Caos no incêndio de um Liveaboard no Egito recentemente

Durante o incêndio recentemente noticiado por nós da embarcação Sea Legend, recebemos a informação de que todos os mergulhadores e tripulantes que se encontravam a bordo (exceto um), conseguiram escapar da embarcação com vida, costa egípcia.

Até o momento não houve nenhuma declaração oficial sobre o desaparecimento do mergulhador e surgem detalhes sobre o incêndio que varreu o Sea Legend, no Mar Vermelho, no Egito.

O Sea Legend fazia parte da frota da empresa Dive Pro Liveaboards, partiu de Hurghada para Daedalus e Elphinstone, numa viagem de 7 dias, em 17 de fevereiro, com o incidente ocorrendo cinco dias depois.

Muitos dos 17 mergulhadores teriam originalmente reservado outros liveaboards, mas foram informados por e-mail, dias antes da partida, que, devido a “questões operacionais”, eles estariam sendo transferidos para o Sea Legend, mesmo em cima da hora.

Construído em 2019, o liveaboard com casco de aço de 42m foi construído para acomodar 32 pessoas e equipado com dois botes de mergulho com 6.5m de comprimento cada um. Possuía ainda, oito cabines abaixo, quatro delas no convés principal entre a cozinha e o restaurante, duas no convés superior e duas suítes.

Entre os equipamentos de segurança listados pela Dive Pro, haviam botes de emergência, coletes salva-vidas, alarme de incêndio e extintores de incêndio. O Sea Legend substituiu outro liveaboard chamado Scuba Scene (mais detalhes aqui) depois que ele pegou fogo em 2022, embora tenha sido um contrato de aluguel temporário.

A turista desaparecida do Sea Legend, era uma alemã de 50 anos, mãe de dois filhos e que viajava sozinha. Havia outros nove convidados alemães, além de dois italianos, dois argentinos e um americano, um francês e um chinês de Cingapura, além do capitão, 10 tripulantes e dois divemaster.

 

Relatos

Segundo o jornal italiano Lecce Prima, eles conversaram com o casal italiano, os instrutores de mergulho Gennaro Palomba e Isabella Ruggeri, após o incêndio. Segundo eles, durante a madrugada do dia 22 de fevereiro, por volta das 3:30h, Palomba dormia em uma das cabines do convés principal, disse ter sido acordada pelo cheiro de fumaça oriunda da cozinha e que seguia em direção à proa. Gennaro e Ruggeri saíram e descobriram que havia um incêndio no restaurante. Sem tripulação à vista, ele deu o alarme.

Os mergulhadores reuniram-se na popa, diante do risco do fogo atingir os cilindros de mergulho. A fumaça preta era soprada sobre eles enquanto a embarcação continuava navegando normalmente.

A certa altura, uma uma chamada foi realizada, e a turista desapareceu, em meio aos caos da evacuação, segundo os italianos. Relatórios subsequentes sugeriram que a presença de um tripulante extra não incluído no complemento oficial poderia ter confundido a questão.

Não havia botes salva-vidas e aparentemente poucos coletes salva-vidas à vista. Os tripulantes lançaram os dois botes de mergulho na água, com grande dificuldade, em razão das condições do mar, vento forte e cm o Sea Legend ainda me movimento, sendo ainda preciso, ter que nadar até os botes.

Outro turista confirmou todos foram alertados pelos próprios mergulhadores, que batiam nas cabines para acordá-los. A evacuação foi caótica e deixaram o barco em chamas 10 minutos após o alarme manual de emergência ser acionado. Pra piorar, um dos botes não dava partida no motor e acabou sendo amarrado ao outro bote por uma corda, para que pudesse ser rebocado.

Ainda segundo relatos, demorou algum tempo até que os mergulhadores percebessem que uma ligação do Mayday poderia não ter sido feita e começassem a pedir ajuda em seus celulares.

“Quando pedimos ajuda pela primeira vez às autoridades egípcias, mencionámos que estávamos a 3 km da costa, com base no nosso melhor palpite. Cerca de uma hora depois, às 5:15h, estávamos a cerca de 6 km da costa, com a corrente nos movendo para o sul, afirmou um mergulhador. A cidade mais próxima era Hamraween, ao norte de El Quseir e a cerca de 9 km de distância daquele ponto.

Um dos botes não estava totalmente inflado e estava enchendo de água. Com poucos avanços, os dois barcos se separaram por volta das 6h. O outro então, se dirigiu para Hamraween na tentativa de chegar antes que fosse inundado, o que acabou ocorrendo, pois ao se aproximar de um cais por volta das 6:30h, os passageiros tiveram que nadar os últimos 200 metros até a costa, chegando a sofrer alguns cortes, em razão de alguns recices na praia.

