Relatório de Acidente de Mergulho – Bonito 2008

Mergulhador: Inaldo M. A.
IANTD Trimix Diver e Technical Cave # 100792
DAN # 1552878
Dupla no mergulho Nelson Marinelli Neto
Estado do dupla após o mergulho:    Normal
Data do mergulho: 24 de agosto de 2008
Local do mergulho: Lagoa Misteriosa – Jardim-MS
Objetivo do mergulho: Topografia para a “Expedição Lagoa Misteriosa Topo 2008”
Plano de mergulho realizado: 70m @ 20’
60m @ 15’
45m @ 1’
42m @ 1’
39m @ 1’
36m @ 1’
33m @ 2’
30m @ 1’
27m @ 2’
24m @ 2’
21m @ 3’
18m @ 4’
15m @ 5’
12m @ 6’
9m @ 12’
6m @ 14’
3m @ 26’

 

 

Relato

Era seu segundo dia de mergulho durante a “Expedição Lagoa Misteriosa Topo 2008”, expedição realizada de 12 a 31 de agosto de 2008 com o objetivo de topografar a Lagoa até os 70 m de profundidade, exigência do Plano de Manejo Espeleológico da Cavidade.

Inaldo e Nelson Marinelli Neto “Teco” planejaram o mergulho utilizando o programa Deco Planner 3.1 com gradiente de 5 e 85. Os gases a serem utilizados foram: fundo Trimix 17/50 e descompressão com EAN 40 e O2.

Após o mergulho a dupla permaneceu na superfície por aproximadamente 20 minutos, Inaldo saiu da água apresentando muito cansaço. Pedimos para ele se deitar e descansar e passamos a monitorá-lo. Permaneceu nesta posição por 15 min. e apresentou pequena melhora. Permanecemos no deck por mais duas horas e então ele reclamou de dores no quadril. Oferecemos oxigênio, mas ele recusou, disse que estava apenas cansado da viagem realizada dois dias atrás (cerca de 1.600 km de Brasília-DF a Jardim-MS).

Uma grande escadaria separa o ponto de mergulho do local onde os carros ficam estacionados. Inaldo, mesmo possuindo um bom condicionamento físico (praticante de ciclismo) apresentou grande dificuldade de subir a enorme quantidade de degraus. Assim que chegou perguntei se precisava de algo e ele disse que estava ok, porém, muito cansado.

Quando chegou a seu carro e guardou seus pertences, começou a passar mal (náuseas e enjoo). Assim que chegamos à base, a cerca de 2 km da Lagoa, ele relatou as náuseas e enjoo e imediatamente assumimos que era doença descompressiva; sendo colocado deitado e aquecido na cama e passamos a ministrar oxigênio. Eram 16h30min do dia 24 de agosto de 2008.

Após 40 minutos respirando O2, ele apresentou uma leve melhora. Acionamos a DAN às 17h30min, conseguimos contato com a Embratel cerca de um minuto depois e com mais um minuto contatamos a DAN. Fomos atendidos em inglês e solicitamos um operador que falasse português ou espanhol, o que foi prontamente feito.

17:50h – Conversamos com o Dr. Brian (DAN) que nos orientou sobre os primeiros socorros, os mesmos que havíamos realizado. Questionou sobre os sinais e sintomas, plano de mergulho e histórico de mergulho anterior. Perguntou se havia algum hospital próximo e se o mesmo possuía serviço de emergência médica (ambulância). Dissemos que não e que o levaríamos em nosso carro, a opção mais rápida.

17:55h – As ligações estavam sendo feitas do escritório da fazenda e a equipe que monitorava o mergulhador acidentado nos informou através do rádio que ele estava com frio, que a dor nas pernas havia aumentado e que continuava a respirar oxigênio.

18:04h – Durante a conversa com a atendente da DAN, passamos o número do telefone do Hospital de Jardim.

18:05h – Fizemos contato com a Patrícia da DAN e ela confirmou que ele estava em status e passou o telefone do Sérgio Viégas, um dos representantes da DAN no Brasil.

18:12h – Fizemos contato com Viégas. Informamos tudo o que já havíamos feito e que ele disse que iria para o escritório dele para nos ajudar no que fosse possível.

18:51h – Chegada ao Hospital Marechal Rondon em Jardim-MS.

18:53h – Conversamos com Dr. Santana, médico plantonista e informamos que se tratava de um acidente de mergulho.

18:56h – Inaldo passou a utilizar o O2 do hospital e a fazer alguns exames de rotina.

19:06h – Inaldo reclama de dores severas na perna direita, quadril, tornozelo direito e braço direito. Uma mancha vermelha do lado direito da barriga e abdômen se forma.

19:08h – Dr. Santana faz exame na região abdominal e Inaldo reclama de dor no local.

19:12h – Dr. Santana administra Dipirona.

19:15h – Inaldo muito enjoado quase vomita.

19:16h – O médico administra Plasil intramuscular

19:18h– O mergulhador recebe soro com 10 gotas por minuto.

19:19h – Sérgio Viegas afirma que iria ligar para a DAN e em dez minutos entraria em contato conosco.

19:34h – Dr. Vinhaes (Médico Hiperbárico voluntário, representante da DAN no Brasil) telefona para mim e pede um relato do ocorrido. Relatei todos os fatos e ele começou a me orientar. Disse para que permanecêssemos calmos, pois Inaldo estava sob cuidado médico. Afirmou que teríamos que tomar todas as decisões com calma e que precisaríamos removê-lo para um centro hiperbárico. Perguntou-me onde o mergulhador morava, eu informei que era em Brasília-DF, mas que os pais residiam em São Paulo.

