Cuidados especiais com a Caixa Estanque

Algum tempo atrás estava conversando com um amigo sobre alagamento de caixas estanques, e lembrei que em 1998 enquanto estava entrando na Caverna da Sapata em Fernando de Noronha, num determinado momento me dei conta de um pequeno “riacho” que saía do o-ring da tampa traseira da minha caixa estanque. Esse “riacho” seguia até o meio da caixa.

Por falta de conhecimento na época, demorei pra entender o que estava acontecendo, por era a minha primeira caixa estanque e que havia sido adquirida uma semana antes, então, tudo era novidade…

Quando me dei conta que esse pequeno “riacho” era água entrando na caixa, a virei de forma que, o domo ficasse para baixo e nadei correndo em direção à superfície, pois estava no início do mergulho. Como usava uma lente grande angular e a caixa possuía uma extensão para frente, me veio à cabeça que virando a câmera para baixo, o nível da água iria demorar para alcançar a câmera, pois teria que preencher o espaço da lente grande angular até alcançar a câmera, e assim, teria mais tempo para tentar salvá-la, e deu certo !

Rapidamente pedi ajuda ao pessoal na embarcação, pedindo também, pra manter a caixa virada com o “domo” para baixo, deixando a água somente no domo.

Mais um minuto e tudo teria ido embora.

Isso aconteceu em razão de um minúsculo grão de areia que havia ficado entre o o-ring e o berço, devido a minha preguiça em não querer limpar e lavar a caixa todos os dias após os mergulhos, por causa da correria todos os dias.

Depois desse “acorda Clécio”, nunca mais….  atenção total, pois toda limpeza nunca é demais, e aprendi na prática as consequências.

Vejamos alguns pontos…

 

Na embarcação

Antes de maia nada, não quero dizer que que sou o dono da razão, mas a experiência nos ensina bastante, então, vamos lá…

Particularmente sou contra deixar a câmera, seja ela de vídeo ou foto, nos baldes de água “doce” durante a navegação ou entre um mergulho e outro. A água nunca é limpa e após o mergulho, ela passará a ter mais salinidade por causa da água que chega junto com a câmera e principalmente do interior dos braços articulados, que normalmente acabam retendo muita água salgada.

Além disso, há sempre aqueles “bak’s” (pancadas) entre as câmeras e o recipiente, ou entre as próprias câmeras. Os equipamentos podem ficar se debatendo entre eles, possibilitando que alguma lente fique arranhada, e se isso ocorrer, será um transtorno, pois será preciso ver se é possível recuperar a lente através de polimento, caso seja de acrílico. Se for de vidro, esqueça. Só comprando outro.

Retornando do mergulho, lave com água doce. Sendo possível, pegue uma toalha, molhe e envolva na caixa, deixando-a à sombra. Isso permitirá equalizar a temperatura da caixa com o ar e diminui as chances de embaçar o interior da mesma.

 

Pelo sob o o-ring - Foto: Clécio Mayrink
Pelo sob o o-ring – Foto: Clécio Mayrink

 

Evite ficar muito tempo boiando na superfície

Outro ponto importante e que poucos se atentam ou sequer sabem… a falta de pressão no o-ring quando estamos na superfície.

Na superfície o mergulhador está mais apto a ter problemas com a vedação da caixa estanque do que no mergulho propriamente dito. Enquanto estamos na superfície, não há pressão superior atuando no o-ring (com exceção das travas), sendo possível em raras exceções, a entrada de pequenas gotas no interior da caixa sem que o mergulhador perceba. Além disso, pode haver um acúmulo de sal, o que é perigoso.

Contrário ao que muitos pensam, as travas da tampa traseira servem apenas para manter a tampa realizando o “esmagamento” do o-ring traseiro, para que este mantenha a vedação entre o intervalo de superfície e os primeiros metros durante a descida. Se o mergulhador soltar as travas embaixo d’água à partir de uma certa profundidade, é impossível remover a tampa traseira. A própria pressão da água fará com que a tampa fique fixada e não solte. Embaixo d’água as travas não possuem função alguma.

 

Sol

Fique longe dele para que não ocorram problemas com umidade e pressão no interior da caixa.

O choque de temperatura da caixa estanque contra a da água, seja ela salgada ou doce, pode acarretar em condensação, criando uma “neblina” na lente da câmera e da caixa, impossibilitando a captação de imagens.

