rio antigo do início do século XX: o The Brazilian Review, e o Wileman’s Review, que pelo que percebi, posteriormente mudou de nome para Wileman’s Brazilian Review. Ambos os jornais traziam, em suas edições, a relação de todos os navios que chegavam e partiam do Rio de Janeiro, a cada semana, com as respectivas origens e destinos.
O primeiro desses jornais que encontrei, coincidentemente o mais antigo deles, foi o The Brazilian Review nº. 3, de 21 de janeiro de 1913, e lá está, de forma clara na página 77, a ponta solta que faltava para desvendar essa história: o Cotovia relacionado nas chegadas ao Rio de Janeiro, na semana de 10 a 16 de janeiro de 1913, oriundo da Argentina:
“Jan, 10. – COTOVIA, British s.s, 2527 tons from Bahia Blanca”
Essa linha, enfim, confirmava o que sempre desconfiei, que o Cotovia realmente foi um dos navios cargueiros que traziam trigo ao antigo Moinho Fluminense. E tendo como origem a importante Bahía Blanca. Muito provavelmente, alguém da tripulação do SS Cotovia esteve nos escritórios do Moinho Fluminense onde acabou deixando essa cópia, que permaneceu esquecida por todos esses anos.

Pesquisando outras edições desses jornais eu encontrei novos registros de chegadas e partidas do SS Cotovia entre o Rio de Janeiro e a Argentina, que transcrevo a seguir.
Wileman’s Review nº. 10 – 9 de março de 1915 – pág. 104:
- Chegada: “Feb, 19. – COTOVIA, British s.s, 2527 tons from Rosario”
- Partida: “Feb, 24. – COTOVIA, British s.s, 2527 tons for Rosario”
Wileman’s Brazilian Review nº. 37 – 14 de setembro de 1915 – pág. 475:
- Chegada: “Sept, 9. – COTOVIA, British s.s, 2527 tons from Bahia Blanca”
Wileman’s Brazilian Review nº. 16 – 18 de abril de 1916 – pág. 242:
- Chegada: “April, 12. – COTOVIA, British s.s, 2527 tons from Bahia Blanca”
Wileman’s Brazilian Review nº. 30 – 25 de julho de 1916 – pág. 465:
- Chegada: “July, 14. – COTOVIA, British s.s, 2527 tons from Bahia Blanca”
- Partida: “July, 17. – COTOVIA, British s.s, 2527 tons for Bahia Blanca”
Animado com mais essa descoberta, segui com as pesquisas e cheguei ao mais completo site europeu sobre naufrágios, talvez o mais completo de toda a internet, o portal belga wrecksite.eu. Nele, consegui comprar por 4 Euros todos os dados disponíveis sobre esse naufrágio, incluindo as exatas coordenadas do local onde jaz o navio.
O local onde se encontra o naufrágio do SS Cotovia fica próximo de Kirkwall, maior cidade das Ilhas Órcades (Orkney Islands), arquipélago localizado no Mar do Norte, cerca de 16 km ao largo do norte da Escócia. As Ilhas Órcades são um verdadeiro cemitério de navios de guerra torpedeados, e de outras embarcações que colidiram com as rochas das ilhas internas, mais próximos da costa.
No site de uma das operadoras locais, a Orkney and Shetland Charters, encontra-se a impressionante relação dos naufrágios da região norte das Órcades. Nessa região, além do SS Cotovia, encontram-se os naufrágios dos seguintes navios e embarcações:
- SS Giralda
- SS Svinta
- SMS Remus
- RFA Daghestan
- HM Yatch Zarefah
- ST Oceana
- SS Aorangi
- SS Llama
- SS Bellavista
- SS Tosto
- MFV Kingston Turquoise
- MS Manina
- FV Freesia
- HMD Endeavour
- HMD Loch Garry
- SS Loch Maddy
- SS Swiftsure
- Grumman Avenger torpedo bomber
- MFV Elegance.
Desnecessário comentar que, a partir do momento que conheci todos os fatos sobre o SS Cotovia, mas principalmente, depois que descobri que se trata de um naufrágio possível de se mergulhar, fiquei bastante interessado em um dia visitar a região.
Em um contato preliminar com a operadora citada, me foi informado que eles fazem expedições de mergulho regulares para os naufrágios do norte das Órcades. Porém, não podem garantir que um dos mergulhos seja realizado no naufrágio do Cotovia em específico, em função das condições do Mar do Norte.
De qualquer forma, futuramente pretendo arriscar e embarcar em uma das expedições deles, a bordo do MV Valhalla, uma antiga embarcação da Marinha Real britânica que foi transformada em liveaboard.
Em condições menos favoráveis de mar o mergulho é praticamente garantido em Scapa Flow, um enorme porto natural abrigado no interior das Ilhas Orkney, com mais de 360 km quadrados de área. No final da Primeira Guerra Mundial, em 1919, havia nada menos que 52 navios e submarinos que faziam parte da frota alemã, afundados intencionalmente em Scapa Flow.
Quase todos foram recuperados e trazidos à superfície no século passado, mas ainda restam “Os sete grandes”, exploráveis em mergulhos que variam entre 28 a 45 metros de profundidade: SMS Markgraf, SMS Kronprinz Guilherme, SMS König, SMS Brummer, SMS Dresden, SMS Cöln, e SMS Karlsruhe.
A região marítima de Scapa Flow é uma verdadeira cápsula do tempo da primeira grande Guerra, suas águas são relativamente calmas, mas as correntes são fortes (daí o nome Scapa Flow). Por isso, mergulhadores menos experientes devem ter cuidado. Os naufrágios ficam a aproximadamente 50 minutos de navegação desde o porto de Stromness, uma belíssima cidadezinha portuária com casas de pedras, e um patrimônio marítimo incomparável.
Com um simples desenho de navio em tecido de linho me ligando à história dos naufrágios da Primeira Guerra Mundial, mergulhar no norte da Escócia, um destino bastante incomum entre os mergulhadores brasileiros, passou a ser um dos meus grandes objetivos. E obviamente, escrever um novo artigo para contar mais essa parte da minha história pessoal com o “SS Cotovia”.


Auder M. V. Lisboa
Iniciou no mergulho em meados da década de 90, submergindo em apneia para pescar e para coletar peixes e invertebrados para os seus aquários.
Posteriormente passou a mergulhar para registrar a vida marinha em fotos e vídeos.
É mergulhador avançado CMAS e Nitrox IANTD, e nos intervalos de superfície, trabalha como engenheiro na usina hidrelétrica de Itaipu.