Inaldo havia solicitado para ser enviado à São Paulo. A remoção seria feita por via aérea, tendo em vista que na região só se voa por orientação visual e o resgate ocorreria pela manhã através do aeroporto de Bonito-MS, distante 60 km do Hospital. O Dr. Vinhaes pediu para conversar com o Dr. Santana para que ele pudesse ajudar o colega.

19:59h – Coloco o Dr. Vinhaes para conversar com Dr. Santana. Durante a conversa, Dr. Santana relatou o que já havia feito e deu alguns detalhes: saturação está em 99%, Freq. 80 p/ min., PA 114/70, apresenta dor na região abdominal e perna, respira O2 e recebeu analgésico e soro. Pediu exame de glicemia, hemograma e um Raio-X do pulmão. Disse que o batimento cardíaco estava bom e que ele apresentava um pouco de sudorese.

20:17h – Término da ligação entre os médicos.

20:30h – Informo ao Dr. Vinhaes que Inaldo possuía plano Amil 50 com resgate. O médico trabalha para esta empresa e conhece as pessoas que trabalham no resgate.

21:18h – Dr. Santana pede para eu ligar para Dr. Vinhaes para passar o resultado dos exames. Durante a conversa diz que o hemograma está normal, apenas o leucócito está extremamente alto e a glicemia em 127. Dr. Vinhaes me diz que ele está vendo as possibilidades de resgate com a Amil e pede para eu aguardar.

21:53h – Ligação do Hot Line da DAN querendo saber sobre o estado do paciente.

22:18h – A Amil resgate entra em contato conosco buscando mais informações sobre o local onde ele está e por onde ele poderá ser removido.

22:20h – Inaldo está no quarto com soro, oxigênio e dormindo, aparentemente relaxado.

22:25h – Dr. Vinhaes liga e diz que a Amil não opera a noite para este local, que teríamos que mantê-lo estável e que pela manhã aconteceria a remoção, pois o local não apresenta segurança para um voo noturno. Inaldo deveria manter-se hidratado e que poderíamos alimentá-lo com uma vitamina de frutas caso ele não viesse a enjoar.

22:50h – Volto ao quarto com uma vitamina de frutas e água, Inaldo relata que as dores diminuíram: braço quase sem sentir nada, um pouco de dor nas pernas, um pouco no quadril e que a vermelhidão na barriga estava menor.

23:27h – Dr. Vinhaes liga para avisar que um médico irá me telefonar para falar com o médico local, a fim de providenciar a remoção de avião por Bonito ainda esta noite.

23:55h – Sra. Malu (responsável pelo transporte aéreo) liga e diz que o avião chegará às 05h00min (horário local) e que sairá de São Paulo às 2h do dia 25/08/2008. Teríamos que providenciar uma ambulância para a remoção até o Aeroporto além de buscar a médica e o enfermeiro no aeroporto para trazê-los a Jardim a fim de removê-lo.

00:10h – Dr. Vinhaes telefona para saber se o médico da Amil havia ligado. Pegou o número do celular da responsável pelo transporte. Avisa que Inaldo seria transferido para o Hospital 9 de Julho, que já havia uma equipe esperando.

00:40h – Malu conversou com o médico local para remover o Inaldo às 4h. Informou que a médica responsável pelo resgate seria Dra. Ludmila, e pediu para Dr. Santana providenciar uma ambulância assim que a equipe médica chegasse ao hospital.

01:33h – Malu liga e diz que está com dificuldade com a Policia Federal no aeroporto de Congonhas; não havia autorização para decolagem pois, o aeroporto central de São Paulo termina suas operações às 23h e retoma às 5:30h. Peço então para que ela me dê o número da Polícia Federal para eu tentar explicar o tipo de emergência que tínhamos. A Policia Federal me pediu para que a Amil passasse um fax solicitando a autorização, pois eles não abrem e-mail durante a noite e o pedido enviado pela empresa de resgate havia sido feito via e-mail.

02:00h – O avião da Amil decola de São Paulo com destino a Londrina-PR (parada para abastecimento).

05:03h – A aeronave chega a Bonito trazendo Dra. Ludmila.

06:05h – Chego ao hospital com a médica e o enfermeiro e pedimos para providenciar a ambulância.

06:30h  – Saímos de Jardim com Inaldo na ambulância.

07:30h  – Chegamos com Inaldo no Aeroporto.

08:00h – O avião decola com destino a Campo Grande-MS para abastecimento e prévia outra parada em Presidente Prudente-SP com o mesmo objetivo, pois o voo seria baixo e isso consome muito combustível.

11:30h – Inaldo chega a São Paulo; como os ventos estavam a favor, não ouve necessidade do segundo abastecimento.

12:00h – Entrada de Inaldo no Hospital 9 de Julho, onde é recebido pela Dra. Marisa e sua equipe.

Após três dias de internação e três sessões em câmara hiperbárica, Inaldo recebe alta e vai para casa.

 

Equipe de resgate

  • Johnny
  • Teco (Nelson Marinelli Neto)
  • Vagner Marretti
  • Daniel Romio
  • Clécio Mayrink

Nota: Posteriormente foi detectado que o mergulhador possuía Forame Oval Patente, sendo o motivo para a doença descompressiva.

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