Quanto à variação de pressão interna, isso é difícil de ocorrer, mas é possível que haja um “micro deslocamento” do o-ring dependendo do formato e do berço. Com o calor do sol sob a caixa, haverá um aumento da pressão no interior dela. Essa variação pode ser mínima, mas todo cuidado é pouco.

 

Oring

 

Lubrificação de o-ring’s

Muitos afirmam que o uso de silicone é recomendável, mas é preciso tomar cuidado.

Conversando com um especialista na área, essa coisa de “lubrificar” o-ring tem aspectos contraditórios e que geram riscos.

O correto é trocá-lo de tempos em tempos. A lubrificação só contribui para que pelos e grãos se aderem à massa do silicone, que pode parecer pouca, mas pode acarretar em problemas.

Outro aspecto, é que muitas caixas utilizam o-ring de silicone, logo, usar silicone com intuito de lubrificar não faz o menor sentido, porque não existe lubrificação de silicone no silicone. O-ring de borracha sim, ficam mais úmidos após uma lubrificação de silicone e estende o tempo de vida útil, mas o o-ring de silicone não… ele simplesmente racha.

 

Porque vira e mexe escutamos que um mergulhador teve seu equipamento inundado ?

Na maioria das vezes a causa tem como origem o pelo ou grão no o-ring, que passou despercebido, ou então, a falta de manutenção do equipamento. O duro é que todos estão à mercê disso, sendo uma coisa complicada mesmo, pois mesmo com toda a atenção, às vezes fica alguma coisa passa sem ser visto.

 

Remova os pelos ou grãos utilizando um paninho.
Remova os pelos ou grãos utilizando um paninho.

 

Com o tempo e em razão do contato com o sal, sol e calor, micro rachaduras podem aparecer no o-ring. Um exemplo disso em escala maior, são as rachaduras nas mangueiras dos reguladores. Se você não torcer bem a mangueira, é complicado encontrar essas rachaduras, imagine em um o-ring de caixa estanque que é bem menor…

A melhor solução para as caixas estanques, seriam caixas com botões de comando nos punhos, o que diminuiria muito as chances de alagamento da caixa estanque pelos botões de comando.

Algum tempo atrás um fabricante chegou a lançar uma caixa com essa característica, onde os botões na empunhadura enviavam os comandos para a câmera através de infravermelho, utilizando o próprio acrílico da caixa para enviar o sinal. Funcionava bem mesmo estando embaixo d’água.

Mas enquanto não temos uma solução melhor e continuamos com essas dezenas de o-ring em nossas caixas, o melhor a fazer é tomar todo o cuidado com o equipamento.

Dê preferência em deixar seu equipamento em cima de algum tecido (casaco, bolsa ou toalha), de forma que eles se ajustem conforme o peso e contorno.

 

Pino do disparador normalmente encontrado nas caixas da Ikelite.
Pino do disparador normalmente encontrado nas caixas da Ikelite.

 

Botão de disparo das Caixas Ikelite X Alagamento

Resolvi acrescentar mais esse último tópico em razão de um problema nos botões de disparo das caixas Ikelite, pois muitos já passaram por esse problema e o fabricante parece não se preocupar com essa falha de projeto.

Estava em Recife em 2009, onde tive a oportunidade de conhecer o pessoal muito bacana da produtora Dolphin Eye. Durante as saídas de mergulho, infelizmente ocorreu um alagamento de uma das caixas estanques utilizadas por eles, e chegou-se à conclusão, que devido à um problema no projeto, as caixas da Ikelite podem facilitar um alagamento.

Basicamente, diversos botões de disparo feitos pela Ikelite, possui um pino que ajuda no disparo feito pelo mergulhador, o problema, é que esse pino não é colocado por fixação (soldagem / colagem), mas por rosqueamento. Com o tempo, esse pino se desenrosca e repentinamente solta durante o mergulho, a água entra por essa rosca até alcançar os interior da caixa, alagando a mesma por completo.

Se você possui ou cogita comprar uma caixa dessas, esteja sempre atento a este pino do disparador, pois ele jamais poderá se soltar durante o mergulho.

Antes de mergulhar, verifique antes se o pino está rosqueado até o final, ou talvez, dê um pingo de cola Araldite Profissional para tentar dificultar que ele venha a sair durante o mergulho e você perca seu equipamento.

Clecio Mayrink

Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.

Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.

Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.

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