A tripulação da ambulância e a polícia, juntamente com repórteres e fotógrafos, teriam se reunido no cais, observando enquanto os sobreviventes lutavam para chegar à costa.

Enquanto isso, o outro bote estava à deriva enquanto seus ocupantes esperavam por ajuda., sendo resgatados mais tarde pela Marinha egípcia por volta das 6:45h, embora essa operação também foi outro caos, porque exigiram que os mergulhadores e tripulantes, subissem uma escada de alumínio para o navio, diante de um mar muito agitado, disse um dos mergulhadores. Diversas vezes tripulantes e mergulhadores escorregaram e quase caíram no mar ou quase esmagados entre o navio e o bote. A tentativa só foi abandonada quando o bote foi lançado com tanta força contra o navio da Marinha, fazendo com que a escada se quebrasse.

Somente quando todos se reuniram na praia, foi possível perceber que a turista alemã estava desaparecida.

 

O caos não tinha acabado

As dificuldades dos mergulhadores não terminaram quando voltaram à terra firme. Segundo uma das testemunhas de todo esse caos.

“Tivemos uma experiência muito desagradável com a polícia / investigadores egípcios que estavam obtendo nossas declarações sobre o incidente. Embora estivéssemos muito privados de sono e acabado de vivenciar este acidente traumático e fatal, não houveram palavras de boas-vindas e nem qualquer empatia demonstrada pelas autoridades. Nem mesmo se apresentavam como investigadores.”

Sem intérpretes disponíveis, coube a um representante da operadora do Liveaboard, e mais tarde a um membro do Ministério do Turismo, traduzir e fornecer a ligação entre os mergulhadores e aqueles que os entrevistavam.

Foram instruídos a escrever a linha específica: “Não há suspeita criminal de causar o incêndio e ninguém foi acusado de causar o incêndio”.

Posteriormente as declarações escritas em inglês e a transcrição da entrevista foram traduzidas para o árabe, e fomos instruídos a assinar a cópia em árabe, sem saber o que estava escrito. Quando foi solicitada uma tradução linha por linha, a cópia em árabe continha erros e interpretações errôneas, incluindo o acréscimo de novas informações que não foram mencionadas pelos mergulhadores.

A polícia afirmou que os relatórios seriam enviados para as embaixadas dos respectivos países dos mergulhadores, mas nada foi enviado até recentemente. Também não houve qualquer atualização por parte das autoridades sobre os esforços na busca e resgate da mergulhadora desaparecida.

 

Um dia depois

A Dive Pro, que operava o Liveaboard, forneceu roupas e itens essenciais, juntamente com acomodação em Safaga, para que os mergulhadores pudessem resolver a documentação de passaportes perdidos, antes de transferi-los para suas respectivas embaixadas no Cairo. Dois representantes da Dive Pro também acompanharam os mergulhadores até a capital e os ajudaram no escritório de imigração.

No entanto, um dos mergulhadores alegou que foram necessárias negociações prolongadas para garantir duas noites num hotel barato no Cairo para 14 pessoas e o dinheiro para substituir passaportes perdidos, refeições e transporte.

A Dive Pro também concordou em cobrir as tarifas aéreas dos mergulhadores que perderam seus voos originais, embora nenhum pagamento de compensação tenha sido feito pelos bens perdidos.

 

Perigo iminente

Os mergulhadores sobreviventes perceberam que muitos recursos e procedimentos de segurança estavam gravemente ausentes no liveaboard Sea Legend.

Não houve menção pela tripulação quanto aos coletes salva-vidas durante as instruções de segurança do barco, alarmes de incêndio e detectores de fumaça nos quartos não funcionavam e e os extintores de incêndio estavam vazios ou não funcionavam.

A tripulação não soou o alarme para acordar e reunir todos os passageiros quando o incêndio foi detectado pela primeira vez, restando muito pouco tempo para a evacuação.

Nenhum colete salva-vidas foi distribuído ou usado quando ocorreu a evacuação para os botes e não houve sinalizadores de emergência. Posteriormente descobriu-se pela Dive Pro que a embarcação não possuía seguro.

 

Investigação

A Dive Pro Liveaboards respondeu através de um representante, que a operadora não poderia comentar o assunto até receber o relatório final do Ministério Público.

A Câmara de Mergulho e Desportos Aquáticos (CDWS), representante oficial da indústria de mergulho do Egito, investiga acidentes relacionados com mergulho, mas deixou claro que não é a entidade legal responsável por acidentes com embarcações marítimas.

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